Tem merda voando por todo lado. Merda me acertando por todo lado. Rastejando e babando, como se diz, balançando sem sentido. Olha para o céu, abismo. Pare de estalar os dedos, eles estão doendo. Infinito: Um ataque do coração. Tudo caindo ao seu redor, nada mais fica em seu lugar, nada mais fica parado. Aquele espinho enterrado no dedo! O canto da unha sangrando. Lama nos joelhos, escorrendo entre os dedos. O telefone está tocando. E o coração... A gota gelada escorrendo pelas costas. Aquele suspiro que faz o peito doer. O dedo queimado, com a bolha em sua ponta. Friccionando o dedo sem pele, sensível, no outro dedo. A água está fervendo, o bule apitando. E a sirene dos bombeiros lá longe: Alguém está morrendo. Dentro da geladeira. Aquela pedra de gelo. Dedos duros, congelados. E o ponteiro dos segundos não para e não passa. A luz queimando os olhos logo que você sai de casa. A frieira, a unha encravada, a fratura exposta. A lâmpada queimou, a comida estragou (cheiro de podre). Aquela casca preta, amarga, de comida queimada: você vai ter que comer. A boca seca, logo cedo. Vômito por todo lado. E esse cheiro ruim não passa, está impregnado no seu rosto. Você está imundo.
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quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Um Resumo
Tem merda voando por todo lado. Merda me acertando por todo lado. Rastejando e babando, como se diz, balançando sem sentido. Olha para o céu, abismo. Pare de estalar os dedos, eles estão doendo. Infinito: Um ataque do coração. Tudo caindo ao seu redor, nada mais fica em seu lugar, nada mais fica parado. Aquele espinho enterrado no dedo! O canto da unha sangrando. Lama nos joelhos, escorrendo entre os dedos. O telefone está tocando. E o coração... A gota gelada escorrendo pelas costas. Aquele suspiro que faz o peito doer. O dedo queimado, com a bolha em sua ponta. Friccionando o dedo sem pele, sensível, no outro dedo. A água está fervendo, o bule apitando. E a sirene dos bombeiros lá longe: Alguém está morrendo. Dentro da geladeira. Aquela pedra de gelo. Dedos duros, congelados. E o ponteiro dos segundos não para e não passa. A luz queimando os olhos logo que você sai de casa. A frieira, a unha encravada, a fratura exposta. A lâmpada queimou, a comida estragou (cheiro de podre). Aquela casca preta, amarga, de comida queimada: você vai ter que comer. A boca seca, logo cedo. Vômito por todo lado. E esse cheiro ruim não passa, está impregnado no seu rosto. Você está imundo.sábado, 15 de março de 2014
A Magia que Rege o Universo
Tipo, cara, eu sou bonito. Eu sei que eu sou bonito. Todo mundo sempre me elogiou por ser bonito, até as garotas. Eu sinto uma imensa satisfação quando eu vejo meus comentários nas minhas fotos do Facebook e percebo que uma imensa quantidade de pessoas me considera lindo. E me sinto melhor ainda quando, mesmo quando eu faço pedidos para que curtam minhas fotos, elas chegam milhares de curtidas, centenas de comentários e até alguns compartilhamentos. Eu gosto, e muito, de ser bonito. E, como qualquer pessoa bonita, eu também sou popular. Minha caixa de entradas no Facebook sempre está cheia de mensagens. As pessoas me chamam para festas, dão em cima de mim. Eu percebo até que a atendente da padaria me cumprimenta sorrindo, coisa que ela não faz com maioria dos rapazes. Acho que, além de bonito, eu devo ser meigo ou carismático. Eu me amo. Eu sou foda e as pessoas me reconhecem por isso. Eu posso ser uma lástima em maioria das atividades que as pessoas geralmente consideram comuns, mas aposto que me dão muito mais valor por ser bonito do que dão valor a essas pessoas que têm grandes conquistas. Eu sou um inútil, mas sou mais valorizado do que gente útil. É a vida. E eu gosto da minha.
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Baixa Geral
Você viu aquela mulher? Aquela mulher pálida, deitada na
mesa, indefesa? Com seus olhos fechados, boca calada, pele gelada? Você viu? O
defunto em seu descanso eterno? Em seu descanso em paz? Decomposto, pútrido,
putrefeito, apodrecido? Fedendo a carniça? Você viu aquela mulher, não viu?
Pele acinzentada, incolor, inerte? A expressão inerte? Aquela mulher que foi
trazida de ambulância, ensanguentada? Aquela mulher que foi trazida com a boca
escancarada? Que foi trazida incinerada? De dentro daquela casa incendiada? Você
viu, não viu?
Você viu aquela mulher? Aquela mulher petrificada, engolida
pela fragilidade da existência? Com as manchas vermelhas vazando por seus
braços? Com a cabeça achatada pela roda do trem? Pela força da altura do chão
duro? Pela força do projétil metálico disparado em alta velocidade? Você viu?
Viu aquela mulher com as marcas no pescoço? Marcas de mãos ciumentas? As mãos
daquele amante frustrado? Perdido na vida, no álcool, nas drogas? Procurando um
refúgio sanguinolento para seus sentimentos impiedosos? Você viu, não viu?
Aquela mulher que estava em ossos? Ossos encontrados por
amantes, por acaso? Enquanto procuravam uma trilha vazia para foder? Aquela
mulher estudada pelos médicos, não viu? De órgãos externos, órgãos expostos,
expostos a estudo? Pelos legistas? Pelos estudantes de medicina? Postos em fila
ao redor do corpo? Apreciando-o como uma obra de arte? Você viu essa mulher?
Pintada nos livros de anatomia? Divulgada naqueles jornais violentos? Impressos
a tinta vermelha? Vermelha da cor do sangue? Você viu, não viu?
quinta-feira, 3 de março de 2011
Saúde
Nós vamos viajar juntos, nós vamos ver o mundo, deitar e
sonhar felizes, sentir o cheiro da garoa e da areia e das plantações. Perceber
só na tarde do dia seguinte todo o tempo que ficamos um com o outro, depois de
uma noite de luzes apagadas, traçando nossos planos para o futuro, conversando,
tocando, agarrando, sentindo. Não sei mais se minha lucidez está indo embora, por
outro lado, a mais crua e dura realidade. Não creio que plumas estejam saindo
em seus ombros, você não é real, a realidade me engana. Minhas vísceras ‘tão saltando
pra fora de mim. Eu tento não acreditar em demônios, mas esses vultos crescem cada
vez mais, cada vez mais entre as pessoas próximas, que pulam e festejam a minha
volta sem que eu possa ouvir uma única voz. Muito longe, todos longe demais. Como
pôde a sua luz virar sombra? Tornar seus caminhos em labirintos? O seu lugar, num
espaço vazio, oco, como um câncer me devorando?
Nós vamos ver as nuvens, nós vamos ver estrelas, deitar e
sonhar juntos, sentir o cheiro do café e do tabaco e da erva. Perceber só na
tarde do dia seguinte o círculo marrom carimbado no papel, depois de uma noite de
luzes acesas, traçando trilhas no meio da bagunça, compartilhando, conversando,
viajando. Preciso de uma fuga dessa sala escura. Se a luz não me mostrar um
caminho a seguir, que a fumaça me cegue de ver esse vão. Se esse vazio não
sumir de mim, vou morrer. Mesmo se não me matarem, eu vou morrer.
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