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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Motivos para me matar e motivos para continuar vivo

Uma vez me disseram que pessoas que se sentem um peso para a sua família têm mais chances de cometer suicídio. Eu acho esse raciocínio um tanto quanto errado: essa frase dá a impressão de que esse sentimento de abandono é um motivo pelo qual as pessoas se matam. Mas, no meu caso, eu não preciso de motivos para me matar, pelo contrário, eu preciso de motivos para continuar vivo. Os  momentos nos quais eu planejei e tentei ativamente me matar não estavam acompanhados de nenhum sofrimento extremo. Mas eu gostaria de estar morto, mesmo que eu não esteja planejando me matar. E eu só não estou tentando me matar o tempo inteiro porque na maior parte do tempo eu tenho um motivo para querer estar vivo, que é não causar o sofrimento daqueles que eu amo. Mas se eu não tiver mais esse motivo (e isso já aconteceu antes), eu com certeza vou me matar. Não por ter motivos para me matar, e sim pela falta de motivos para querer continuar vivo, e provavelmente é isso que eu sentiria se eu me considerasse um peso para minha própria família.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Uma História Real



Caminhando por esta rua de fogo, e meu lar está reduzido a cinzas.

Eu estava entediado. Nada a fazer. A casa limpa, a mesa posta... Nenhuma tarefa restante. Cada coisa em seu lugar.

O que eu fazia? Não me lembro. Não quero me lembrar. Estou com uma nuvem, densa cerração, ao redor de minha cabeça. Só quero sanar esse tédio, ocupar minha mente.

Eu estava entediado. Nada a fazer. Resolvi sarar meu aborrecimento com o abençoado remédio thorazinternet.

Entrei no Facebook, Whatsapp, Messenger, naquele blog habitual, naquele fórum habitual. Pesquisei no google algo que andava perturbando minha mente. Perturbando minha mente.

Mensagem aqui, mensagem lá. Atualizações. Imagens nada originais. Aquela mesma imagem, vista pela milésima vez. Notícias. O time venceu, o homem suicidou, o bandido foi preso.

Enviaram-me um link. Um link estranho, que levava a um blog estranho. Cores estranhas, formatos estranhos. Textos estranhos.

A primeira frase, de um daqueles textos. Caminhando por esta rua de fogo, e a casa está reduzida a cinzas.

E então, eu me lembrei. Lembrei-me do que fazia, de como era a minha vida. A nuvem foi embora, e nada faz sentido. Nada está em seu lugar.

Tudo está ao contrário. De ponta cabeça. De frente para trás, do avesso. Bagunçado, desordenado, confuso. Uma baderna, uma folia, uma arruaça.

O que é tudo isso? O que essas coisas fazem... Em minha vida? Não, não. Nada está certo. Tudo está muito estranho... E ao mesmo tempo familiar, íntimo... Costumeiro.

Sim, sim. Tem algo de errado. Mas não são coisas. Não está na minha vida. O que está errado é a minha vida. A minha vida, em si.

É. A minha vida é estranha. Ou deveria dizer... Existência? Porque tudo isso, todas essas coisas, você sabe... Não podem ser chamadas de vida.

A minha existência é estranha. Muito estranha. Eu não deveria estar aqui. O que eu fazia antes da nuvem aparecer e eu ficar entediado... Você sabe.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Baixa Geral



Você viu aquela mulher? Aquela mulher pálida, deitada na mesa, indefesa? Com seus olhos fechados, boca calada, pele gelada? Você viu? O defunto em seu descanso eterno? Em seu descanso em paz? Decomposto, pútrido, putrefeito, apodrecido? Fedendo a carniça? Você viu aquela mulher, não viu? Pele acinzentada, incolor, inerte? A expressão inerte? Aquela mulher que foi trazida de ambulância, ensanguentada? Aquela mulher que foi trazida com a boca escancarada? Que foi trazida incinerada? De dentro daquela casa incendiada? Você viu, não viu?

Você viu aquela mulher? Aquela mulher petrificada, engolida pela fragilidade da existência? Com as manchas vermelhas vazando por seus braços? Com a cabeça achatada pela roda do trem? Pela força da altura do chão duro? Pela força do projétil metálico disparado em alta velocidade? Você viu? Viu aquela mulher com as marcas no pescoço? Marcas de mãos ciumentas? As mãos daquele amante frustrado? Perdido na vida, no álcool, nas drogas? Procurando um refúgio sanguinolento para seus sentimentos impiedosos? Você viu, não viu?

Aquela mulher que estava em ossos? Ossos encontrados por amantes, por acaso? Enquanto procuravam uma trilha vazia para foder? Aquela mulher estudada pelos médicos, não viu? De órgãos externos, órgãos expostos, expostos a estudo? Pelos legistas? Pelos estudantes de medicina? Postos em fila ao redor do corpo? Apreciando-o como uma obra de arte? Você viu essa mulher? Pintada nos livros de anatomia? Divulgada naqueles jornais violentos? Impressos a tinta vermelha? Vermelha da cor do sangue? Você viu, não viu?



segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Dois Momentos


Passo na frente de passo. Passo na frente de passo, eu continuo andando, passo na frente de passo. Passo pela grama alta, bem alta, já deve estar com meio metro de altura. O muro está começando a derrubar pedaços do seu concreto no chão, formando uma areia cinza e bem grossa. Do outro lado, as amoreiras amarronzadas, já sem metade das folhas. Parece que tudo está destruído.

Destruído sim, mas não morto. Sofrimento? Eu não conheço isso. Minha vida é tranquila, tranquila até demais. Parece que tudo está parado, inerte... Nunca conquisto nada, só envelheço perdendo os momentos da juventude que poderia ter aproveitado. Estou cansado. Passo na frente de passo, nunca conquisto nada, só consigo me cansar. É isso. Estou cansado dessa vida medíocre. Quando vou deixar tudo para trás?


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Então eu abro mais o registro, deixando a água fria. Sento no chão do banheiro, abraço minhas pernas. Fico escutando somente o som da água caindo. A água que, mais longe da resistência do chuveiro, fica mais fria ainda. Cai na minha cabeça, escorre pelas minhas costas. Deixa-me arrepiado, como se estivesse correndo por dentro de mim, limpando minha alma. Eu sei que a maioria dos outros garotos estaria fazendo outras coisas no banho. Mas eu sempre soube que eu não sou uma pessoa normal.

Às vezes, preciso sair da rotina para esfriar minhas ideias. Geralmente essas fugas envolvem água gelada, pancadas ou coisas quebrando; no entanto em todas elas eu tenho que estar sozinho. Preciso fazer algo para aliviar minha ira, minhas frustrações. Às vezes a vida parece pesada demais, cheia de obrigações necessárias para alcançar objetivos que não são meus, e eu preciso virar tudo de cabeça para baixo e do avesso para sentir que estou fazendo algo além de existir. 

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Indiferença


 Feliz Dia de Nossa Senhora Aparecida; Dia das crianças não é feriado.
 Outro texto antigo, dessa vez uma crônica:

Suzana odiava aquele emprego. Ela trabalhava no diário local, mas não era repórter. Ela andava o dia inteiro pela cidade procurando pessoas sem importância nenhuma para dar avisos, discutir sobre coisas inúteis ou analisar se há a possibilidade de o caso delas virar uma notícia, para depois uma pessoa mais importante do que Suzana entrevistá-la.

Já passava das sete horas, era inverno e a noite era fria e escura. Suzana dirigia um pequeno e apertado uno branco com adesivos da empresa. Aquele era seu último destino do dia, ela deveria levar a notícia da vitória ao vencedor do concurso de redações do jornal. O problema era que ele morava em um complexo de difícil acesso. As ruas eram escuras, cheias de buracos e quase impenetráveis. Suzana já estava ante a última rua antes da do seu destino. Era uma grande ladeira, as rodas do carro escorregavam na lama e os buracos e pedras fizeram a parte de baixo do carro ser atingida inúmeras vezes. As rodas derrapavam enquanto o carro continuava parado.  Ela parou de acelerar e desceu vagarosamente o pouco da rua que ela tinha conseguido subir.

Estacionou lá mesmo e desceu do carro. Ela estava de salto alto e seria difícil subir a mesma rua. Mas ela viu uma escadaria a alguns metros de distância, no meio do morro, que provavelmente daria no mesmo lugar. Resolveu seguir por ela. Alguns postes de luz iluminavam um pouco a escada em algumas partes, mesmo assim ainda era muito escuro. Podia-se ouvir o som de grilos, pessoas conversando e música em algum lugar distante. Os degraus eram irregulares e isso acabou deixando Suzana cansada. Ela avistou um pouco à frente, de baixo da luz de um dos postes, uma pessoa que andava de um lado para o outro. Usava roupas grandes, largas, provavelmente doadas. Um capuz escondia sua face. Ela ficou temerosa. Por quais motivos uma pessoa ficaria àquela hora andando de um lado para o outro, no meio do nada?

Ela achou melhor desviar, entrando em uma viela que ligava um dos patamares da escada à rua. Subindo a ladeira ela ficou mais cansada ainda. Passou na frente de um bar, de onde vinham as vozes e a música. Vários homens, todos de aparência horrível, desleixada, bebiam cerveja e riam alto. Provavelmente, todos bêbados. Era horrível de se ver aquilo. O que leva uma pessoa a aceitar isso como estilo de vida? Ela passou reto. Achou que os homens iriam mexer com ela, mas nem a notaram. Para sua sorte, o bar não era tão longe da rua do garoto. Ela foi até a casa que deveria ser onde o garoto morava. Ela bateu na porta. De dentro, ouviu gemidos e murmúrios. Ninguém apareceu. Ela bateu novamente e esperou um pouco.

Uma mulher gorda, toda descabelada e com os olhos inchados abriu a porta. Suzana pensou que ela provavelmente também estaria bêbada.  A mulher disse:
- “Quié”?
- Olá, eu sou Suzana, representante do Jornal local, e queria anunciar que o garoto Eduardo Souza venceu o concurso de redações que foi feito na escola dele.
A mulher fez uma careta. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Ela respondeu:
- Ele se suicidou...

Suzana ficou paralisada. Isso foi um choque. Ela não esperava isso. Sua respiração ficou descompassada. Ela não sabia o que fazer. Quando conseguiu se recuperar um pouco, disse “obrigada” e deu as costas para  mulher, que fechou a porta sem dizer nada. Suzana não conseguia parar de pensar nisso. Olhou os papéis, o garoto devia ter somente 16 anos. Por que motivo uma criança dessas iria se suicidar? Como deveria ser a vida dele, para chegar a esse ponto? Isso foi aterrorizante. Surpreendente. Ela não tinha palavras para descrever. Quem diria que um trabalho no diário como o dela poderia ser tão emotivo? Ela jamais havia imaginado passar por uma situação dessas.

Quando ela notou que estava descendo as escadas ao invés de seguir pela rua para não passar pelo garoto estranho, já era tarde demais. Lá estava ele, andando de um lado para o outro ainda, alguns metros a sua frente. Ela ficou com medo. Achou melhor seguir reto, indiferente, para não chamar atenção nem levantar suspeitas. Quando ela saiu da escuridão para a luz onde o garoto se encontrava, com seus passos rápidos e expressão indiferente, ele se jogou para o lado e ficou em posição defensiva. Ele se assustou com Suzana. Ela pôde olhar dentro do capuz. Era um garoto muito novo, devia ter 13 anos. Seus olhos expressavam medo, receio, preocupação. Suzana, surpreendida, ficou paralisada por um instante, mas logo o medo a fez sair de lá e continuar seu caminho. Seu coração estava quase pulando para fora da garganta garganta. Ela não conseguia pensar em nada até terminar de descer as escadas. Entrou no carro.
Enquanto voltava para a sede do diário, pensava nos acontecimentos daquela noite. Por que motivos o garoto havia cometido suicídio? E o outro que estava nas escadas, estava preocupado com o quê? Ela começou a se sentir culpada. Talvez o que se assustou com ela também estivesse pensando em suicídio. E na hora, ela só estava preocupada em sair logo de lá. Talvez o garoto precisasse de atenção, e ela pudesse fazer alguma coisa. Mas não. E agora ela estava indo para a sede do jornal e depois para casa, para poder tomar um banho e dormir em sua confortável cama.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Luzes


Ela fechou a porta de ferro com força, fazendo ecoar um estalido metálico. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela jogou suas costas na porta e se apoiou nela com as palmas das mãos. Seus joelhos estavam meio flexionados, ela estava cansada e fraca. Ela chorava. Acabou escorregando e caindo no chão. Pôs seus dedos em meio a seus lábios enquanto soluçava e balançava a cabeça negativamente, apavorada. Sua angústia era tremenda que ela não conseguia pensar. Sua visão estava embaçada e ela soltava alguns gemidos de sofrimento. Seu coração palpitava desordenadamente, forte, porém lento. Ela tremia das mãos aos pés.

Reuniu forças para conseguir levantar. Ela tinha conseguido se controlar um pouco. Não soluçava nem gemia, porém ainda chorava. Seus passos eram vagarosos, ela mantinha as mãos na boca. Uma rajada de vento soprou em seu cabelo, ela pôs uma das mãos à frente como se tentasse se proteger dele. A água em seus olhos foi se dissipando e ela pôde distinguir alguns pontos pequenos de luzes amarelas. O barulho do vento e dos carros, vários metros abaixo dela, na rua, era até tranqüilizador. O cheiro era de fungos e umidade. Ela olhou para o horizonte. Vários prédios emitiam seus pequenos focos de luz. Não havia uma única estrela no céu, nem lua, mas mesmo assim era lindo. Lindo. Ela deu um longo e demorado soluço de choro. Não compreendia como existem coisas lindas no mundo... E que não podem ser aproveitadas.

Deu mais alguns passos vagarosos em direção ao parapeito da laje do prédio. Sentou-se no pequeno muro que separava o lugar onde ela estava do resto do mundo. Olhou para baixo. As luzes vermelhas e amarelas dos carros passavam rapidamente lá na rua. Seus olhos se desfocaram e ela voltou a chorar. Jogou-se no chão e abraçou seus joelhos. Gemia negando algo, sofria de angústia. Dava socos no chão acertando uma poça d’água, não acreditava na vida. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Seus gemidos eram longos e sofridos, como se ela fosse a pessoa mais apavorada do mundo.

Ainda chorando, ela apoiou uma das mãos no parapeito e outra no joelho, e se levantou, vagarosamente. Mais uma vez viu as luzes da cidade, e o vento bateu em seu cabelo. Ela colocou um dos pés na mureta, e depois deu um impulso para subir com o outro. Abriu os braços em forma de cruz. Ela ainda chorava, fazendo mais barulho do que antes. Suas lágrimas já não caíam na laje do prédio, mas sim seguiam uma longa queda até a calçada da fachada. O vento estava desordenado aquele dia. Fez a camisa dela esvoaçar e a tirou o equilíbrio. Em um movimento não calculado, ela conseguiu se reequilibrar. As luzes, os sons e o vento faziam aquele momento perfeito para acabar com todo o seu sofrimento.