Uma vez eu tive um amigo. Um verdadeiro companheiro. Quase
um irmão. Logo que saí da casa dos meus pais, para morar mais próximo do
trabalho, a gente começou a dividir os dois quartos de um apartamento. Nós
gostávamos de lutar. Fazíamos Jiu-jitsu e Muay Thai, e mesmo quando não
estávamos lutando na academia, vivíamos nos socando quando bebíamos, ou até
mesmo em casa, em momentos de tédio. E eu sempre venci as brigas. Eu era maior
e mais forte do que ele, então sempre parava na hora que achava que ele iria se
machucar muito. Mas ele sempre contou vitória, dizendo que eu tinha me cansado
e desistido. Um dia eu quis ver qual era o limite dele, o quanto ele demoraria
a desistir. E talvez, mostrar o meu desempenho máximo. Logo no começo, ele
ficou irritado. Eu também fiquei irritado com ele. E eu o matei, sem querer.
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quinta-feira, 3 de abril de 2014
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Baixa Geral
Você viu aquela mulher? Aquela mulher pálida, deitada na
mesa, indefesa? Com seus olhos fechados, boca calada, pele gelada? Você viu? O
defunto em seu descanso eterno? Em seu descanso em paz? Decomposto, pútrido,
putrefeito, apodrecido? Fedendo a carniça? Você viu aquela mulher, não viu?
Pele acinzentada, incolor, inerte? A expressão inerte? Aquela mulher que foi
trazida de ambulância, ensanguentada? Aquela mulher que foi trazida com a boca
escancarada? Que foi trazida incinerada? De dentro daquela casa incendiada? Você
viu, não viu?
Você viu aquela mulher? Aquela mulher petrificada, engolida
pela fragilidade da existência? Com as manchas vermelhas vazando por seus
braços? Com a cabeça achatada pela roda do trem? Pela força da altura do chão
duro? Pela força do projétil metálico disparado em alta velocidade? Você viu?
Viu aquela mulher com as marcas no pescoço? Marcas de mãos ciumentas? As mãos
daquele amante frustrado? Perdido na vida, no álcool, nas drogas? Procurando um
refúgio sanguinolento para seus sentimentos impiedosos? Você viu, não viu?
Aquela mulher que estava em ossos? Ossos encontrados por
amantes, por acaso? Enquanto procuravam uma trilha vazia para foder? Aquela
mulher estudada pelos médicos, não viu? De órgãos externos, órgãos expostos,
expostos a estudo? Pelos legistas? Pelos estudantes de medicina? Postos em fila
ao redor do corpo? Apreciando-o como uma obra de arte? Você viu essa mulher?
Pintada nos livros de anatomia? Divulgada naqueles jornais violentos? Impressos
a tinta vermelha? Vermelha da cor do sangue? Você viu, não viu?
sábado, 28 de agosto de 2010
Amor Eterno
-Oi querida.
-O que você quer? Eu já não disse que não era mais para falar comigo?
-Por favor, me deixe entrar. Eu só quero conversar um pouco.
-Não, não vou deixar. Nós não temos mais nada um com o outro.
-Não quero falar sobre nosso relacionamento. Por favor, abra a porta.
A mulher bufou. Mas o deixou entrar. O rapaz andou um pouco pela sala antes de se sentar no sofá.
-Você parece confiante, diferente da última vez...
-É que eu vi que você estava certa. Não há como restituir o nosso relacionamento.
-Que bom que você percebeu isso. Mas por que veio aqui?
-Eu só quero me abrir com você.
A mulher deu passos leves e se sentou ao lado dele.
O rapaz pegou a carteira do bolso e tirou algumas fotos de dentro, para ficar olhando.
-Você quer falar sobre a sua família?
-Não. Eles não são a minha família.
-Então, quem são?
-São pessoas que eu matei. Eu sou um assassino. – Ele riu. Ela riu depois dele.
-É sério, quem são... – Ela começou a dizer, mas não pôde terminar, pois seu celular tocou.
-Desculpa, você pode esperar um pouco?
– Tudo bem.
- Alô. Não. Aqui não tem ninguém com esse nome. Tudo bem.
-Foi engano?
-Foi sim. Odeio quando acontece isso.
Ela colocou o celular sobre a mesa. Cruzou as pernas e repousou as mãos sobre elas, pronta para ouvir o rapaz. Mas ele não olhou para ela. Ele simplesmente pegou o próprio celular e ligou para um número que ela não pôde ver.
-Alô? Oi cara. Sabe aquela minha ex? Não estou conseguindo falar com ela. Acho que nem vou voltar aí, vou direto pra casa. Tá bem. Falou.
-Por que você disse que não conseguiu falar comigo?
-É que eu não quero que fiquem sabendo que eu vim atrás de você outra vez.
-Ah sim... Você ainda não me disse o motivo de vir aqui.
-Ah, sinto muito. Os últimos dias têm sido tão difíceis para mim...
Repentinamente, como se já tivesse em mente o que faria, o rapaz se levantou, pegou de cima da mesa o celular da mulher e o jogou na parede, fazendo-o partir-se em vários pedaços.
-Ei! Por que você fez isso?
-Fiquei com vontade.
A mulher se levantou e deu alguns passos para trás.
-Acho melhor você ir embora. Eu preciso dormir cedo. Vou trabalhar amanhã. - Ela disse.
-Sinto lhe informar, mas não vai não.
A mulher se virou e tentou correr para fora da casa. Mas o rapaz a alcançou e a sufocou até ela perder a consciência.
Quando ela acordou, estava nua, com os pés e as mãos presos a uma mesa por algemas.
-Pare com isso! O que você quer de mim?!
-Eu queria o seu amor.
-Você vai conseguir amor me estuprando e me matando?!
-Prefiro ver minha amada morta a ser rejeitado por ela. E não se preocupe, eu não te estuprarei.
-Você vai ser pego! E vai para a cadeia!
-Não vou não. Sabe aquelas pessoas das fotos? Elas já estiveram no seu lugar. E eu ainda estou com a minha ficha limpa na polícia.
-Você é doente! Por que fica conversando comigo?! Por que não me mata logo?!
-Você tem razão. Eu sou doente. E eu queria me divertir um pouco, depois que você me largou. Por isso não te mato logo.
-Eu pensei que podia confiar em você...
-Você podia. Se não tivesse me largado.
Depois de dizer isso o rapaz passou a mão no rosto dela. Ela começou a chorar alto, em agonia. Então ele se levantou, pegou um pano e a amordaçou.
A visão da mulher estava turva por causa das lágrimas, mas ela conseguiu ver seu ex-namorado encostando um martelo na testa dela. Então ele disse:
-Só vai doer um pouquinho.
-O que você quer? Eu já não disse que não era mais para falar comigo?
-Por favor, me deixe entrar. Eu só quero conversar um pouco.
-Não, não vou deixar. Nós não temos mais nada um com o outro.
-Não quero falar sobre nosso relacionamento. Por favor, abra a porta.
A mulher bufou. Mas o deixou entrar. O rapaz andou um pouco pela sala antes de se sentar no sofá.
-Você parece confiante, diferente da última vez...
-É que eu vi que você estava certa. Não há como restituir o nosso relacionamento.
-Que bom que você percebeu isso. Mas por que veio aqui?
-Eu só quero me abrir com você.
A mulher deu passos leves e se sentou ao lado dele.
O rapaz pegou a carteira do bolso e tirou algumas fotos de dentro, para ficar olhando.
-Você quer falar sobre a sua família?
-Não. Eles não são a minha família.
-Então, quem são?
-São pessoas que eu matei. Eu sou um assassino. – Ele riu. Ela riu depois dele.
-É sério, quem são... – Ela começou a dizer, mas não pôde terminar, pois seu celular tocou.
-Desculpa, você pode esperar um pouco?
– Tudo bem.
- Alô. Não. Aqui não tem ninguém com esse nome. Tudo bem.
-Foi engano?
-Foi sim. Odeio quando acontece isso.
Ela colocou o celular sobre a mesa. Cruzou as pernas e repousou as mãos sobre elas, pronta para ouvir o rapaz. Mas ele não olhou para ela. Ele simplesmente pegou o próprio celular e ligou para um número que ela não pôde ver.
-Alô? Oi cara. Sabe aquela minha ex? Não estou conseguindo falar com ela. Acho que nem vou voltar aí, vou direto pra casa. Tá bem. Falou.
-Por que você disse que não conseguiu falar comigo?
-É que eu não quero que fiquem sabendo que eu vim atrás de você outra vez.
-Ah sim... Você ainda não me disse o motivo de vir aqui.
-Ah, sinto muito. Os últimos dias têm sido tão difíceis para mim...
Repentinamente, como se já tivesse em mente o que faria, o rapaz se levantou, pegou de cima da mesa o celular da mulher e o jogou na parede, fazendo-o partir-se em vários pedaços.
-Ei! Por que você fez isso?
-Fiquei com vontade.
A mulher se levantou e deu alguns passos para trás.
-Acho melhor você ir embora. Eu preciso dormir cedo. Vou trabalhar amanhã. - Ela disse.
-Sinto lhe informar, mas não vai não.
A mulher se virou e tentou correr para fora da casa. Mas o rapaz a alcançou e a sufocou até ela perder a consciência.
Quando ela acordou, estava nua, com os pés e as mãos presos a uma mesa por algemas.-Pare com isso! O que você quer de mim?!
-Eu queria o seu amor.
-Você vai conseguir amor me estuprando e me matando?!
-Prefiro ver minha amada morta a ser rejeitado por ela. E não se preocupe, eu não te estuprarei.
-Você vai ser pego! E vai para a cadeia!
-Não vou não. Sabe aquelas pessoas das fotos? Elas já estiveram no seu lugar. E eu ainda estou com a minha ficha limpa na polícia.
-Você é doente! Por que fica conversando comigo?! Por que não me mata logo?!
-Você tem razão. Eu sou doente. E eu queria me divertir um pouco, depois que você me largou. Por isso não te mato logo.
-Eu pensei que podia confiar em você...
-Você podia. Se não tivesse me largado.
Depois de dizer isso o rapaz passou a mão no rosto dela. Ela começou a chorar alto, em agonia. Então ele se levantou, pegou um pano e a amordaçou.
A visão da mulher estava turva por causa das lágrimas, mas ela conseguiu ver seu ex-namorado encostando um martelo na testa dela. Então ele disse:
-Só vai doer um pouquinho.
Temas deste texto:
Contos,
Felipe,
Homicídio,
Insanidade,
Raiva
sexta-feira, 28 de maio de 2010
A História de Fred.
O nome dele é Fred. Ele tem a pele rosa e olhos pretos. Ele tem uma vida muito boa. Maior parte dos dias são ensolarados na fazenda onde ele vive. Fred sempre está com os outros, brincando, rolando na grama, que faz cócegas em seu corpo. No campo ao redor de sua casa há inúmeras flores amarelas, delicadas e perfumadas. Também passa um riacho, que sempre está dispersando seu som tranqüilizante pela fazenda. De dia, os grilos grilam, e de noite, os sapos coaxam.
Fred é uma criança muito esperta. Está sempre brincando com seus amigos, tomando sol, explorando a fazenda, mergulhando nas águas refrescantes do riacho. Ele é uma criança muito curiosa, sempre descobre buracos onde se esconder, coisas novas para comer, poças de lama onde brincar. Ele também é uma criança muito humilde, sempre está próximo dos que precisam da sua ajuda, sempre está brincando com todos, nunca arranja confusões. E acima de tudo, Fred é uma criança muito feliz.
Sua família passa algumas dificuldades. Eles não têm nenhuma posse, fora uma pequena parte do território da fazenda, e para saciar sua fome, sempre dependem dos restos de alface, tomate, cenoura e arroz que dão para eles comerem.
Um dia, homens que visitavam a fazenda pegaram Fred. Colocaram-no dentro de um caminhão cheio de outras crianças iguais a ele, e depois o levaram para longe. Dentro da carreta onde Fred estava era muito escuro. E tudo fedia a suor e ferrugem. Fred estava com medo. Não sabia para onde o estavam levando. Alguns gritavam. Mas ninguém os socorria.
Quando finalmente pararam, os homens pegaram Fred e as outras crianças e levaram para dentro de uma sala toda branca, porém encardida, dentro de um prédio. O novo lugar tinha cheiro de fezes. Ninguém sabia o que estava acontecendo e todos estavam assustados. De tempos em tempos, os homens abriam a porta de novo e pegavam uma das crianças. E a cada vez que eles apareciam, todas gritavam. Ninguém queria se separar dos outros.
Até que chegou a vez de Fred. Os homens o agarraram. Ele gritou, esperneou, mas não adiantou. Eles levaram Fred para outra sala, que era muito mais assustadora. Ela tinha as paredes e o chão cheios de um líquido vermelho. Não um vermelho fosco, mas um vermelho vivo. Sangue. Fred gritava. Gritava. E gritava. Mas ninguém o socorria. Ele começou a chorar. E quando os homens o levantaram e o colocaram sobre uma mesa, ele desistiu de tudo. Sabia que não sobreviveria mais. Um terceiro homem veio com um machado imenso. Colocou bem rente ao pescoço de Fred. Fred sentiu a lâmina gelada. Então o homem levantou o machado em posição de golpe, e olhou para as lágrimas escorrendo do rosto de Fred por alguns segundos. Então, em um único golpe, ele decapitou Fred.
Fred é uma criança muito esperta. Está sempre brincando com seus amigos, tomando sol, explorando a fazenda, mergulhando nas águas refrescantes do riacho. Ele é uma criança muito curiosa, sempre descobre buracos onde se esconder, coisas novas para comer, poças de lama onde brincar. Ele também é uma criança muito humilde, sempre está próximo dos que precisam da sua ajuda, sempre está brincando com todos, nunca arranja confusões. E acima de tudo, Fred é uma criança muito feliz.
Sua família passa algumas dificuldades. Eles não têm nenhuma posse, fora uma pequena parte do território da fazenda, e para saciar sua fome, sempre dependem dos restos de alface, tomate, cenoura e arroz que dão para eles comerem.
Um dia, homens que visitavam a fazenda pegaram Fred. Colocaram-no dentro de um caminhão cheio de outras crianças iguais a ele, e depois o levaram para longe. Dentro da carreta onde Fred estava era muito escuro. E tudo fedia a suor e ferrugem. Fred estava com medo. Não sabia para onde o estavam levando. Alguns gritavam. Mas ninguém os socorria.
Quando finalmente pararam, os homens pegaram Fred e as outras crianças e levaram para dentro de uma sala toda branca, porém encardida, dentro de um prédio. O novo lugar tinha cheiro de fezes. Ninguém sabia o que estava acontecendo e todos estavam assustados. De tempos em tempos, os homens abriam a porta de novo e pegavam uma das crianças. E a cada vez que eles apareciam, todas gritavam. Ninguém queria se separar dos outros.
Até que chegou a vez de Fred. Os homens o agarraram. Ele gritou, esperneou, mas não adiantou. Eles levaram Fred para outra sala, que era muito mais assustadora. Ela tinha as paredes e o chão cheios de um líquido vermelho. Não um vermelho fosco, mas um vermelho vivo. Sangue. Fred gritava. Gritava. E gritava. Mas ninguém o socorria. Ele começou a chorar. E quando os homens o levantaram e o colocaram sobre uma mesa, ele desistiu de tudo. Sabia que não sobreviveria mais. Um terceiro homem veio com um machado imenso. Colocou bem rente ao pescoço de Fred. Fred sentiu a lâmina gelada. Então o homem levantou o machado em posição de golpe, e olhou para as lágrimas escorrendo do rosto de Fred por alguns segundos. Então, em um único golpe, ele decapitou Fred.
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Felicidade,
Homicídio,
Inocência
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