"Por dentro posso ser diferente, mas não deixo de ser igual. Você poderia ter esses vermes te comendo. A única coisa que te diferencia de mim é a sorte, individual e intransferível."

— Clarice Lispector

sábado, 13 de dezembro de 2014

Várias Pessoas, uma Única Existência

João era perfeitamente medíocre. Havia momentos em que tinha vergonha de si mesmo. Queria esconder quem ele realmente era. O seu passado vergonhoso, aquela mania estúpida, aquele medo irracional, aquela frustrante incapacidade de fazer aquela tarefa com a qual todos tinham facilidade. Tinha vergonha de seu pai, que não chegara a conhecer. Tinha vergonha de sua mãe, que de tão simples, mal sabia escrever. Tinha vergonha de si mesmo, por todas as coisas que seus pais deveriam ter-lhe ensinado quando era criança e que lhe faziam falta como adulto.

Antônio tinha o pé torto. Era gago. Vesgo. Não sabia tocar violão. Não falava inglês. Suas acnes lhe incomodavam. Queria ser mais baixo, pois acreditava que sua imensa estatura era responsável tanto pela sua aparência desengonçada quanto pelo fato dele ser desastrado.

Francisco tinha medo de fazer novas amizades. De que o achassem estranho. Tinha medo de falar besteira e passar vergonha. De falar alto demais e incomodar as pessoas. De acabar gargalhando e todos perceberem quão esquisita era a sua risada. Tinha vergonha de seu mau hálito. Simplesmente não conseguia conversar, pois as palavras certas não lhe vinham à boca, e suas tentativas de diálogo se resumiam a momentos de intenso e inoportuno silêncio.

Luiz não tinha namoradas. Não conseguia se aproximar de garotas. Não sabia o que falar. Muitas o achavam feio. Outras não gostavam de sua voz. Ele não sabia beijar direito. A garota com quem ele perdeu a virgindade contou para as amigas que ele era sem-graça, ruim de cama.

Quando fez dezenove anos, Paulo tentou arrumar um emprego. Era vendedor de uma loja de móveis. Quanto mais ele vendesse, mais dinheiro conseguiria. Mas no final, ele nunca conseguiu muito com isso. Seus colegas de serviço eram bem melhores do que ele. A agonia que tinham por vender mais do que os outros acabou fazendo com que Marcos ficasse para trás e fosse rebaixado para a área de assistência técnica da loja.

A aposentadoria da mãe de Manoel mal dava para comprar os remédios que ela precisava. Ela acabou ficando muito doente. Ele a levou à cidade grande e procurou um médico. Ela precisou ser internada. Mas a fila de espera para receber a cirurgia era tão grande que ela faleceu antes de ser tratada. Ele estava sozinho. Sem ninguém para ampara-lo, sofrendo as constantes punições e humilhações da vida. Até que encontrou Ana.

Márcia era mediocramente perfeita. Havia momentos em que tinha orgulho de si mesma. Queria que o mundo a visse da forma que ela queria. O seu futuro brilhante, as suas nobres virtudes, as suas iniciativas proativas, aquela invejável disposição de fazer as tarefas das quais todos tinham preguiça. Tinha orgulho de seu pai, que mesmo sendo divorciado e morando longe, ajudava financeiramente a filha. Tinha orgulho de sua mãe, que mesmo sendo simples, sempre fez de tudo para ver Joana bem. Tinha orgulho de si mesma, por todas as coisas que seus pais deixaram de lhe ensinar ela conseguiu aprender com a vida.

Francisca era encantadora. Tinha a voz bonita. Olhos verdes. Cantava bem. Conseguia se expressar bem. Seu olhar era profundo. Gostava de ser alta, pois chamava a atenção dos rapazes para o seu belo corpo.

Adriana tinha amigos. Eram estranhos, mas eram amigos. Falavam besteiras juntos, passavam vergonha juntos. Falavam alto e atazanavam uns aos outros. Quando estavam reunidos, gargalhavam tanto que até perdiam a voz. Eles simplesmente se davam bem. Não precisavam de uma ocasião especial para se encontrar, nem de um assunto para conversarem. Falavam sobre trivialidades e se sentiam bem com isso.

Antônia não tinha namorados. Não queria saber de compromissos, preferia aproveitar a vida. Alguns rapazes a pediram em namoro, mas ela não queria nada sério. Ela não gostava de rotular seus relacionamentos com palavras como “amigo”, “ficante” ou “namorado”. Ela gostava mesmo era de ter companhia e de poder fazer o que quisesse quando quisesse e com quem quisesse.

Quando fez dezenove anos, Sandra tentou arrumar um emprego. Era vendedora de uma loja de eletrônicos. Quanto mais ela vendesse, mais dinheiro conseguiria. Mas no final, ela nunca conseguiu muito com isso. Seus colegas de serviço eram melhores do que ela. Mas por outro lado, ela lidava bem com as pessoas, e isso não passou despercebido aos olhos de seu chefe. Patrícia foi promovida para a área de assistência técnica da loja.

A aposentadoria da mãe de Vera mal dava para comprar os próprios remédios, e por isso ela ficou muito doente. Ela a levou à cidade grande e procurou um médico. A mãe precisou ser internada. Mas a fila de espera para receber a cirurgia era tão grande que ela faleceu antes de ser tratada.

Josefa orava a Deus por sua mãe, desejando que ela estivesse em um lugar melhor, descansando, livre de todos os sofrimentos terrenos. Mas afinal, a jovem estava sozinha. Sozinha... Até que encontrou Carlos.

Eles formavam um casal perfeito. Completavam um ao outro. Logo no início do relacionamento já tinham planos. Iriam se casar, formar uma família, ter filhos. Trabalhar, juntar dinheiro, dar festas e fazer viagens. Juntos, iriam observar as nuvens e as estrelas. Sentariam lado a lado na praia, escutando as ondas. Viajariam pelas estradas do país, com as janelas do carro escancaradas e a música no último volume. Iriam passear no parque de mãos dadas. Iriam tomar café juntos, logo que acordassem, antes mesmo de tirar os pijamas. Eles seriam felizes. Juntos.

Não. Eles não foram felizes. Marcelo teve medo de dar continuidade ao relacionamento. Imaginava que, uma hora, tudo iria dar errado. Já passava pela sua cabeça a ideia de que Larissa mantinha casos com os seus antigos amigos. Tudo pioraria depois que casassem. Ricardo estava decidido a terminar com esse relacionamento, e assim o fez.

Os dois sofreram muito depois de romper.

As últimas palavras de Maria, antes de morrer, foram “Eu deixo a vida me levar. A frustração é o único efeito de tentar controlar o próprio destino”. Ela foi atropelada por um ônibus. Quando Roberto descobriu, afundou-se em remorso. “Devia ter aproveitado enquanto ela estava viva”, pensou. Deixou de amar e ser amado por praticamente motivo nenhum. Sequer teve filhos.

José teve uma vida medíocre até que a velhice. Uma gripe o levou embora. As suas últimas palavras foram “Não tive nada na vida, mas aproveitei a vida que consegui ter”.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Um Resumo

Tem merda voando por todo lado. Merda me acertando por todo lado. Rastejando e babando, é lindo. Balançando sem sentido, sentindo esse nada. Lamber o asfalto. Gosto de vitória. Cheiro de carniça. Repolho, couve, ovos, tudo podre. O cachorro negro logo atrás. Olha para o céu, abismo. Choque elétrico, ininterrupto, imortal. Pare de estalar os dedos, eles estão doendo. Infinito: Um ataque do coração. Há pratos que caem da prateleira, dilacerando. Aquele espinho que ficou preso no seu dedo. Puxar a pele do canto da unha. Até sangrar. Lama nos joelhos, escorrendo entre os dedos. O telefone está tocando. E o coração batendo. Batendo. Batendo. Mentindo. Arrepios no frio. Aquela gota gelada escorrendo pelas costas. Aquele suspiro que faz o peito doer. Pare de roer a unha. Queimou o dedo na panela quente. Pegou a agulha, e a água vaza de dentro da bolha. Friccionando a pele queimada, sensível, no outro dedo. Bocejando, que soninho! Espreguiçar e bocejar. A água está fervendo, o bule apitando. E a sirene dos bombeiros lá longe: Alguém está morrendo. E você vivendo. E o seu coração, batendo. Dentro da geladeira. Aquela pedra de gelo. Dedos duros, congelados. E o ponteiro dos segundos não para e não passa. Imagine aquela pessoa derrubando a mesa, tudo que tinha em cima quebrando no chão. A luz queimando os olhos logo que você sai de casa. A frieira, a unha encravada, a fratura exposta. A lâmpada queimou, a comida queimou. Aquela casca preta, amarga, você vai ter que comer. A boca seca, logo cedo, ressaca. Vômito por todo lado. E esse cheiro ruim não passa, está impregnado no seu rosto. É uma fonte de miséria. Olha como esse mundo é lindo.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A Luta de Claces



Uma vez eu tive um amigo. Um verdadeiro companheiro. Quase um irmão. Logo que saí da casa dos meus pais, para morar mais próximo do trabalho, a gente começou a dividir os dois quartos de um apartamento. Nós gostávamos de lutar. Fazíamos Jiu-jitsu e Muay Thai, e mesmo quando não estávamos lutando na academia, vivíamos nos socando quando bebíamos, ou até mesmo em casa, em momentos de tédio. E eu sempre venci as brigas. Eu era maior e mais forte do que ele, então sempre parava na hora que achava que ele iria se machucar muito. Mas ele sempre contou vitória, dizendo que eu tinha me cansado e desistido. Um dia eu quis ver qual era o limite dele, o quanto ele demoraria a desistir. E talvez, mostrar o meu desempenho máximo. Logo no começo, ele ficou irritado. Eu também fiquei irritado com ele. E eu o matei, sem querer.

quinta-feira, 20 de março de 2014

O Mistério



Hoje aconteceu algo muito estranho. Muito mais estranho do que se espera que aconteça em dias normais. Eu passei por uma árvore seca. Ela sempre esteve lá. Mas hoje ela estava diferente. Eu escutava um barulho vindo de dentro dela. Um barulho de água, como se houvesse um riacho ou uma cachoeira. Cheguei mais perto para procurar de onde o sonho vinha. Não percebi nada além de notar que o som estava mais alto.
Realmente era o barulho de água. E vinha de, se não bastasse ser uma pequena árvore, uma árvore estava seca. Mesmo que houvesse um rio subterrâneo passando por baixo da árvore, então ela não deveria estar seca. Mas, por outro lado, o rio poderia ter aparecido depois de a árvore secar. Mas isso não faria sentido, pois o barulho que eu escutava era de um volume muito maior de água do que o que poderia ter aparecido ali naturalmente, em uma quantidade de tempo inferior ao do apodrecimento do tronco. Mas talvez não tenha sido naturalmente. Talvez fosse um encanamento da cidade que tivesse rompido. Ou não, porque esse tipo de barulho a gente escuta quando há contato do rio com o ar. Imagino que um rio subterrâneo, a não ser que seja uma caverna com galerias que ecoassem até aquela árvore, não deveria fazer aquele barulho. Mas e se fosse? Talvez uma caverna ainda não descoberta passando por baixo da cidade. Mas por que o som dessa caverna seria emitido por um tronco seco? Talvez, bem no nó da árvore, haja um buraco que tenha conexão com um buraco maior ainda, que tem ligação com uma rede de túneis que ecoa o barulho de uma imensa cachoeira, bem debaixo da cidade. Talvez, aquelas teorias de Júlio Verne não estejam tão erradas. Pode haver vida no centro do nosso planeta, e até mesmo um sol interno, como acreditam aqueles conspiracionistas extremos.
E toda a minha descoberta, tudo aquilo que eu estava escutando, vinha de dentro da minha árvore seca. Uma árvore. Nenhum rio no raio de quilômetros. E aquele maldito vegetal morto fazendo o barulho de água corrente. Eu tenho vontade de dar tiros nele. Para ver se ele continuaria fazendo o mesmo barulho. E se ele não estivesse morto? E se, ao invés de um vegetal morto, aquilo não fosse um animal vivo? Já ouvi falar de pássaros que aprendem um som e conseguem reproduzi-lo perfeitamente. Mas não podia haver nenhum ninho ou toca naquele pedaço de madeira. Não que eu conseguisse ver, pelo menos. Mas não necessariamente esse animal precisa ser um pássaro, ele pode ser só uma cigarra. Uma cigarra estranha que faz barulho de água. Uma cigarra conseguiria se esconder ali no meio muito melhor do que qualquer pássaro. Mas eu nunca ouvi uma cigarra fazendo barulho diferente do habitual. Até existem alguns ritmos diferentes, talvez entre as espécies, mas sempre é aquele som chato. Uma cigarra jamais conseguiria fazer o barulho de um rio. Mas, o animal poderia não estar dentro do tronco. Ele podia ser o tronco. Igual àquelas borboletas que a gente vê que imita a casa das árvores. Mas nesse caso, talvez o animal imitasse um tronco inteiro. Acho pouco provável. Talvez o tronco fosse a “casinha” do animal, como um caracol ou ermitão gigante. Que usa um tronco de árvore como toca. E que faz barulho de água. Não, não. Impossível. Se for mesmo um animal, a única probabilidade é que sejam vermes e larvas aí dentro. Não, nem isso. Eu nunca ouvi falar de nada sequer parecido com isso antes. Deve haver outro motivo para essa árvore seca fazer o barulho de um rio. Não deve ser um animal. Acho mais fácil ser o mundo no centro da terra do que um animal nunca antes visto pela ciência. Eu não sei o que era. Mas sei que é muito estranho. Estranho demais para ser compreendido. Um verdadeiro mistério.

sábado, 15 de março de 2014

A Magia que Rege o Universo


Tipo, cara, eu sou bonito. Eu sei que eu sou bonito. Todo mundo sempre me elogiou por ser bonito, até as garotas. Eu sinto uma imensa satisfação quando eu vejo meus comentários nas minhas fotos do Facebook e percebo que uma imensa quantidade de pessoas me considera lindo. E me sinto melhor ainda quando, mesmo quando eu faço pedidos para que curtam minhas fotos, elas chegam milhares de curtidas, centenas de comentários e até alguns compartilhamentos. Eu gosto, e muito, de ser bonito. E, como qualquer pessoa bonita, eu também sou popular. Minha caixa de entradas no Facebook sempre está cheia de mensagens. As pessoas me chamam para festas, dão em cima de mim. Eu percebo até que a atendente da padaria me cumprimenta sorrindo, coisa que ela não faz com maioria dos rapazes. Acho que, além de bonito, eu devo ser meigo ou carismático. Eu me amo. Eu sou foda e as pessoas me reconhecem por isso. Eu posso ser uma lástima em maioria das atividades que as pessoas geralmente consideram comuns, mas aposto que me dão muito mais valor por ser bonito do que dão valor a essas pessoas que têm grandes conquistas. Eu sou um inútil, mas sou mais valorizado do que gente útil. É a vida. E eu gosto da minha.