Martelada depois de martelada, eu repetia, incessantemente, pregando madeira a madeira. Estava muito calor, a casa era abafada, a cidade quente, e eu sentia as gotas de suor escorrendo pelas minhas costas. Estava martelando um estrado para a minha nova cama. Tanto a estrutura de madeira quanto as ripas que eu martelava, eu havia conseguido no lixão, de manhã. Afinal de contas, aquele era meu dia de folga, mas mesmo assim eu acordei logo cedo. Tive que conseguir uma cama para passar a noite na casa onde estava. Tinha alugado o imóvel por uma semana, para saber em que estado tudo se encontrava. Eu sabia que lá havia baratas, por isso quis ter pelo menos uma cama para passar as noites. O ambiente também estava fedido, mas disso e das outras coisas eu cuidaria no dia seguinte. Se algum problema não tivesse jeito, eu iria tratar com o proprietário. Eu precisava observar a real condição da casa, pois os donos pediram trinta e cinco mil reais para vendê-la, e meu dinheiro era curto, eu precisava verificar se realmente o custo valia a pena antes de fazer um financiamento no banco. Por isso aluguei a casa por uma semana, para ver como ela estava antes de comprá-la e me mudar. Afinal de contas, eu me interessei por aquela casa pela sua localização: Bem em frente ao cemitério. E também ouvi boatos de que alguém havia morrido lá dentro. Acho que por esses dois fatores o valor do imóvel estaria bem acessível. Mas não custa nada verificar se não havia encanamentos quebrados ou instalações elétricas mal feitas, quem sabe eu poderia reduzir ainda mais o custo. Eu sei que comprar um imóvel próprio ainda estava fora da minha capacidade, meu salário no novo emprego ainda era baixíssimo. Mas em longo prazo, eu economizaria muito mais comprando aquela casa do que morando no hotel. Quando eu me mudei para aquela cidade, não havia nenhum imóvel disponível. Nos primeiros dias, hospedei-me em um hotel precário no centro da cidade. Não havia roupa de cama, o banheiro era imundo, a água do chuveiro, fria. Mais tarde negociei para pagar um valor mais baixo, em troca, eu mesmo arrumaria o meu quarto, não precisaria das camareiras. Afinal de contas, eu mal passava a noite lá dentro, não havia sequer motivo para arrumarem nada. E também naquela cidade no fim do mundo, não havia turismo, praticamente. Eu sozinho durante um mês já seria uma fonte de lucros imensa para o hotelzinho. Por outro lado, se eles cobrassem muito caro na diária, eu não iria conseguir pagar com o meu salário de coveiro. Falando nisso, eu trabalhava no cemitério, por isso que procurei uma casa que ficasse de frente para ele. O salário era relativamente alto para quem só precisava ficar colocando caixões dentro do jazigo e depois cimentando, ou tirando os ossos antigos e colocando dentro de um saco no ossuário. Sem falar que a maior parte do tempo eu não fazia nada além de assistir televisão com o porteiro. Agora, com uma casa do lado do local de trabalho, eu poderia ir fazer uma limonada para eu e o Tonho tomarmos enquanto assistíamos Sessão da Tarde. Ele gostava de Domingão do Faustão, mas eu não podia assistir, domingo era um dos dias mais lotados no cemitério. Às vezes, de manhã, também assistíamos os desenhos da Cultura. Descobri que tanto eu como ele gostávamos do sentimento de lembrar da infância. O Tonho uma vez me perguntou por que eu me mudei para aquela cidade de velhos, para trabalhar num cemitério e ficar longe dos amigos, dos bailes, das garotas da capital. Eu respondi que nada disso realmente me interessava. Os amigos? Irritantes, não eram amigos de verdade. As baladas? Irritantes, não eram divertidas de verdade. As garotas? Irritantes, não eram mulheres de verdade, somente garotas. Preferia uma vida tranquila e solitária no interior, trabalhando como coveiro mesmo. Eu também estava planejando subir na carreira no cemitério, quem sabe me tornar maquiador, depois vendedor de caixões e jazigos, mais tarde seria o gerente. Ou então aproveitaria o imóvel que estava comprando e montaria uma floricultura, do lado do cemitério. Tudo era promissor. Talvez não tão promissor quanto a minha vida antes de mudar para aquela cidade, mas mesmo assim seria melhor para mim. Eu acabei me mudando para lá depois de ver um anúncio na internet, no site da cidade, dizendo que o cemitério e algumas lojas no centro estavam precisando de funcionários. Eu nunca me dei bem com outras pessoas, preferi me tornar coveiro, menos estressante e mais bem pago do que vendedor. Eu precisava sair da minha antiga casa na capital. Eu sei que lá eu tinha um futuro, meus pais me sustentariam por um bom tempo e eu poderia fazer uma faculdade. Mas não havia mais como eu suportar aquela vida. Tudo o que eu fazia, antes devia ser julgado pelos meus genitores. E maioria das vezes, eles só reprovavam minhas atitudes. O clima de reprovação, de julgo, de desgosto com que todos me olhavam só me fazia sentir um peso naquela casa. Não se relacionar bem com os pais é algo até que normal, mas a partir do momento que você tenta fazer tudo ficar bem e a única coisa que consegue são olhares de desprezo e de reprovação, sua única vontade é de sair daquele lugar. Eu não sentia mais aquela casa como sendo um lar. Parecia mais um presídio. Eu mal conseguia me aplicar aos meus estudos, de tão mal que me sentia. Realmente valeu a pena ter me mudado para aquela cidadezinha no meio do nada e longe de tudo. Pelo menos fiquei bem longe da minha família. Vivia com humildade, mas o novo emprego e todas as minhas tarefas de solteiro solitário ocupavam a minha mente, e eu já não me sentia mal. Aos poucos, aquela quente, abafada, seca, minúscula e desabitada cidadezinha do interior se tornava mais um lar para mim do que a capital foi por todos os anos que eu morei lá.
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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Prego Torto
Martelada depois de martelada, eu repetia, incessantemente, pregando madeira a madeira. Estava muito calor, a casa era abafada, a cidade quente, e eu sentia as gotas de suor escorrendo pelas minhas costas. Estava martelando um estrado para a minha nova cama. Tanto a estrutura de madeira quanto as ripas que eu martelava, eu havia conseguido no lixão, de manhã. Afinal de contas, aquele era meu dia de folga, mas mesmo assim eu acordei logo cedo. Tive que conseguir uma cama para passar a noite na casa onde estava. Tinha alugado o imóvel por uma semana, para saber em que estado tudo se encontrava. Eu sabia que lá havia baratas, por isso quis ter pelo menos uma cama para passar as noites. O ambiente também estava fedido, mas disso e das outras coisas eu cuidaria no dia seguinte. Se algum problema não tivesse jeito, eu iria tratar com o proprietário. Eu precisava observar a real condição da casa, pois os donos pediram trinta e cinco mil reais para vendê-la, e meu dinheiro era curto, eu precisava verificar se realmente o custo valia a pena antes de fazer um financiamento no banco. Por isso aluguei a casa por uma semana, para ver como ela estava antes de comprá-la e me mudar. Afinal de contas, eu me interessei por aquela casa pela sua localização: Bem em frente ao cemitério. E também ouvi boatos de que alguém havia morrido lá dentro. Acho que por esses dois fatores o valor do imóvel estaria bem acessível. Mas não custa nada verificar se não havia encanamentos quebrados ou instalações elétricas mal feitas, quem sabe eu poderia reduzir ainda mais o custo. Eu sei que comprar um imóvel próprio ainda estava fora da minha capacidade, meu salário no novo emprego ainda era baixíssimo. Mas em longo prazo, eu economizaria muito mais comprando aquela casa do que morando no hotel. Quando eu me mudei para aquela cidade, não havia nenhum imóvel disponível. Nos primeiros dias, hospedei-me em um hotel precário no centro da cidade. Não havia roupa de cama, o banheiro era imundo, a água do chuveiro, fria. Mais tarde negociei para pagar um valor mais baixo, em troca, eu mesmo arrumaria o meu quarto, não precisaria das camareiras. Afinal de contas, eu mal passava a noite lá dentro, não havia sequer motivo para arrumarem nada. E também naquela cidade no fim do mundo, não havia turismo, praticamente. Eu sozinho durante um mês já seria uma fonte de lucros imensa para o hotelzinho. Por outro lado, se eles cobrassem muito caro na diária, eu não iria conseguir pagar com o meu salário de coveiro. Falando nisso, eu trabalhava no cemitério, por isso que procurei uma casa que ficasse de frente para ele. O salário era relativamente alto para quem só precisava ficar colocando caixões dentro do jazigo e depois cimentando, ou tirando os ossos antigos e colocando dentro de um saco no ossuário. Sem falar que a maior parte do tempo eu não fazia nada além de assistir televisão com o porteiro. Agora, com uma casa do lado do local de trabalho, eu poderia ir fazer uma limonada para eu e o Tonho tomarmos enquanto assistíamos Sessão da Tarde. Ele gostava de Domingão do Faustão, mas eu não podia assistir, domingo era um dos dias mais lotados no cemitério. Às vezes, de manhã, também assistíamos os desenhos da Cultura. Descobri que tanto eu como ele gostávamos do sentimento de lembrar da infância. O Tonho uma vez me perguntou por que eu me mudei para aquela cidade de velhos, para trabalhar num cemitério e ficar longe dos amigos, dos bailes, das garotas da capital. Eu respondi que nada disso realmente me interessava. Os amigos? Irritantes, não eram amigos de verdade. As baladas? Irritantes, não eram divertidas de verdade. As garotas? Irritantes, não eram mulheres de verdade, somente garotas. Preferia uma vida tranquila e solitária no interior, trabalhando como coveiro mesmo. Eu também estava planejando subir na carreira no cemitério, quem sabe me tornar maquiador, depois vendedor de caixões e jazigos, mais tarde seria o gerente. Ou então aproveitaria o imóvel que estava comprando e montaria uma floricultura, do lado do cemitério. Tudo era promissor. Talvez não tão promissor quanto a minha vida antes de mudar para aquela cidade, mas mesmo assim seria melhor para mim. Eu acabei me mudando para lá depois de ver um anúncio na internet, no site da cidade, dizendo que o cemitério e algumas lojas no centro estavam precisando de funcionários. Eu nunca me dei bem com outras pessoas, preferi me tornar coveiro, menos estressante e mais bem pago do que vendedor. Eu precisava sair da minha antiga casa na capital. Eu sei que lá eu tinha um futuro, meus pais me sustentariam por um bom tempo e eu poderia fazer uma faculdade. Mas não havia mais como eu suportar aquela vida. Tudo o que eu fazia, antes devia ser julgado pelos meus genitores. E maioria das vezes, eles só reprovavam minhas atitudes. O clima de reprovação, de julgo, de desgosto com que todos me olhavam só me fazia sentir um peso naquela casa. Não se relacionar bem com os pais é algo até que normal, mas a partir do momento que você tenta fazer tudo ficar bem e a única coisa que consegue são olhares de desprezo e de reprovação, sua única vontade é de sair daquele lugar. Eu não sentia mais aquela casa como sendo um lar. Parecia mais um presídio. Eu mal conseguia me aplicar aos meus estudos, de tão mal que me sentia. Realmente valeu a pena ter me mudado para aquela cidadezinha no meio do nada e longe de tudo. Pelo menos fiquei bem longe da minha família. Vivia com humildade, mas o novo emprego e todas as minhas tarefas de solteiro solitário ocupavam a minha mente, e eu já não me sentia mal. Aos poucos, aquela quente, abafada, seca, minúscula e desabitada cidadezinha do interior se tornava mais um lar para mim do que a capital foi por todos os anos que eu morei lá.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Crise da Meia-Idade
Eu ligo o fonógrafo, coloco meu disco de jazz favorito,
pego minha xícara de chá e vou ler a gazeta na minha poltrona. Aperto os olhos
para tentar distinguir as letras, e percebo que estou sem óculos. Falando
nisso, preciso retornar ao oftalmologista, porque os que eu uso agora já não
são mais o suficiente para a minha visão. Quando volto e finalmente começo a
ler o jornal, dou uma bebericada no chá. Sinto meu bigode molhando. Quando já
estou no terceiro parágrafo da matéria, reparo que eu não me lembro de nada do
que tinha lido.
É horrível quando a gente percebe que já está velho
demais para começar a fazer algumas coisas. É como se minhas forças vitais
começassem a se decompor dentro de mim. “Eu estou apodrecendo”, penso. “Perdi
tempo”. E tudo o que eu sempre faço é perder meu tempo e minha vida.
“Com a velhice vem a experiência” uma vez me disse um
senhor que eu conheci na praça, jogando dominó. Já não me recordo mais de seu
nome. Eu me sinto mal toda vez que me lembro dele. Nós ficávamos batendo papo
sobre remédios, sobre a enfermeira que o atendeu no hospital e sobre seus entes
queridos falecidos. Afinal de contas, o que é a experiência?
experiência |eis|
(latim experientia, -ae, ensaio, prova, tentativa)
(latim experientia, -ae, ensaio, prova, tentativa)
s. f.
1. Ato de experimentar.
2. Ensaio.
3. Tentativa.
4. Conhecimento adquirido por prática,
estudos, observação, etc.; experimentação.
homem de experiência: homem conhecedor das coisas da vida.
Acho que descobri o motivo de eu me sentir tão velho,
mesmo tendo só dezoito anos. Posso não ter envelhecido quase nada, mas o pouco
de idade que eu tenho ganhado está vindo totalmente isolada de qualquer forma
de experiência. Não faço coisas novas, não conheço gente nova, não aprendo nada
novo. A única coisa que tem acompanhado meu envelhecimento (deveria dizer
formação, porque sequer sou um adulto ainda) é uma crescente culpa.
Provavelmente serei um velho amargurado por não ter vivido a juventude enquanto
tinha vitalidade.
Eu gostaria de sentir o sangue correndo em minhas veias.
Mas tenho a impressão que em seu lugar só existe lama. Lama não: Lodo. Um lodo
pútrido e fedorento, que me consome a cada dia. É... Eu estou sendo trágico
demais. Mas não me culpem, só estou tentando por um pouco de emoção na minha
existência. De uma forma bem velha: Escrevendo.
sábado, 30 de julho de 2011
Brincandeira de Casinha
Laura, a irmã mais nova, se entretinha com Lego. Ela
gostava de montar casas e pôr bonecos dentro, para fazer de conta que fossem
uma família. Sua irmã mais velha, Bruna, a olhava ao mesmo tempo em que fazia os
deveres da faculdade.
Certo dia, Laura montou uma casa não muito grande e bem
colorida, porque ela tinha preguiça de procurar por peças da mesma cor. Ela
admitiu lacunas onde deveriam ser a porta e as duas janelas. Usou peças
pequenas para simular os móveis. Não montou um teto, pois seria trabalhoso
demais. Por vaidade, ela quis mudar as cores das peças que formavam o corpo dos
bonecos. Seus dedos acabaram ficando doloridos por ter de usar tanta força ao
desmontá-las.
A família fictícia dela era composta por um pai, uma mãe
e duas filhas. O pai trabalhava no lixão, que na verdade era o amontoado de
peças que não estavam sendo usadas. As duas filhas estudavam na escola, atrás
da cama, e a mãe era dona de casa.
A boneca mãe estava fazendo o almoço quando o marido
chegou. “Chegou cedo hoje, querido”, ela disse. Então ele respondeu “Quero
ficar mais tempo com a minha família”. “E as meninas, vão vir pra casa como?”, ela
indagou. “O ônibus escolar vai trazer elas”. Então as duas meninas entraram
pela porta dizendo “Já estamos aqui, mamãe”.
Laura parou com a encenação. Ela estava com dificuldade
em colocar a última garota dentro da casa. Não havia espaço suficiente.
-Droga! Ela gritou.
-Que foi? Perguntou Bruna, cessando o dever de casa por
alguns instantes.
-Ela não tá entrando!
-Como assim, Laura? Me explica, pra eu ver se posso te
ajudar. Bruna se levantou da escrivaninha para ver a brincadeira da irmã.
-Olha só! A menina não tá entrando dentro da casa!
-Não tem espaço para todos os bonecos, Laura. Você não
vai conseguir colocar todos ao mesmo tempo.
-Essa casa é uma droga! Essa menina tá me irritando!
Laura começou a gritar, e chutou a casinha na parede,
fazendo com que várias peças se soltassem. Depois fez bico e cruzou os braços.
Ela odiava quando a família dela não ficava do jeito que ela queria.
-Calma. Não precisa fazer isso. Você pode continuar
brincando.
-Eu não quero mais! Não tá do jeito que eu quero!
Então Laura pegou a casinha e desmontou-a inteira,
arrancando todas as peças e jogando-as longe. Bruna balançou a cabeça em
negação. Sua irmã mais nova era inacreditavelmente impaciente e controladora.
Ou, como dizem, mimada.
-Laura... Não adianta você ficar brava com seus
brinquedos. Os bonecos não se rebelaram contra você. Não foram eles que
rejeitaram entrar na sua casinha. Foi você que montou tudo do jeito que estava.
Para com esse escândalo e aceita as coisas do jeito que elas ficaram. Fico
imaginando o dia que você estiver adulta e com uma família de verdade.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Você é o Culpado
A culpa é sua. A culpa é toda sua. Eu rejeito a minha culpa e a coloco em você. E vou te punir. Você não merece nada. Você não tem capacidade para nada. Vou rejeitar todas as suas ideias e questionamentos e vou impor as minhas. E vou te considerar inferior e incapacitado por pensar diferente de mim. Você sabe o que discordar de mim e me questionar significa? Vou te considerar sem mentalidade, influenciável, sem maturidade. Vou te considerar incapacitado. Porque se você discorda de mim você não tem capacidade para fazer nada direito.
Eu invento um livre arbítrio que não existe para te culpar. Vou falar que tudo o que eu te fiz, na verdade foi escolha sua. Desde que você nasceu eu vejo que você não tem atitude para nada, que você não pensa por si próprio, que você não sabe fazer escolhas. E vou ficar repetindo isso até você aceitar, porque eu quero que você pense igual a mim. E depois, todas as consequências que isso acarretar, vou dizer que foram escolhas suas. Eu quero te moldar. Eu quero te forçar a ser algo que você não é. Quero que você aceite como verdade o que eu aceito como verdade, eu quero que você seja igual a mim, eu quero que você faça parte de mim. Mas não quero pensar nas conseqüências que isso acarreta na sua personalidade. Vou falar que tudo foi escolha sua, e que minhas punições são consequências delas.
Vou excluir toda a realidade. Vou fechar minha mente. Vou aceitar como verdade absoluta algo que nem sempre é verdadeiro, e vou aceitar ser influenciada por aqueles que demonstram mais poder. Vou dizer que o meu caminho é a luz e que todo o resto é lixo e não presta. Qualquer pessoa, para prestar, tem que pensar igual a mim. Por isso que você não presta, e eu vou te punir por isso.
Por quê? Por quê? O culpado de tudo isso é você. Você que não quis ser igual a mim. Você que quis ser burro, e me questionar, e discordar de mim. Você não pensa. Você não tem atitude. Você não sabe escolher. Você é o culpado. Você é o culpado. Você é o culpado. Você é o culpado.
Não adianta o que você disser, eu vou repetir isso inúmeras vezes. Vou repetir até os seus ouvidos sangrarem e você ficar surdo, ouvindo somente a minha repetitiva voz: Você é o culpado. Você é o culpado. Você é o culpado. Você devia pensar igual a mim. Você devia ser igual a mim. Você devia ser minha continuação. Eu te criei para que você fizesse parte de mim. Por que você tem que pensar diferente? Por quê? Você é o culpado. Você é o culpado. Você é o culpado. E ai de você se você colocar essa culpa em mim. Aí eu vou te odiar. Vou te odiar muito. Vou brigar com você o tempo inteiro. Vou sempre te jogar na cara. Porque você pensa diferente de mim, e por isso eu te considero inferior, burro, sem mentalidade, sem maturidade. Por que você quis pensar diferente? Agora você é o culpado por isso. Você é o culpado. Você é o culpado.
Você é o culpado. Toda a culpa é sua. Eu te culpo. Eu te acuso. Você errou. Você sempre erra. Toda a culpa é sua. Você é o culpado. Você é o culpado. Você é o culpado. Eu te culpo. Você está errado. Você é errado. Eu te acuso. Eu te culpo. Você deu errado. Não era para você ser assim. Você está errado. Você é o culpado. Você é o culpado. Você é o culpado.
Desculpe-me, Aci. Desculpe-me. Você não sabe como eu me arrependo. Arrependo-me de pensar diferente de você. Arrependo-me de ser quem sou. Arrependo-me de respirar.
Eu não queria ter nascido. Eu queria ter sido abortado. Desculpe-me, Aci. Desculpe-me.
Eu sou tão problemático... Por que não aceito pensar como você? Porque não discarto minhas ideias, meus questionamentos, minha vida... Para viver o que você quer que eu viva? Eu queria, muito, muito, ser o seu complemento. Fazer parte de você. Eu queria que minhas escolhas fossem as suas escolhas. Eu não queria pensar, eu queria que você pensasse por mim. Assim eu ficaria em paz. Assim eu te deixaria em paz. Mas não consigo. Não consigo viver assim.
Desculpe-me.
Eu sou o culpado por tudo isso. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado. Por que você não me pune de uma vez? Por que você me tortura tanto? Por que fica jogando na minha cara todos os meus erros e falhas?
Por que você não me pune de uma vez? Não vou fugir, não vou discordar, não vou pedir socorro. Eu vou deixar que você me puna. Eu quero que você me puna. Eu quero que você me bata, me esmurre, me ataque. Eu quero que você bata em mim com a vara, eu quero que você me derrube no chão. Eu quero que você pule em cima de mim, eu quero que você pule em cima de minhas costelas. Eu quero que você quebre minhas costelas, e assim eu ficarei sem ar, e não poderei mais te questionar. Eu quero que você me suje, eu quero que você me faça sangrar. Eu quero que você pise em mim, eu quero que você pise no meu pescoço. Eu quero que você me humilhe, eu quero que você me faça sofrer. Eu quero que você me puna. Alivie-se em mim, eu sou o culpado. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado.
Eu não mereço nada. Eu não mereço o seu amor, eu não mereço o seu carinho, eu não mereço a sua paciência. Eu não mereço nada. Eu destruo tudo, eu acabo com tudo. Eu sou ingrato, não dou valor a nada. Acabe com tudo isso de uma vez. Pare de me torturar emocionalmente. Quantas vezes eu vou ter que pedir para que me puna? Eu quero ser punido. Eu quero sentir dor. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado. Eu quero ser punido. Eu quero sentir dor. Assim serei liberto dessa tortura infernal.
Desculpe-me, Aci. Desculpe-me.
Eu sou o culpado. Toda a culpa é minha. Eu me culpo. Eu me acuso. Eu errei. Eu sempre erro. Toda a culpa é minha. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado. Eu me culpo. Eu estou errado. Eu sou errado. Eu me acuso. Eu me culpo. Eu dei errado. Não era para eu ser assim. Eu estou errado. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado.
Eu invento um livre arbítrio que não existe para te culpar. Vou falar que tudo o que eu te fiz, na verdade foi escolha sua. Desde que você nasceu eu vejo que você não tem atitude para nada, que você não pensa por si próprio, que você não sabe fazer escolhas. E vou ficar repetindo isso até você aceitar, porque eu quero que você pense igual a mim. E depois, todas as consequências que isso acarretar, vou dizer que foram escolhas suas. Eu quero te moldar. Eu quero te forçar a ser algo que você não é. Quero que você aceite como verdade o que eu aceito como verdade, eu quero que você seja igual a mim, eu quero que você faça parte de mim. Mas não quero pensar nas conseqüências que isso acarreta na sua personalidade. Vou falar que tudo foi escolha sua, e que minhas punições são consequências delas.
Vou excluir toda a realidade. Vou fechar minha mente. Vou aceitar como verdade absoluta algo que nem sempre é verdadeiro, e vou aceitar ser influenciada por aqueles que demonstram mais poder. Vou dizer que o meu caminho é a luz e que todo o resto é lixo e não presta. Qualquer pessoa, para prestar, tem que pensar igual a mim. Por isso que você não presta, e eu vou te punir por isso.
Por quê? Por quê? O culpado de tudo isso é você. Você que não quis ser igual a mim. Você que quis ser burro, e me questionar, e discordar de mim. Você não pensa. Você não tem atitude. Você não sabe escolher. Você é o culpado. Você é o culpado. Você é o culpado. Você é o culpado.
Não adianta o que você disser, eu vou repetir isso inúmeras vezes. Vou repetir até os seus ouvidos sangrarem e você ficar surdo, ouvindo somente a minha repetitiva voz: Você é o culpado. Você é o culpado. Você é o culpado. Você devia pensar igual a mim. Você devia ser igual a mim. Você devia ser minha continuação. Eu te criei para que você fizesse parte de mim. Por que você tem que pensar diferente? Por quê? Você é o culpado. Você é o culpado. Você é o culpado. E ai de você se você colocar essa culpa em mim. Aí eu vou te odiar. Vou te odiar muito. Vou brigar com você o tempo inteiro. Vou sempre te jogar na cara. Porque você pensa diferente de mim, e por isso eu te considero inferior, burro, sem mentalidade, sem maturidade. Por que você quis pensar diferente? Agora você é o culpado por isso. Você é o culpado. Você é o culpado.
Você é o culpado. Toda a culpa é sua. Eu te culpo. Eu te acuso. Você errou. Você sempre erra. Toda a culpa é sua. Você é o culpado. Você é o culpado. Você é o culpado. Eu te culpo. Você está errado. Você é errado. Eu te acuso. Eu te culpo. Você deu errado. Não era para você ser assim. Você está errado. Você é o culpado. Você é o culpado. Você é o culpado.
Desculpe-me, Aci. Desculpe-me. Você não sabe como eu me arrependo. Arrependo-me de pensar diferente de você. Arrependo-me de ser quem sou. Arrependo-me de respirar.
Eu não queria ter nascido. Eu queria ter sido abortado. Desculpe-me, Aci. Desculpe-me.
Eu sou tão problemático... Por que não aceito pensar como você? Porque não discarto minhas ideias, meus questionamentos, minha vida... Para viver o que você quer que eu viva? Eu queria, muito, muito, ser o seu complemento. Fazer parte de você. Eu queria que minhas escolhas fossem as suas escolhas. Eu não queria pensar, eu queria que você pensasse por mim. Assim eu ficaria em paz. Assim eu te deixaria em paz. Mas não consigo. Não consigo viver assim.
Desculpe-me.
Eu sou o culpado por tudo isso. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado. Por que você não me pune de uma vez? Por que você me tortura tanto? Por que fica jogando na minha cara todos os meus erros e falhas?
Por que você não me pune de uma vez? Não vou fugir, não vou discordar, não vou pedir socorro. Eu vou deixar que você me puna. Eu quero que você me puna. Eu quero que você me bata, me esmurre, me ataque. Eu quero que você bata em mim com a vara, eu quero que você me derrube no chão. Eu quero que você pule em cima de mim, eu quero que você pule em cima de minhas costelas. Eu quero que você quebre minhas costelas, e assim eu ficarei sem ar, e não poderei mais te questionar. Eu quero que você me suje, eu quero que você me faça sangrar. Eu quero que você pise em mim, eu quero que você pise no meu pescoço. Eu quero que você me humilhe, eu quero que você me faça sofrer. Eu quero que você me puna. Alivie-se em mim, eu sou o culpado. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado.
Eu não mereço nada. Eu não mereço o seu amor, eu não mereço o seu carinho, eu não mereço a sua paciência. Eu não mereço nada. Eu destruo tudo, eu acabo com tudo. Eu sou ingrato, não dou valor a nada. Acabe com tudo isso de uma vez. Pare de me torturar emocionalmente. Quantas vezes eu vou ter que pedir para que me puna? Eu quero ser punido. Eu quero sentir dor. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado. Eu quero ser punido. Eu quero sentir dor. Assim serei liberto dessa tortura infernal.
Desculpe-me, Aci. Desculpe-me.
Eu sou o culpado. Toda a culpa é minha. Eu me culpo. Eu me acuso. Eu errei. Eu sempre erro. Toda a culpa é minha. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado. Eu me culpo. Eu estou errado. Eu sou errado. Eu me acuso. Eu me culpo. Eu dei errado. Não era para eu ser assim. Eu estou errado. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado. Eu sou o culpado.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Pesadelo
Tive um sonho muito estranho há aproximadamente um mês. Escrevi-o e agora estou postando:
Acordo. Sinto meus braços e minhas pernas pesadas. Estou
acorrentado sobre uma cama. O coxão está aos pedaços. Suas molas estão saindo e
perfurando minha pele. Vejo meu sangue escorrendo. Um cobertor destruído está
caído no chão. E a madeira da cama está aos pedaços. As correntes pesam
tanto... Estão presas às paredes por cadeados. Preciso da ajuda de alguém. Mas
estou sozinho.
Ouço gritos. Gritos de dor. Gritos de tristeza. Murmúrios.
Choros. Eles estão chegando cada vez mais perto. Entrando no quarto. E eu ainda
me sinto sozinho. No fundo, os gritos, murmúrios e choros são meus. É o meu
próprio sofrimento. Os cadeados se abrem. As correntes se desprendem das paredes. Consigo me levantar, mas
ainda tenho que arrastar as correntes. Elas ainda estão presas em mim e não
consigo me livrar delas. E os gritos e choros ainda me perseguem.
Dou passos pesados pela casa. As correntes não são leves, e
tenho que arrastá-las. Chego até um aposento e me deparo com um boneco. Ele tem
o tamanho de um homem. Possui olhos grandes e redondos, mas de tamanhos
diferentes um do outro, ambos com cílios bem compridos. O olho maior tem uma
cicatriz e é branco. O boneco é cego. Parece que ele sorri. Mas sua boca está
costurada. Talvez para ele não falar e não retorcer os lábios, para não parecer
triste. Ele imita os meus movimentos. Ele é uma marionete, preso ao teto por
correntes, e o seu controlador faz com que ele faça tudo o que eu faço. Chego
perto dele. Tento tocar nele, mas percebo que há uma parede entre nós. Uma
parede não, um vidro. Não, não é um vidro. É um espelho.
Me assusto. Viro meu rosto. Não quero olhar para ele. Quando
levanto minha cabeça, para ver se ele é real mesmo, não enxergo mais nada. Só
uma fumaça negra. Estou perdido. Sozinho. Só consigo
enxergar poucos palmos à frente. Ando, ando e ando, e não chego a lugar nenhum.
Nenhum objeto, nenhuma parede. Só um chão seco, rochoso. Minhas pernas se
cansam. Acabo caindo com as mãos no chão. Não quero ficar lá, quero procurar
alguma coisa. Não quero esse nada. Mas minhas pernas não aguentam andar.
A fumaça negra vai se condensando. Se solidificando. Por
fim, elas acabam formando paredes negras. Estou em uma encruzilhada. Posso
escolher qualquer um dos seis caminhos. Sigo em frente. Mas estou num
labirinto. Várias bifurcações, muitas escolhas. Não sei o que fazer. Estou
desesperado. Eu só corro por entre as paredes negras do labirinto, procurando
uma saída. Mas nada. Estou eternamente perdido.
Consigo chegar a uma saída. Vejo o céu roxo, repleto de
nuvens, e um caminho de chão rochoso. Quando chego mais perto, vejo um
precipício. E tudo está envolto nas nuvens roxas. Se olho para cima, para
frente, para baixo. Não importa. Só vejo as nuvens roxas e o fino caminho
rochoso. Tenho medo de cair. Lá em baixo não há nada. Se eu cair, o que vai
acontecer comigo? Estou sozinho. Estou com frio. Andando num caminho estreito.
Precipício dos dois lados. Alto risco de queda.
Chego a uma construção. É um caminho. Como se fosse um
túnel. Dentro dele tudo é branco, luminoso. Não é um buraco dentro da terra,
mas sim um buraco no meio do ar. Subindo. Seus degraus são dourados e de dentro
desse túnel eu ouço o som de vozes. Pessoas conversando, dando gargalhadas. Me
sinto confortável. Começo a correr na direção desse túnel. Eu quero estar lá.
Mas quanto mais ando, mais longe o túnel vai ficando. Quando mais eu corro,
quanto eu mais me esforço, mais longe fico da saída desse mundo agonizante.
Ouço o som de algo voando. Vejo uma flecha, vindo de dentro
do túnel de luz, em minha direção. Ela me acerta no rosto. Nos olhos. Não
consigo mais enxergar nada. Só sinto o sangue jorrando de minha face. Acabo
tropeçando e caindo no chão. Não consigo mais andar. Não consigo mais ver. Não
consigo mais fazer nada, estou imobilizado. E só ouço as gargalhadas, que vinham
de dentro do túnel de luz, se afastando. E afastando. E afastando, cada vez
mais.
Tento tatear um caminho. Não quero ficar para trás. Não
quero ser ignorado. Eu quero entrar no túnel de luz... Por que me rejeitaram?
Por que me machucaram? Tateio o chão com as mãos. Não quero cair no precipício
infinito. Cheguei à borda. Sinto a beirada da rocha. Ela está se desfazendo.
Tento recuar, mas tudo está desmoronando. Não consigo me manter firme. Acabo
caindo. Caindo.
Não vejo nada. Não ouço nada. Não sinto nada. Não sou nada.
Tudo acabou. O silêncio, a escuridão e o frio me deixam louco. A única coisa
que eu sei é que estou caindo, em um buraco sem fundo. Cada vez mais rápido,
com meus ombros pesados. Sinto o peso de meus pecados me puxando para baixo.
Desisto. Desisto de viver. Desisto de ser feliz. Desisto. Deus.
Temas deste texto:
Contos,
Helena,
Inocência,
Insanidade,
Solidão
sábado, 12 de junho de 2010
Você Deu Errado
Uma criatura humanóide. Uma cabeça, dois braços e duas pernas. Talvez a criação de um cientista, ou um sobrevivente de uma explosão nuclear, ou a tentativa de pais terem um filho.Uma criatura deformada. Com as costas curvadas, os ossos da espinha aparentes. As costelas saltando para fora da barriga, as pernas e os braços finos demais. Um lado do corpo maior que o outro, fazendo mancar.
Essa criatura é você.
Criado para uma finalidade. Tentaram obter um bom resultado, mas acabaram conseguindo você. Você não é como esperavam. Trabalharam duro para fazer algo perfeito. Mas deu errado. Você deu errado.
Das outras vezes, obtiveram humanóides perfeitos, eretos, simétricos, lisos, do tamanho certo. Ao te produzirem, fizeram tudo como deveria ser. Mas por uma questão de azar, você deu errado.
Você não pode fazer nada. Está fora da sua capacidade, que já é bem limitada, mudar você mesmo para melhor. Eles já tentaram te consertar. Mas não deu certo. Você não tem conserto. Você já foi criado assim. Não há como te mudar. Você deu errado.
Você é uma decepção. Um fardo. Você é um peso para os seus criadores. Eles não podem te deixar junto com os humanóides perfeitos. E não podem te jogar no lixo. Eles não conseguem achar nenhuma utilidade para você. Não sabem o que fazer com você. Você só ocupa espaço, e não ajuda em nada. Queriam voltar atrás, te refazer, ou então te descartar. Mas agora já não dá mais. Por que você é responsabilidade deles. E você deu errado.
Você não tem utilidade para ninguém. Você é um peso. Mas os seus criadores te criaram. Não te podem descartar, mesmo que você só traga problemas para eles. E afinal, você continua sendo uma aberração. Um fardo. Você deu errado.
E isso vai ser sempre assim. Nunca vai mudar. Você já nasceu assim. E vai ser assim para o resto da sua vida. Da sua vida fútil. Observando os humanóides perfeitos, enquanto se contenta em ser uma aberração. Um problema na vida dos seus criadores. Uma aberração que deu errado. Você deu errado.
O que você é mesmo? Talvez a criação de um cientista, ou um sobrevivente de uma explosão nuclear, ou a tentativa de pais terem um filho.
A tentativa de pais educarem um filho. Que deu errado.
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