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terça-feira, 8 de outubro de 2019
Meus francos pensamentos/sentimentos de agora
Estar viciado é ruim. Mas muita gente não sabe qual é a parte ruim do vício. É lógico que perder saúde e dinheiro é péssimo. Perder oportunidades e amizades é pior ainda. Mas a parte mais difícil de estar viciado em algo é tentar deixar esse algo. Parar de usar alguma droga é muito estranho: é como se você optasse por perder o sentido da própria vida. Você se sente como se houvesse um buraco vazio dentro de você que só ela poderia preencher (mas não vai, porque você a abandonou). É como abandonar a própria família, porque a droga é a sua família. Ela te traz conforto, te faz se sentir bem quando você está mal, e te dá um sentindo para viver. Deixá-la de lado é perder tudo isso. É perder o abraço que te consola quando você quer chorar.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Me...
O mar é azul, mas não é da cor do mar. É mais escuro, e tem mais visibilidade. E eu posso ver suas estrelas no fundo, brilhando para mim como despedida.
A popa é um lugar deprimente. É aonde vamos para lembrar do que deixamos para trás. Talvez seja por isso que, nas caravelas, a cabine do capitão se localiza nela. No meu caso, olhar para o passado me faz querer aumentar a velocidade, navegar mais rápido. Fugir da terra que me prendia.
O problema é que você pode até não o ver, mas o lugar de onde você fugiu continua lá, existindo. Os habitantes ainda se lembram de você. E a qualquer momento, você pode voltar, só por curiosidade, e acabar se arrependendo.
As caravelas portuguesas possuíam cruzes vermelhas. As minhas não: São totalmente brancas. Mas isso não significa que eu não possua um guia invisível. Minha viagem é guiada pelo sentimento de deixar a angústia e viver em branco, mesmo que seja só por alguns momentos. Afastar-me um pouco do mundo.

Me…
Há algo que eu odeio na terra. A forma como as coisas se repetem. Você tem uma montanha aqui, e logo na frente tem outra montanha, e depois outra. Uma praia aqui, depois uns rochedos. Além deles, outra praia e outros rochedos. Tudo é muito repetitivo e deprimente.
Certo, no mar a gente só tem ondas e estrelas, que também são repetitivas, bem mais do que qualquer coisa na terra. Mas eu me sinto livre quando estou navegando. É uma repetição que não me faz doer.
Na terra, tudo é doloroso. E ir para o mar só vai tornar a terra mais dolorosa ainda quando eu voltar. Mas eu não consigo resistir, estou preso a essa sensação de liberdade. Eu tenho que fugir da terra. Tenho que ir para o mar. É onde tudo faz sentido mesmo sem fazer sentido algum.
me acorda ?
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Insignificante
Um zumbido era a única coisa que passava por dentro da
minha cabeça. Eu tentava enxergar o mundo, mas ele estava embaçado e girando à
minha volta. Tentei encontrar o chão, mas a única sensação que meus pés me
transmitiam era um agonizante confinamento. Estava ficando tão desesperado que
arranhei o solo: Era a minha última chance de ter certeza de que estava em
algum lugar. Não sei como descrever quão bom foi saborear cada um dos grãos
daquela superfície áspera raspando entre a carne e a unha dos meus dedos. A dor
intensa não superava a deliciosa sensação de que eu não estava perdido no
universo.
Quando acabou, a sensação não era mais tão ruim. Mas
ainda era muito ruim. Eu estava sem forças nem sequer para levantar do chão.
Minhas pernas estavam bambas e minha cabeça doía. Eu só queria que tudo
acabasse. Só queria dormir e esquecer a minha existência. Eu nem sequer tinha um motivo para levantar do
chão, poderia ficar ali até o dia da minha morte, que não demoraria muito. Não
tinha ânimo para encarar a realidade. No mal estado em que me encontrava, a
última coisa que eu queria era ficar procurando dinheiro para voltar para casa.
Eu não tinha nem certeza se seria aceito em casa, daquele jeito.
A cada passo que eu dava, tinha cada vez mais a sensação
de que havia milhares de pregos dentro do meu tênis. Cada segundo que passava
demorava toda a eternidade, fazendo-me sentir imortal. Isso é, se eu pudesse
dizer que estava vivo. Parecia que o zumbido e as pontadas no fundo do meu
cérebro nunca mais me deixariam.
Fiquei ofegante. Era demais esperar que meu corpo
exercesse tanto esforço nas condições em que eu me encontrava. Apoiei-me em
alguma parede pelo caminho e deixei que meu corpo escorregasse vagarosamente
até ficar deitado na calçada. No fundo, eu sei que o chão gosta muito de mim.
Parece que existe uma atração irrepreensível entre a minha pessoa e a
humilhação de cair em lugares imundos, impulsionada pelo fardo do fracasso que
carrego em meus ombros. Ficar inconsciente na calçada é nojento. Chego a me
comparar com os mendigos e os bêbados que se perdem na noite.
O raiar do sol é mais uma humilhação indireta de Deus.
Todas as pessoas decentes já acordaram e agora se dirigem aos seus empregos. No
final do mês vão receber o pagamento, comprar comida e aproveitar com a
família, o que torna acordar um passo diário na busca de suas ambições.
Enquanto isso, pessoas como eu só veem o amanhecer como mais uma etapa no
fracasso de viver. A verdadeira humilhação é sentir o cheiro da borracha dos
sapatos que quase pisam na sua cabeça, sem que os olhares de seus donos
encontrem o seu.
Diziam-me constantemente que eu me sentiria um lixo, que
nada disso jamais seria útil, que eu acabaria morrendo mais cedo. Mas o
suicídio também sempre esteve em minha mente. Eu só escolhi uma forma
alternativa, e um pouco mais lenta, de realiza-lo. Eu sei que assim eu acabo
sofrendo mais. Mas pelo menos não estou destruindo a minha vida, porque, afinal
de contas, ela nunca foi construída.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Refração
Estou observando um horizonte cinzento ao pôr do Sol. O tempo passa ao meu redor, e as pessoas estão retornando aos seus lares. Eu não tenho um lar para voltar. O Sol não pode se pôr para mim.
Estou observando um horizonte cinzento ao pôr do Sol. O tempo passa ao meu redor, mas não passa dentro de mim.
O que você está fazendo? Ele diz. Mas meus olhos turvos não conseguem distingui-lo direito. Eu tenho que retornar à minha tarefa. O que você está fazendo, ein, mano? Ele diz. Eu olho para ele.
Meu coração quebrou. Meu coração quebrou, mano.
E agora, mano? Ele diz. Eu posso te ajudar?
Sim, eu trouxe cola. Olha aqui. Cola sempre conserta tudo, na falta de mães. Eu olho para ele. Confuso? Como pode não entender? Mães consertam tudo. Mas nem todos têm mães, e não se pode arranjar uma em qualquer lugar. Mas eu tenho cola, e ela tem o mesmo efeito.
E agora, mano? Ele diz. Como eu posso te ajudar? Você sabe... Com a cola? Onde eu passo?
Não passe. Só inale.
Estou andando sozinho na calçada. Cercado por prédios deteriorados, que um dia não existiam fora dos projetos de um arquiteto. Pessoas haviam comprado apartamentos antes deles estarem prontos.Estou andando sozinho na calçada. Cercado por ruínas do que um dia foram sonhos.
Quando seu coração quebrou? Ele diz. Mas minha mente confusa não consegue recordar quem ele é. Eu tenho que retornar aos meus pensamentos. Quando seu coração quebrou, ein, mano? Ele diz. Eu tento lembrar dele.
Ele nunca esteve inteiro. E agora mesmo, ele está em chamas, mano.
E agora, mano? Ele diz. Eu posso apagar?
Não, é uma má ideia. Olha aqui. Mães, lares, todas essas coisas. Eu olho para ele. Confuso? Como pode não entender? Nada disso nunca foi real. Foram só sonhos. E agora restam só ruínas, em chamas. Restam só cinzas. Resta só essa fumaça que me sufoca.
E agora, mano? Ele diz. Como eu posso te ajudar? Você sabe... Apagar esse fogo? Acabar com a fumaça?
Não apague. Só inale.
Estou virando a cabeça para vomitar. Não posso vomitar em mim mesmo. Ficaria sujo, fedido. Mas por que as pessoas não querem ficar sujas e fedidas? Para agradar aos outros? Então eu não preciso virar a cabeça.
Estou virando a cabeça para vomitar. Não posso continuar vivendo em mim mesmo.
sábado, 5 de março de 2011
A Minha Droga
Eu grito “Porra!”. Ou melhor, eu não grito, eu só penso
em gritar, por que nos últimos meses eu tenho me tornado cada vez menos
expressiva. Eu penso rápido, mas meu corpo demora a obedecer aos meus
pensamentos. E às vezes ele nem obedece, minhas atitudes ficam só na minha
mente.
Como agora. Perdi o trem por muito pouco. “Porra!” Agora
vou ter que esperar 15 minutos para pegar o próximo. E o pior de tudo não é
porque eu vou ter que esperar. Mas sim porque a frustração de eu ter perdido o
trem me fez pensar em usar droga de novo. A cada mês que passa, eu tenho tido
mais vontade de usar, cada vez em situações mais comuns. Meu cérebro está sendo
intoxicado, não consigo me livrar desses pensamentos.
Isso é terrível. Eu me tornei uma pessoa diferente depois
que eu fiquei dependente. Perdi meus amigos. Eles têm me achado estranha demais. Eu nunca estou sintonizada com nada, porque não gosto mais das mesmas
coisas que eles. Não vejo mais graça em assistir um filme, comer um lanche ou
ficar fazendo piadas. A única coisa que eu consigo me interessar é pela a
droga. Outros assuntos não prendem minha atenção e eu começo a viajar dentro da
minha própria mente, pensando na droga.
Eu não me relaciono com eles nem eles comigo.
Eu destruí meu relacionamento com a minha família. Como
sempre se é de esperar, eles odeiam que eu use droga. Mas ao invés de tentar me
ajudar, eles só me ameaçam. Falam que se eu continuar fazendo as coisas que eu
faço, eles vão me foder. Eles não procuram ajuda para mim. Só ficam me
ameaçando e falando coisas que não me interessam. E depois que eu fiquei
dependente, prestar atenção nas coisas tem sido difícil para mim. O clima
dentro da minha casa tem sido só de brigas.
Eu tenho um namorado. Algumas vezes, quando estamos
juntos, eu me sinto satisfeita e livre. Isso é ótimo. Mas não dura para sempre.
Minha vontade de usar acaba voltando. No início, eu tento resistir. Mas quanto
mais eu resisto, pior eu me sinto. Vou ficando triste, muito triste, como se
nada na minha vida tivesse sentido. Todos os erros que eu cometi e todos os
meus problemas voltam à tona em minha cabeça e parecem insolúveis. Parece que
minha vida nunca vai ser normal e que a única coisa que eu posso fazer para me
sentir bem é usar a droga. Meu corpo inteiro começa a se retorcer para que eu
use de novo. Começo a perder a noção do tempo, tudo o que eu vivi parece não
ter sido nada, e cada segundo que estou vivendo parece demorar um milênio,
enquanto eu não uso a droga. Minha vida então não tem mais valor algum. Eu não
quero mais ter saúde, eu não quero mais ter amigos, eu não quero mais a minha
família. Eu só quero a minha droga. Eu só quero a minha droga. Se eu não a
consigo, eu começo a desejar a morte. Porque morrer é melhor do que viver sem
razão. A única razão para eu viver é poder usar a droga de novo. Se eu não
pudesse usar a droga de novo, eu me mataria.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Indiferença
Feliz Dia de Nossa Senhora Aparecida; Dia das crianças não é feriado.
Outro texto antigo, dessa vez uma crônica:
Já passava das sete horas, era inverno e a noite era fria e escura. Suzana dirigia um pequeno e apertado uno branco com adesivos da empresa. Aquele era seu último destino do dia, ela deveria levar a notícia da vitória ao vencedor do concurso de redações do jornal. O problema era que ele morava em um complexo de difícil acesso. As ruas eram escuras, cheias de buracos e quase impenetráveis. Suzana já estava ante a última rua antes da do seu destino. Era uma grande ladeira, as rodas do carro escorregavam na lama e os buracos e pedras fizeram a parte de baixo do carro ser atingida inúmeras vezes. As rodas derrapavam enquanto o carro continuava parado. Ela parou de acelerar e desceu vagarosamente o pouco da rua que ela tinha conseguido subir.
Estacionou lá mesmo e desceu do carro. Ela estava de salto alto e seria difícil subir a mesma rua. Mas ela viu uma escadaria a alguns metros de distância, no meio do morro, que provavelmente daria no mesmo lugar. Resolveu seguir por ela. Alguns postes de luz iluminavam um pouco a escada em algumas partes, mesmo assim ainda era muito escuro. Podia-se ouvir o som de grilos, pessoas conversando e música em algum lugar distante. Os degraus eram irregulares e isso acabou deixando Suzana cansada. Ela avistou um pouco à frente, de baixo da luz de um dos postes, uma pessoa que andava de um lado para o outro. Usava roupas grandes, largas, provavelmente doadas. Um capuz escondia sua face. Ela ficou temerosa. Por quais motivos uma pessoa ficaria àquela hora andando de um lado para o outro, no meio do nada?
Ela achou melhor desviar, entrando em uma viela que ligava um dos patamares da escada à rua. Subindo a ladeira ela ficou mais cansada ainda. Passou na frente de um bar, de onde vinham as vozes e a música. Vários homens, todos de aparência horrível, desleixada, bebiam cerveja e riam alto. Provavelmente, todos bêbados. Era horrível de se ver aquilo. O que leva uma pessoa a aceitar isso como estilo de vida? Ela passou reto. Achou que os homens iriam mexer com ela, mas nem a notaram. Para sua sorte, o bar não era tão longe da rua do garoto. Ela foi até a casa que deveria ser onde o garoto morava. Ela bateu na porta. De dentro, ouviu gemidos e murmúrios. Ninguém apareceu. Ela bateu novamente e esperou um pouco.
Uma mulher gorda, toda descabelada e com os olhos inchados abriu a porta. Suzana pensou que ela provavelmente também estaria bêbada. A mulher disse:
- “Quié”?
- Olá, eu sou Suzana, representante do Jornal local, e queria anunciar que o garoto Eduardo Souza venceu o concurso de redações que foi feito na escola dele.
A mulher fez uma careta. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Ela respondeu:
- Ele se suicidou...
Suzana ficou paralisada. Isso foi um choque. Ela não esperava isso. Sua respiração ficou descompassada. Ela não sabia o que fazer. Quando conseguiu se recuperar um pouco, disse “obrigada” e deu as costas para mulher, que fechou a porta sem dizer nada. Suzana não conseguia parar de pensar nisso. Olhou os papéis, o garoto devia ter somente 16 anos. Por que motivo uma criança dessas iria se suicidar? Como deveria ser a vida dele, para chegar a esse ponto? Isso foi aterrorizante. Surpreendente. Ela não tinha palavras para descrever. Quem diria que um trabalho no diário como o dela poderia ser tão emotivo? Ela jamais havia imaginado passar por uma situação dessas.
Quando ela notou que estava descendo as escadas ao invés de seguir pela rua para não passar pelo garoto estranho, já era tarde demais. Lá estava ele, andando de um lado para o outro ainda, alguns metros a sua frente. Ela ficou com medo. Achou melhor seguir reto, indiferente, para não chamar atenção nem levantar suspeitas. Quando ela saiu da escuridão para a luz onde o garoto se encontrava, com seus passos rápidos e expressão indiferente, ele se jogou para o lado e ficou em posição defensiva. Ele se assustou com Suzana. Ela pôde olhar dentro do capuz. Era um garoto muito novo, devia ter 13 anos. Seus olhos expressavam medo, receio, preocupação. Suzana, surpreendida, ficou paralisada por um instante, mas logo o medo a fez sair de lá e continuar seu caminho. Seu coração estava quase pulando para fora da garganta garganta. Ela não conseguia pensar em nada até terminar de descer as escadas. Entrou no carro.
Enquanto voltava para a sede do diário, pensava nos acontecimentos daquela noite. Por que motivos o garoto havia cometido suicídio? E o outro que estava nas escadas, estava preocupado com o quê? Ela começou a se sentir culpada. Talvez o que se assustou com ela também estivesse pensando em suicídio. E na hora, ela só estava preocupada em sair logo de lá. Talvez o garoto precisasse de atenção, e ela pudesse fazer alguma coisa. Mas não. E agora ela estava indo para a sede do jornal e depois para casa, para poder tomar um banho e dormir em sua confortável cama.
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