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segunda-feira, 11 de novembro de 2019
Motivos para me matar e motivos para continuar vivo
Uma vez me disseram que pessoas que se sentem um peso para a sua família têm mais chances de cometer suicídio. Eu acho esse raciocínio um tanto quanto errado: essa frase dá a impressão de que esse sentimento de abandono é um motivo pelo qual as pessoas se matam. Mas, no meu caso, eu não preciso de motivos para me matar, pelo contrário, eu preciso de motivos para continuar vivo. Os momentos nos quais eu planejei e tentei ativamente me matar não estavam acompanhados de nenhum sofrimento extremo. Mas eu gostaria de estar morto, mesmo que eu não esteja planejando me matar. E eu só não estou tentando me matar o tempo inteiro porque na maior parte do tempo eu tenho um motivo para querer estar vivo, que é não causar o sofrimento daqueles que eu amo. Mas se eu não tiver mais esse motivo (e isso já aconteceu antes), eu com certeza vou me matar. Não por ter motivos para me matar, e sim pela falta de motivos para querer continuar vivo, e provavelmente é isso que eu sentiria se eu me considerasse um peso para minha própria família.
terça-feira, 13 de novembro de 2018
Poesia horrível
Eu sinto falta de você
Eu sinto muita muita falta de você
Tudo bem lembrar que você me estrangulou
Lembrar dos sons das minhas costelas quebrando
Quando você me jogou no chão e me chutou
Deixando meu olho roxo e meu nariz sangrando
E isso tudo foi uma bosta
Mas eu me sinto pior agora
Prefiro ter um escroto arruinando meu dia
E jogando minha vida fora
A lidar com toda essa apatia
A me sentir vazio como eu estou agora
Eu sinto muita muita falta de você
Tudo bem lembrar que você me estrangulou
Lembrar dos sons das minhas costelas quebrando
Quando você me jogou no chão e me chutou
Deixando meu olho roxo e meu nariz sangrando
E isso tudo foi uma bosta
Mas eu me sinto pior agora
Prefiro ter um escroto arruinando meu dia
E jogando minha vida fora
A lidar com toda essa apatia
A me sentir vazio como eu estou agora
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indelicado,
Raiva,
Solidão,
Tristeza
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Prego Torto
Martelada depois de martelada, eu repetia, incessantemente, pregando madeira a madeira. Estava muito calor, a casa era abafada, a cidade quente, e eu sentia as gotas de suor escorrendo pelas minhas costas. Estava martelando um estrado para a minha nova cama. Tanto a estrutura de madeira quanto as ripas que eu martelava, eu havia conseguido no lixão, de manhã. Afinal de contas, aquele era meu dia de folga, mas mesmo assim eu acordei logo cedo. Tive que conseguir uma cama para passar a noite na casa onde estava. Tinha alugado o imóvel por uma semana, para saber em que estado tudo se encontrava. Eu sabia que lá havia baratas, por isso quis ter pelo menos uma cama para passar as noites. O ambiente também estava fedido, mas disso e das outras coisas eu cuidaria no dia seguinte. Se algum problema não tivesse jeito, eu iria tratar com o proprietário. Eu precisava observar a real condição da casa, pois os donos pediram trinta e cinco mil reais para vendê-la, e meu dinheiro era curto, eu precisava verificar se realmente o custo valia a pena antes de fazer um financiamento no banco. Por isso aluguei a casa por uma semana, para ver como ela estava antes de comprá-la e me mudar. Afinal de contas, eu me interessei por aquela casa pela sua localização: Bem em frente ao cemitério. E também ouvi boatos de que alguém havia morrido lá dentro. Acho que por esses dois fatores o valor do imóvel estaria bem acessível. Mas não custa nada verificar se não havia encanamentos quebrados ou instalações elétricas mal feitas, quem sabe eu poderia reduzir ainda mais o custo. Eu sei que comprar um imóvel próprio ainda estava fora da minha capacidade, meu salário no novo emprego ainda era baixíssimo. Mas em longo prazo, eu economizaria muito mais comprando aquela casa do que morando no hotel. Quando eu me mudei para aquela cidade, não havia nenhum imóvel disponível. Nos primeiros dias, hospedei-me em um hotel precário no centro da cidade. Não havia roupa de cama, o banheiro era imundo, a água do chuveiro, fria. Mais tarde negociei para pagar um valor mais baixo, em troca, eu mesmo arrumaria o meu quarto, não precisaria das camareiras. Afinal de contas, eu mal passava a noite lá dentro, não havia sequer motivo para arrumarem nada. E também naquela cidade no fim do mundo, não havia turismo, praticamente. Eu sozinho durante um mês já seria uma fonte de lucros imensa para o hotelzinho. Por outro lado, se eles cobrassem muito caro na diária, eu não iria conseguir pagar com o meu salário de coveiro. Falando nisso, eu trabalhava no cemitério, por isso que procurei uma casa que ficasse de frente para ele. O salário era relativamente alto para quem só precisava ficar colocando caixões dentro do jazigo e depois cimentando, ou tirando os ossos antigos e colocando dentro de um saco no ossuário. Sem falar que a maior parte do tempo eu não fazia nada além de assistir televisão com o porteiro. Agora, com uma casa do lado do local de trabalho, eu poderia ir fazer uma limonada para eu e o Tonho tomarmos enquanto assistíamos Sessão da Tarde. Ele gostava de Domingão do Faustão, mas eu não podia assistir, domingo era um dos dias mais lotados no cemitério. Às vezes, de manhã, também assistíamos os desenhos da Cultura. Descobri que tanto eu como ele gostávamos do sentimento de lembrar da infância. O Tonho uma vez me perguntou por que eu me mudei para aquela cidade de velhos, para trabalhar num cemitério e ficar longe dos amigos, dos bailes, das garotas da capital. Eu respondi que nada disso realmente me interessava. Os amigos? Irritantes, não eram amigos de verdade. As baladas? Irritantes, não eram divertidas de verdade. As garotas? Irritantes, não eram mulheres de verdade, somente garotas. Preferia uma vida tranquila e solitária no interior, trabalhando como coveiro mesmo. Eu também estava planejando subir na carreira no cemitério, quem sabe me tornar maquiador, depois vendedor de caixões e jazigos, mais tarde seria o gerente. Ou então aproveitaria o imóvel que estava comprando e montaria uma floricultura, do lado do cemitério. Tudo era promissor. Talvez não tão promissor quanto a minha vida antes de mudar para aquela cidade, mas mesmo assim seria melhor para mim. Eu acabei me mudando para lá depois de ver um anúncio na internet, no site da cidade, dizendo que o cemitério e algumas lojas no centro estavam precisando de funcionários. Eu nunca me dei bem com outras pessoas, preferi me tornar coveiro, menos estressante e mais bem pago do que vendedor. Eu precisava sair da minha antiga casa na capital. Eu sei que lá eu tinha um futuro, meus pais me sustentariam por um bom tempo e eu poderia fazer uma faculdade. Mas não havia mais como eu suportar aquela vida. Tudo o que eu fazia, antes devia ser julgado pelos meus genitores. E maioria das vezes, eles só reprovavam minhas atitudes. O clima de reprovação, de julgo, de desgosto com que todos me olhavam só me fazia sentir um peso naquela casa. Não se relacionar bem com os pais é algo até que normal, mas a partir do momento que você tenta fazer tudo ficar bem e a única coisa que consegue são olhares de desprezo e de reprovação, sua única vontade é de sair daquele lugar. Eu não sentia mais aquela casa como sendo um lar. Parecia mais um presídio. Eu mal conseguia me aplicar aos meus estudos, de tão mal que me sentia. Realmente valeu a pena ter me mudado para aquela cidadezinha no meio do nada e longe de tudo. Pelo menos fiquei bem longe da minha família. Vivia com humildade, mas o novo emprego e todas as minhas tarefas de solteiro solitário ocupavam a minha mente, e eu já não me sentia mal. Aos poucos, aquela quente, abafada, seca, minúscula e desabitada cidadezinha do interior se tornava mais um lar para mim do que a capital foi por todos os anos que eu morei lá.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Dois Momentos
Passo na frente de passo. Passo na frente de passo, eu continuo andando, passo na frente de passo. Passo pela grama alta, bem alta, já deve estar com meio metro de altura. O muro está começando a derrubar pedaços do seu concreto no chão, formando uma areia cinza e bem grossa. Do outro lado, as amoreiras amarronzadas, já sem metade das folhas. Parece que tudo está destruído.
Destruído sim, mas não morto. Sofrimento? Eu não conheço isso. Minha vida é tranquila, tranquila até demais. Parece que tudo está parado, inerte... Nunca conquisto nada, só envelheço perdendo os momentos da juventude que poderia ter aproveitado. Estou cansado. Passo na frente de passo, nunca conquisto nada, só consigo me cansar. É isso. Estou cansado dessa vida medíocre. Quando vou deixar tudo para trás?
--
Então eu abro mais o registro, deixando a água fria. Sento
no chão do banheiro, abraço minhas pernas. Fico escutando somente o som da água
caindo. A água que, mais longe da resistência do chuveiro, fica mais fria
ainda. Cai na minha cabeça, escorre pelas minhas costas. Deixa-me arrepiado,
como se estivesse correndo por dentro de mim, limpando minha alma. Eu sei que a
maioria dos outros garotos estaria fazendo outras coisas no banho. Mas eu
sempre soube que eu não sou uma pessoa normal.
Às vezes, preciso sair da rotina para esfriar minhas ideias.
Geralmente essas fugas envolvem água gelada, pancadas ou coisas quebrando; no
entanto em todas elas eu tenho que estar sozinho. Preciso fazer algo para
aliviar minha ira, minhas frustrações. Às vezes a vida parece pesada demais,
cheia de obrigações necessárias para alcançar objetivos que não são meus, e eu
preciso virar tudo de cabeça para baixo e do avesso para sentir que estou
fazendo algo além de existir.
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Vitor
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Crise da Meia-Idade
Eu ligo o fonógrafo, coloco meu disco de jazz favorito,
pego minha xícara de chá e vou ler a gazeta na minha poltrona. Aperto os olhos
para tentar distinguir as letras, e percebo que estou sem óculos. Falando
nisso, preciso retornar ao oftalmologista, porque os que eu uso agora já não
são mais o suficiente para a minha visão. Quando volto e finalmente começo a
ler o jornal, dou uma bebericada no chá. Sinto meu bigode molhando. Quando já
estou no terceiro parágrafo da matéria, reparo que eu não me lembro de nada do
que tinha lido.
É horrível quando a gente percebe que já está velho
demais para começar a fazer algumas coisas. É como se minhas forças vitais
começassem a se decompor dentro de mim. “Eu estou apodrecendo”, penso. “Perdi
tempo”. E tudo o que eu sempre faço é perder meu tempo e minha vida.
“Com a velhice vem a experiência” uma vez me disse um
senhor que eu conheci na praça, jogando dominó. Já não me recordo mais de seu
nome. Eu me sinto mal toda vez que me lembro dele. Nós ficávamos batendo papo
sobre remédios, sobre a enfermeira que o atendeu no hospital e sobre seus entes
queridos falecidos. Afinal de contas, o que é a experiência?
experiência |eis|
(latim experientia, -ae, ensaio, prova, tentativa)
(latim experientia, -ae, ensaio, prova, tentativa)
s. f.
1. Ato de experimentar.
2. Ensaio.
3. Tentativa.
4. Conhecimento adquirido por prática,
estudos, observação, etc.; experimentação.
homem de experiência: homem conhecedor das coisas da vida.
Acho que descobri o motivo de eu me sentir tão velho,
mesmo tendo só dezoito anos. Posso não ter envelhecido quase nada, mas o pouco
de idade que eu tenho ganhado está vindo totalmente isolada de qualquer forma
de experiência. Não faço coisas novas, não conheço gente nova, não aprendo nada
novo. A única coisa que tem acompanhado meu envelhecimento (deveria dizer
formação, porque sequer sou um adulto ainda) é uma crescente culpa.
Provavelmente serei um velho amargurado por não ter vivido a juventude enquanto
tinha vitalidade.
Eu gostaria de sentir o sangue correndo em minhas veias.
Mas tenho a impressão que em seu lugar só existe lama. Lama não: Lodo. Um lodo
pútrido e fedorento, que me consome a cada dia. É... Eu estou sendo trágico
demais. Mas não me culpem, só estou tentando por um pouco de emoção na minha
existência. De uma forma bem velha: Escrevendo.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Três Momentos
Nós saíamos do bar, andávamos na rua, lado a lado.
Passando por de baixo das luzes dos postes. Ouvíamos as músicas animadas
tocando, as pessoas conversando e rindo, um carro passando, um copo quebrando.
Ele estava do meu lado, mas não estávamos de mãos dadas. Eu não gosto de andar
de mãos dadas. O primeiro motivo é porque parece que você está exibindo a outra
pessoa como se ela fosse um troféu. Como se você dissesse “Olha, eu namoro e
você não”. O outro motivo é porque parece uma forma de controle. “Ande do meu
lado, fique só comigo”. Eu não acho legal manter alguém que você gosta numa
gaiola. As pessoas são mais belas quando elas estão livres.
Eu não me lembro do motivo pelo qual nós saíamos do bar.
Era cedo para voltarmos para casa, o metrô ainda não tinha voltado a funcionar.
Eu só sei que eu me sentia bem por ele estar comigo. Não conversávamos tampouco
nos encostávamos, não fazíamos nada além de andar juntos. Tê-lo comigo era o
suficiente para dar um sentido à minha noite.
Sentamos na calçada de uma rua escura, sem saída. Ficamos
de ombros encostados. Eu olhava para o Converse marrom dele. Acendi um cigarro.
Fiz um gesto oferecendo, mas ele gesticulou com a mão negando. Ele sempre
recusa. Fiquei olhando para o rosto dele através da fumaça, ele sorria. É
incrível como eu me sentia bem perto dele, mesmo sem conhecê-lo direito. Nós
nunca conversamos muito, mas tínhamos intimidade por ficarmos juntos. Ele
sempre do meu lado.
--
– Você está feliz?
– Feliz é uma
palavra muito forte, eu disse.
Peguei a minha xícara de chá com as duas mãos, deu um
gole que aqueceu minha garganta. Depois a pus de volta sobre a pequena mesa de
madeira que havia entre nós.
Todos nossos colegas estavam em uma festa, comemorando
suas conquistas. Conquistas que nós dois também obtivemos, mas preferimos
comemorar a sós. Ou não comemorar. Aglomerações me dão nojo.
Ele ficou olhando para mim, desanimado, com suas olheiras
que nunca o deixavam. Suas roupas eram largadas, sem cor, sem vida, assim como
as minhas. Todo o nosso redor era sem vida: Um quarto com paredes imundas, que
costumavam ser brancas. Sofás antigos de couro marrom, rasgados e remendados.
Móveis de madeira, quebrados. Tudo isso em meio a uma bagunça de papéis,
garrafas, panelas, louças. Um calendário de 1998 na parede. Era uma casa
abandonada. Mas nós não usamos a chaleira e as xícaras que encontramos lá,
seria anti-higiênico. Trouxemos tudo de nossas casas.
A casa não tinha mais eletricidade; o aposento era
iluminado por uma única janela, cuja cortina estava caída. Também não tinha
abastecimento de água. A única coisa que os antigos donos deixaram para que
pudéssemos usar foi o fogão com um botijão de gás inesgotado.
Fitei a densa neblina lá fora, atrás da janela. A
(semi)solidão me fazia bem. Deixava-me tranquilo, satisfeito, infinito.
--
Uma libélula entrou no banheiro. Ficou voando em frente
ao espelho e depois pousou na pia. Mesmo estando parada, continuou movimentando
suas quatro asas de forma lenta e delicada.
Olhei para o corpo dele atrás do vidro. A água caía do
chuveiro sobre seus ombros e escorria por suas pernas. Ele pegou o sabonete e
começou a se esfregar de forma trivial, com oscilações lentas e equilibradas.
Um movimento suave de sua cabeça fez seu olhar singelo encontrar o meu.
O vapor subia do chão e turvava o vidro do box. Fiquei
admirando-o por não mais que um segundo, mas minha impressão era de que passara
a eternidade lá. É incrível a forma como o nada se parece com o infinito.
Eu não me excitava. Eu sequer o amava. Os momentos que
estive com ele foram bons, mas tem uma hora que todas as coisas boas chegam ao
fim. Minto. Não gosto da palavra “acabar”, mas nada é eterno: Tudo muda e nunca
volta a ser o que era antes.
Então vi a libélula entrando no meio dos jatos d’água,
caindo no chão e sendo sugada pelo ralo.
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quinta-feira, 22 de março de 2012
Lar
Paredes rachadas, tinta descascando. Janelas quebradas, mato e sujeira tomando conta de tudo. Esse é o meu lar.
É, o meu vizinho é organizado. Ele tem um gramado verde. Suas paredes estão bem pintadas, e suas janelas inteiras. Eu nunca entrei para ver como é por dentro, mas acredito que não seja pior do que o meu lar.

Pior? Meu lar é ruim?
É como eu estou acostumado. É como ele me completa. Talvez, se fosse bonito, eu daria um jeito de destruir tudo.
Porque na verdade, quem deixou meu lar assim fui eu mesmo. Eu e minha marreta de ferro.
Não sei se você sabe, mas é bom destruir as coisas. É aliviante. Você sentir todo o peso do cilindro de ferro voando por cima da sua cabeça e acertando em cheio alguma coisa bonita. Você não se sente novo, mas se sente conformado. Ao invés de fugir do ruim, você gera o ruim.
Talvez seja incômodo viver em um lar que esteja aos pedaços. Mas eu sei que a marretada que destrói minha parede emite um som que perturba o meu vizinho.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Refração
Estou observando um horizonte cinzento ao pôr do Sol. O tempo passa ao meu redor, e as pessoas estão retornando aos seus lares. Eu não tenho um lar para voltar. O Sol não pode se pôr para mim.
Estou observando um horizonte cinzento ao pôr do Sol. O tempo passa ao meu redor, mas não passa dentro de mim.
O que você está fazendo? Ele diz. Mas meus olhos turvos não conseguem distingui-lo direito. Eu tenho que retornar à minha tarefa. O que você está fazendo, ein, mano? Ele diz. Eu olho para ele.
Meu coração quebrou. Meu coração quebrou, mano.
E agora, mano? Ele diz. Eu posso te ajudar?
Sim, eu trouxe cola. Olha aqui. Cola sempre conserta tudo, na falta de mães. Eu olho para ele. Confuso? Como pode não entender? Mães consertam tudo. Mas nem todos têm mães, e não se pode arranjar uma em qualquer lugar. Mas eu tenho cola, e ela tem o mesmo efeito.
E agora, mano? Ele diz. Como eu posso te ajudar? Você sabe... Com a cola? Onde eu passo?
Não passe. Só inale.
Estou andando sozinho na calçada. Cercado por prédios deteriorados, que um dia não existiam fora dos projetos de um arquiteto. Pessoas haviam comprado apartamentos antes deles estarem prontos.Estou andando sozinho na calçada. Cercado por ruínas do que um dia foram sonhos.
Quando seu coração quebrou? Ele diz. Mas minha mente confusa não consegue recordar quem ele é. Eu tenho que retornar aos meus pensamentos. Quando seu coração quebrou, ein, mano? Ele diz. Eu tento lembrar dele.
Ele nunca esteve inteiro. E agora mesmo, ele está em chamas, mano.
E agora, mano? Ele diz. Eu posso apagar?
Não, é uma má ideia. Olha aqui. Mães, lares, todas essas coisas. Eu olho para ele. Confuso? Como pode não entender? Nada disso nunca foi real. Foram só sonhos. E agora restam só ruínas, em chamas. Restam só cinzas. Resta só essa fumaça que me sufoca.
E agora, mano? Ele diz. Como eu posso te ajudar? Você sabe... Apagar esse fogo? Acabar com a fumaça?
Não apague. Só inale.
Estou virando a cabeça para vomitar. Não posso vomitar em mim mesmo. Ficaria sujo, fedido. Mas por que as pessoas não querem ficar sujas e fedidas? Para agradar aos outros? Então eu não preciso virar a cabeça.
Estou virando a cabeça para vomitar. Não posso continuar vivendo em mim mesmo.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
A Grande Festa da Vida
Perfeição
Você sabe o que significa perfeição?
Para mim, perfeição é amar
E poder declarar esse amor para todos
E concretizar esse amor em uma grande cerimônia
Em uma grande festa
Na grande festa da minha vida
Grande!
Tinha de ser grande!
Grande para poder mostrar minha intenção
Em tentar mostrar a grandeza desse amor
Tentar mostrar
Porque na verdade esse amor não tem tamanho
O salão tinha de ser imenso!
Não uma igreja, mas uma catedral!
Uma orquestra de cem homens para tocar nossas músicas!
Assentos o suficiente para milhares de convidados;
Que dançariam juntos, sincronizados, na hora da festa
O banquete
E o banquete, então!
Pães, queijos, frios, salgados,
Frutas, brigadeiros, bolos, chocolates,
Lasanhas, pizzas, nhoques, risotos,
Martini’s, coquetéis, licores, vinhos,
Frangos, perus, leitões, carneiros!
Tudo servido na mais grandiosa mesa
Para unir toda família, parentes e amigos
Celebrando a mais grandiosa união entre dois amantes
A mais grandiosa mesa, coberta pela toalha branca
Decorada com flores, também brancas
E toda a prataria
Prataria na qual consigo me ver refletido
Refletido todo o brilho do meu sorriso
Todo o brilho da minha alegria
Todo o brilho da minha alegria.
Deixo para trás o salão, a gulodice e a vaidade
Desço todo a escadaria, por baixo dos imensos arcos
É noite, mas o jardim é bem iluminado
As estrelas, a brisa, o cheiro suave das flores
Tudo colabora para minha tranquilidade
Refiz o caminho, aquele caminho
Caminho pelo qual passaríamos
Para chegar até o salão de nossa cerimônia
Refiz o caminho, verificando cada milímetro
Para ter certeza de que tudo estaria perfeito
Para a nossa grandiosa festa
Havia um labirinto vivo no meio do jardim
Era vivo porque era feito de arbustos
Entrei, deixando o cheiro da noite me guiar
A cada passo que eu dava, estava mais perdido
Mas estava tranquilo, tranquilo até demais
Porque logo a festa começaria
E todos os convidados chegariam
E acabariam me encontrando
E acabariam me encontrando.
Mas eu estava errado, alguma coisa faltava
Alguma coisa muito importante em um casamento
Faltava um noivo.
Como eu poderia me casar se não tinha um noivo?
Todos aqueles preparos de nada valiam
Eu perdi muito tempo me preparando
Construindo o meu próprio mundo
Dentro de mim mesmo
E esqueci de me aventirar, de viver,
E de procurar alguém com quem dividir isso tudo
Agora, não havia mais ninguém, e eu estava sozinho
Sozinho e perdido, perdido para sempre
Dentro do labirinto que eu mesmo construí
Dentro do labirinto que eu mesmo construí.
Com meus próprios sentimentos
Com todo o meu sentimento de medo
Com todo o meu rancor
Toda a minha ansiedade
E a minha paixão
E agora eu estou perdido
Perdido na minha existência
Existência inacabável
Existência imensurável
Existência ininteligível
Existência incompreensível
Perfeição
Perdido,
Perdido dentro de mim mesmo.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Várias Pessoas, uma Única Existência
João era perfeitamente medíocre. Havia momentos em que tinha
vergonha de si mesmo. Queria esconder quem ele realmente era. O seu passado
vergonhoso, aquela mania estúpida, aquele medo irracional, aquela frustrante
incapacidade de fazer aquela tarefa com a qual todos tinham facilidade. Tinha
vergonha de seu pai, que não chegara a conhecer. Tinha vergonha de sua mãe, que
de tão simples, mal sabia escrever. Tinha vergonha de si mesmo, por todas as
coisas que seus pais deveriam ter-lhe ensinado quando era criança e que lhe
faziam falta como adulto.
Antônio tinha o pé torto. Era gago. Vesgo. Não sabia tocar
violão. Não falava inglês. Suas acnes lhe incomodavam. Queria ser mais baixo,
pois acreditava que sua imensa estatura era responsável tanto pela sua
aparência desengonçada quanto pelo fato dele ser desastrado.
Francisco tinha medo de fazer novas amizades. De que o
achassem estranho. Tinha medo de falar besteira e passar vergonha. De falar
alto demais e incomodar as pessoas. De acabar gargalhando e todos perceberem
quão esquisita era a sua risada. Tinha vergonha de seu mau hálito. Simplesmente
não conseguia conversar, pois as palavras certas não lhe vinham à boca, e suas
tentativas de diálogo se resumiam a momentos de intenso e inoportuno silêncio.
Luiz não tinha namoradas. Não conseguia se aproximar de
garotas. Não sabia o que falar. Muitas o achavam feio. Outras não gostavam de
sua voz. Ele não sabia beijar direito. A garota com quem ele perdeu a
virgindade contou para as amigas que ele era sem-graça, ruim de cama.
Quando fez dezenove anos, Paulo tentou arrumar um emprego. Era vendedor de uma loja de móveis. Quanto mais ele vendesse, mais dinheiro conseguiria. Mas no final, ele nunca conseguiu muito com isso. Seus colegas de serviço eram bem melhores do que ele. A agonia que tinham por vender mais do que os outros acabou fazendo com que Marcos ficasse para trás e fosse rebaixado para a área de assistência técnica da loja.
A aposentadoria da mãe de Manoel mal dava para comprar os
remédios que ela precisava. Ela acabou ficando muito doente. Ele a levou à
cidade grande e procurou um médico. Ela precisou ser internada. Mas a fila de
espera para receber a cirurgia era tão grande que ela faleceu antes de ser
tratada. Ele estava sozinho. Sem ninguém para ampara-lo, sofrendo as constantes
punições e humilhações da vida. Até que encontrou Ana.
Márcia era mediocramente perfeita. Havia momentos em que
tinha orgulho de si mesma. Queria que o mundo a visse da forma que ela queria.
O seu futuro brilhante, as suas nobres virtudes, as suas iniciativas proativas,
aquela invejável disposição de fazer as tarefas das quais todos tinham
preguiça. Tinha orgulho de seu pai, que mesmo sendo divorciado e morando longe,
ajudava financeiramente a filha. Tinha orgulho de sua mãe, que mesmo sendo
simples, sempre fez de tudo para ver Joana bem. Tinha orgulho de si mesma, por
todas as coisas que seus pais deixaram de lhe ensinar ela conseguiu aprender
com a vida.
Francisca era encantadora. Tinha a voz bonita. Olhos verdes.
Cantava bem. Conseguia se expressar bem. Seu olhar era profundo. Gostava de ser
alta, pois chamava a atenção dos rapazes para o seu belo corpo.
Adriana tinha amigos. Eram estranhos, mas eram amigos.
Falavam besteiras juntos, passavam vergonha juntos. Falavam alto e atazanavam
uns aos outros. Quando estavam reunidos, gargalhavam tanto que até perdiam a
voz. Eles simplesmente se davam bem. Não precisavam de uma ocasião especial
para se encontrar, nem de um assunto para conversarem. Falavam sobre
trivialidades e se sentiam bem com isso.
Antônia não tinha namorados. Não queria saber de
compromissos, preferia aproveitar a vida. Alguns rapazes a pediram em namoro,
mas ela não queria nada sério. Ela não gostava de rotular seus relacionamentos
com palavras como “amigo”, “ficante” ou “namorado”. Ela gostava mesmo era de
ter companhia e de poder fazer o que quisesse quando quisesse e com quem
quisesse.
Quando fez dezenove anos, Sandra tentou arrumar um emprego.
Era vendedora de uma loja de eletrônicos. Quanto mais ela vendesse, mais
dinheiro conseguiria. Mas no final, ela nunca conseguiu muito com isso. Seus
colegas de serviço eram melhores do que ela. Mas por outro lado, ela lidava bem
com as pessoas, e isso não passou despercebido aos olhos de seu chefe. Patrícia
foi promovida para a área de assistência técnica da loja.
A aposentadoria da mãe de Vera mal dava para comprar os
próprios remédios, e por isso ela ficou muito doente. Ela a levou à cidade
grande e procurou um médico. A mãe precisou ser internada. Mas a fila de espera
para receber a cirurgia era tão grande que ela faleceu antes de ser tratada.
Josefa orava a Deus por sua mãe, desejando que ela estivesse
em um lugar melhor, descansando, livre de todos os sofrimentos terrenos. Mas
afinal, a jovem estava sozinha. Sozinha... Até que encontrou Carlos.
Eles formavam um casal perfeito. Completavam um ao outro.
Logo no início do relacionamento já tinham planos. Iriam se casar, formar uma
família, ter filhos. Trabalhar, juntar dinheiro, dar festas e fazer viagens. Juntos,
iriam observar as nuvens e as estrelas. Sentariam lado a lado na praia,
escutando as ondas. Viajariam pelas estradas do país, com as janelas do carro
escancaradas e a música no último volume. Iriam passear no parque de mãos
dadas. Iriam tomar café juntos, logo que acordassem, antes mesmo de tirar os
pijamas. Eles seriam felizes. Juntos.
Não. Eles não foram felizes. Marcelo teve medo de dar
continuidade ao relacionamento. Imaginava que, uma hora, tudo iria dar errado.
Já passava pela sua cabeça a ideia de que Larissa mantinha casos com os seus
antigos amigos. Tudo pioraria depois que casassem. Ricardo estava decidido a
terminar com esse relacionamento, e assim o fez.
Os dois sofreram muito depois de romper.
As últimas palavras de Maria, antes de morrer, foram “Eu deixo
a vida me levar. A frustração é o único efeito de tentar controlar o próprio
destino”. Ela foi atropelada por um ônibus. Quando Roberto descobriu,
afundou-se em remorso. “Devia ter aproveitado enquanto ela estava viva”,
pensou. Deixou de amar e ser amado por praticamente motivo nenhum. Sequer teve
filhos.
José teve uma vida medíocre até que a velhice. Uma gripe o
levou embora. As suas últimas palavras foram “Não tive nada na vida, mas
aproveitei a vida que consegui ter”.
sábado, 8 de outubro de 2011
Sempre Há Tempo
Ele levantou os trapos que o cobriam e se levantou da cama. Sua
roupa larga estava começando a ficar suja, ele não a removia nunca.
Deu alguns passos preguiçosos, tomando cuidado para não tropeçar
com seus pés descalços. Pegou uma jarra na despensa, a destampou,
colocou um pouco de água em uma caneca de madeira e bebeu. Tentou
erguer sua postura corcunda espreguiçando e coçando a cabeça,
enquanto olhava para a floresta pela janela. Tudo estava calmo e
deprimente, como sempre esteve em sua vida solitária. Alguns
pássaros voavam e o vento balançava as árvores. Tudo em seu lugar,
exceto por aquela mancha azul, bem distante, se aproximando aos
poucos. Ele esfregou os olhos. Estava com preguiça de acreditar no
que vira. Não queria passar por tudo de novo. Voltou para a cama, e
quis acreditar que dormia.
"Ré, eu sei que você está aí!" ela gritava enquanto
dava murros na porta, "Me deixa entrar!". Ele só se virou
na cama e tentou cobrir a cabeça com o cobertor. Ela, sem obter
resposta, começou a chutar a porta. Emaré, ao ouvir o som de
madeira estralando e com medo da porta ceder, se levantou. "Se
você não abrir para mim, eu vou derru..." Ela dizia, antes
dele silenciosamente aparecer na sua frente, com a porta já aberta.
Suas olheiras profundas e seu cabelo desarrumado só intensificavam
sua expressão de desgosto.
"Boa tarde", ele disse friamente. "Boa tarde", ela respondeu sem jeito, seu rosto corando. Eles ficaram se encarando na passagem da porta da casa por algum tempo. "O que você veio fazer aqui?" Ele quebrou o silêncio. "É que eu quero conversar..." Ela disse, timidamente. Ele ergueu uma sobrancelha, descontento com a resposta. "Não é tarde demais para a gente tentar de novo" Ela terminou. Ele deu as costas e fechava a porta enquanto dizia "Eu pensei que você já estava cansada de tornar a minha vida um tormento". "Espera!" Ela se exaltou, pondo-se em frente à porta, impedindo-o de fechá-la. Ele a encarou novamente, ainda descontente. Ela olhou para dentro da casa. Viu os vários livros, velas parcialmente derretidas e decorações macabras espalhados na mesa e nas estantes do humilde casebre. O pentagrama desenhado no chão com carvão. "Eu sei que você está tentando fugir do seu sofrimento. Eu não te culpo pelas coisas que você faz, eu entendo o que você sente. Eu sei que existe uma certa incompatibilidade entre nossos estilos de vida... Mas você é único para mim. Por favor, ouça o que eu tenho a dizer".
(...)
Os dois andavam lado a lado pela floresta, silenciosos. Ela ainda não tivera coragem para falar. Emaré chutava as pedras com seus pés descalços, cabisbaixo. Ela observava os grãos de poeira reluzindo nos raios de sol que passavam por entre as folhas das árvores. "Sabe, Ju... Eu não me encaixo no seu mundo. Quando éramos crianças eu até conseguia ver tudo de um ponto de vista positivo. Mas eu não queria seguir cegamente tudo o que o seus colegas hipócritas mandavam, e então me cuspiram na lama como se eu fosse sujeira em suas gargantas. E você simplesmente aceitou tudo, como se ideias não te perturbassem... Eu jamais conseguiria voltar a viver com você. Eu não suportaria ver as pessoas a quem você dá valor te rejeitando por minha causa. Ver sua vida ir por água a baixo por minha culpa seria uma tortura maior do que viver sem você. Eu achei que isso já estivesse claro, é terrível para mim te ver de novo. Você não sabe como eu fico quando volto para casa e me vejo sozinho, sem você..."
Julia fechou os olhos e parou de andar. "Me desculpa..." Ela disse, suspirando fundo. Depois olhou para frente, com o olhar apertado, e continuou a caminhada, com passos lentos. "Eu estou tão confusa... Eu quero estar ao seu lado. A minha vida tem feito cada vez menos sentido sem você. Para que viver? Às vezes eu penso..." Ela não conseguiu terminar, sua mandíbula tremia, mas ela não conseguia soltar nenhuma palavra. Emaré, que ficara a caminhada inteira olhando para frente, se virou, ao mesmo tempo curioso e preocupado com ela. "Às vezes eu penso em por um fim. Sabe? Acabar com tudo. Você é a única coisa que me solta das correntes que me prendem o tempo inteiro. As pessoas sempre exigindo de mim coisas que nem eu quero para mim mesma. Você é livre. Meu contato com você é a única coisa que me faz ver que a vida é muito mais do que as coisas que me cercam. Eu queria vir morar com você..." Emaré parou de andar. Ficou olhando para Julia com expectativa. "Por que não vem, então? Minha casa não tem espaço, mas nós podemos dar um jeito". Ela respirou fundo. "Não é bem assim... Como eu disse, existem essas correntes que me prendem. Minha família, minha casa, minha reputação, minha fé... É tão difícil escolher. Se eu considerasse só meus sentimentos, eu viria de prontidão. Mas existem tantas coisas em jogo... Acho que terminar a minha vida seria a melhor escolha para acabar com todo o meu sofrimento e com meus impasses."
Emaré acariciou o seu rosto. Julia olhou no fundo de seus olhos, suas olheiras intensificando sua expressão esperançosa. "Não pense assim. A gente pode tentar de novo, nunca é tarde demais".
"Ré, eu sei que você está aí!" ela gritava enquanto
dava murros na porta, "Me deixa entrar!". Ele só se virou
na cama e tentou cobrir a cabeça com o cobertor. Ela, sem obter
resposta, começou a chutar a porta. Emaré, ao ouvir o som de
madeira estralando e com medo da porta ceder, se levantou. "Se
você não abrir para mim, eu vou derru..." Ela dizia, antes
dele silenciosamente aparecer na sua frente, com a porta já aberta.
Suas olheiras profundas e seu cabelo desarrumado só intensificavam
sua expressão de desgosto."Boa tarde", ele disse friamente. "Boa tarde", ela respondeu sem jeito, seu rosto corando. Eles ficaram se encarando na passagem da porta da casa por algum tempo. "O que você veio fazer aqui?" Ele quebrou o silêncio. "É que eu quero conversar..." Ela disse, timidamente. Ele ergueu uma sobrancelha, descontento com a resposta. "Não é tarde demais para a gente tentar de novo" Ela terminou. Ele deu as costas e fechava a porta enquanto dizia "Eu pensei que você já estava cansada de tornar a minha vida um tormento". "Espera!" Ela se exaltou, pondo-se em frente à porta, impedindo-o de fechá-la. Ele a encarou novamente, ainda descontente. Ela olhou para dentro da casa. Viu os vários livros, velas parcialmente derretidas e decorações macabras espalhados na mesa e nas estantes do humilde casebre. O pentagrama desenhado no chão com carvão. "Eu sei que você está tentando fugir do seu sofrimento. Eu não te culpo pelas coisas que você faz, eu entendo o que você sente. Eu sei que existe uma certa incompatibilidade entre nossos estilos de vida... Mas você é único para mim. Por favor, ouça o que eu tenho a dizer".
(...)
Os dois andavam lado a lado pela floresta, silenciosos. Ela ainda não tivera coragem para falar. Emaré chutava as pedras com seus pés descalços, cabisbaixo. Ela observava os grãos de poeira reluzindo nos raios de sol que passavam por entre as folhas das árvores. "Sabe, Ju... Eu não me encaixo no seu mundo. Quando éramos crianças eu até conseguia ver tudo de um ponto de vista positivo. Mas eu não queria seguir cegamente tudo o que o seus colegas hipócritas mandavam, e então me cuspiram na lama como se eu fosse sujeira em suas gargantas. E você simplesmente aceitou tudo, como se ideias não te perturbassem... Eu jamais conseguiria voltar a viver com você. Eu não suportaria ver as pessoas a quem você dá valor te rejeitando por minha causa. Ver sua vida ir por água a baixo por minha culpa seria uma tortura maior do que viver sem você. Eu achei que isso já estivesse claro, é terrível para mim te ver de novo. Você não sabe como eu fico quando volto para casa e me vejo sozinho, sem você..."
Julia fechou os olhos e parou de andar. "Me desculpa..." Ela disse, suspirando fundo. Depois olhou para frente, com o olhar apertado, e continuou a caminhada, com passos lentos. "Eu estou tão confusa... Eu quero estar ao seu lado. A minha vida tem feito cada vez menos sentido sem você. Para que viver? Às vezes eu penso..." Ela não conseguiu terminar, sua mandíbula tremia, mas ela não conseguia soltar nenhuma palavra. Emaré, que ficara a caminhada inteira olhando para frente, se virou, ao mesmo tempo curioso e preocupado com ela. "Às vezes eu penso em por um fim. Sabe? Acabar com tudo. Você é a única coisa que me solta das correntes que me prendem o tempo inteiro. As pessoas sempre exigindo de mim coisas que nem eu quero para mim mesma. Você é livre. Meu contato com você é a única coisa que me faz ver que a vida é muito mais do que as coisas que me cercam. Eu queria vir morar com você..." Emaré parou de andar. Ficou olhando para Julia com expectativa. "Por que não vem, então? Minha casa não tem espaço, mas nós podemos dar um jeito". Ela respirou fundo. "Não é bem assim... Como eu disse, existem essas correntes que me prendem. Minha família, minha casa, minha reputação, minha fé... É tão difícil escolher. Se eu considerasse só meus sentimentos, eu viria de prontidão. Mas existem tantas coisas em jogo... Acho que terminar a minha vida seria a melhor escolha para acabar com todo o meu sofrimento e com meus impasses."
Emaré acariciou o seu rosto. Julia olhou no fundo de seus olhos, suas olheiras intensificando sua expressão esperançosa. "Não pense assim. A gente pode tentar de novo, nunca é tarde demais".
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Ela e Ele
Ela e Ele
E ela tinha um segredo. Um segredo que não queria que
ninguém soubesse.
E ela não contava para ninguém porque tinha vergonha.
Mas ele! O problema dela era a virtude dele!
Ele acolhia e abonava aquilo que ela recusava e se
deslustrava.
E ela o censurava pela forma como ele lidava com aquilo.
E eles brigavam um com o outro pelo conflito de ideias.
E ela o amava. E ele a abominava.
Como pode? Amar algo que se odeia?
Como ele podia amar um defeito que o difamava?
Como ela podia amar alguém que era o que ela odiava?
Mas ela não sabia o que disse Okatsura Lau:
Que gostamos das pessoas pelas suas qualidades.
Mas que as amamos por seus defeitos.
E ela estava indigesta por suas emoções.
Indigesta porque não as entendia.
E indigesta porque cada vez que ela o via, ou pensava
nele, ou sentia algum odor que a recordava do dele, sentia seu coração dentro
de seu estômago.
E ela estava acomodada a ignorá-lo.
Até o dia que ele foi irônico com ela.
Que ele soube o segredo dela, mas foi indireto ao
demonstrar que descobriu.
E afinal, ela não teve nem certeza da ciência dele.
E ela ficou perdida.
Os planos dela se perderam e ela não conseguiu mais
ignorá-lo.
E tudo o que ela teria feito, foi embaralhado.
Embaralhado pela ansiedade de saber que ele soube, mas
não saber o que ele faria.
E se ele soube, por que não falou nada para ninguém?
Por que ele manteve o segredo dela, se o mesmo defeito,
dele, não é segredo?
Será que ele realmente soube?
E o mundo dela girou.
E girou.
E girou.
E o que uma vez foi grande para ela, deixou de ser.
Deixou de ser depois que ele descobriu o segredo dela.
Porque ela não conseguia mais se concentrar em pensar em
seus sonhos.
Porque sempre pensava nele.
E se questionava a respeito dele.
E sofria por causa dele.
E o tempo passou.
E eles se tornaram adultos.
E cada um seguiu seu rumo.
Mas ela sempre o admirou.
E depois de muito tempo, já velhos, se reencontraram.
E ela perguntou se ele sempre soube de seu segredo.
E ele respondeu que sim.
E ela perguntou se ele também gostava dela.
E ele respondeu que sim.
E ela perguntou por que ele nunca revelou a ninguém.
E por que ele nunca se confessou a ela.
E ele respondeu que não quis espalhar o segredo dela.
E que ele não quis que ela se desgostasse de si mesma por
estar com ele.
E que ele achava deplorável alguém ter vergonha de viver.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Vida Vinda da Tinta
Eis que Frans nasceu sem chorar. Ele foi um bebê que não
sorria, nem chorava. Ele olhava o mundo a cada dia como se tivesse acabado de
nascer. Ele era praticamente mudo, raramente chorava ou gargalhava. Ele demorou
um ano para dizer a primeira palavra e quase dezoito meses para aprender a
andar. Ele tinha medo do que era novo. Gostava de aprender, mas não se sentia
bem fazendo aquilo que nunca tinha feito antes.
Ele nunca aprendeu a andar de bicicleta. Ele andava por aí a
pé, sem ciência de onde ia, sem saber aonde seus pés o levavam. Ele observava o
mundo como um telespectador de televisão, não ousava participar dele. Ele
assistia às pessoas brincando no parque, nadando na piscina, rindo, se
socializando, mas não tinha coragem de ter uma atitude e contemplar com a pele
aquilo que contemplava com os olhos. Ele sempre estava vagando, sem rumo, só
observando, sem participar de nada.
Ele não apreciava música. A melhor música, para ele, era o
som dos carros, as vozes das pessoas, as buzinas, os sinos da igreja, os
pássaros cantando, o martelar de uma construção, e principalmente o vento, que
vaga pelo céu, que já passou por todas as partes do mundo, já levou muita
poeira de um lugar para o outro, mas que ninguém dá a mínima importância.
Frans gostava de pinturas. Ele via a vida como vinda da
tinta, e não do pó. Ele via dentro dos quadros toda a loucura e o sofrimento
vivido pelos indivíduos que dizem às telas “que haja luz”. Ele via Os Corvos de
Van Gogh batendo asas sobre os campos, todos vindo em sua direção, para
buscá-lo. Ele via todo o movimento dos corpos ilustrados por da Vinci, como se
todas as pessoas retratadas por ele escondessem de quem as observasse, algum
segredo. Ele sentia toda a conformidade de Adão por não estar em contato com
Deus, em todo o niilismo expresso por Michelangelo.
Ele começou seu apreço por literatura assistindo a filmes.
Mas no fundo, ele não gostava: não os achava profundos o suficiente. Então lhe
voltou à mente que a vida era vinda da tinta. Nisso começou seu deleite pela
literatura impressa. Deliciava-se com os livros, como se eles lhe trouxessem a
vida que ele não tinha. Cada letra, cada palavra, cada ponto no texto, era um
suspiro, um olhar, um passo dentro do mundo próprio que ele criava em sua
mente. E isso lhe era suficiente, uma troca de situações. No mundo real ele se
preenchia com as histórias dos livros, e em suas emoções ele vagava por aqui e
por ali sem sentido.
Ele nunca chegou a ter um amor. Ele não falava com as
pessoas que lhe chamavam atenção. Ele tinha medo de que, ao ficar frente a
frente com alguém que ele gostasse, as palavras enroscassem em sua garganta e
nada saísse de sua boca. Ou então, se ele conseguisse falar com a pessoa e essa
pessoa gostasse dele, ele temia por parar de gostar dela. Tudo que ele não
tinha certeza em sua vida, ele descartava. E, como na vida nada é certo, ele
não fazia nada, além de ficar vagando pela terra, observando as pessoas, seu
comportamento e as coisas que elas inventam.
Eis que, em um gélido inverno, Frans pegou uma gripe, que
evoluiu para uma pneumonia, e ele acabou sendo internado em um hospital. Na
vida, nada é certo além da morte. Como ele não tinha família, foi enterrado
como indigente.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Pesadelo
Tive um sonho muito estranho há aproximadamente um mês. Escrevi-o e agora estou postando:
Acordo. Sinto meus braços e minhas pernas pesadas. Estou
acorrentado sobre uma cama. O coxão está aos pedaços. Suas molas estão saindo e
perfurando minha pele. Vejo meu sangue escorrendo. Um cobertor destruído está
caído no chão. E a madeira da cama está aos pedaços. As correntes pesam
tanto... Estão presas às paredes por cadeados. Preciso da ajuda de alguém. Mas
estou sozinho.
Ouço gritos. Gritos de dor. Gritos de tristeza. Murmúrios.
Choros. Eles estão chegando cada vez mais perto. Entrando no quarto. E eu ainda
me sinto sozinho. No fundo, os gritos, murmúrios e choros são meus. É o meu
próprio sofrimento. Os cadeados se abrem. As correntes se desprendem das paredes. Consigo me levantar, mas
ainda tenho que arrastar as correntes. Elas ainda estão presas em mim e não
consigo me livrar delas. E os gritos e choros ainda me perseguem.
Dou passos pesados pela casa. As correntes não são leves, e
tenho que arrastá-las. Chego até um aposento e me deparo com um boneco. Ele tem
o tamanho de um homem. Possui olhos grandes e redondos, mas de tamanhos
diferentes um do outro, ambos com cílios bem compridos. O olho maior tem uma
cicatriz e é branco. O boneco é cego. Parece que ele sorri. Mas sua boca está
costurada. Talvez para ele não falar e não retorcer os lábios, para não parecer
triste. Ele imita os meus movimentos. Ele é uma marionete, preso ao teto por
correntes, e o seu controlador faz com que ele faça tudo o que eu faço. Chego
perto dele. Tento tocar nele, mas percebo que há uma parede entre nós. Uma
parede não, um vidro. Não, não é um vidro. É um espelho.
Me assusto. Viro meu rosto. Não quero olhar para ele. Quando
levanto minha cabeça, para ver se ele é real mesmo, não enxergo mais nada. Só
uma fumaça negra. Estou perdido. Sozinho. Só consigo
enxergar poucos palmos à frente. Ando, ando e ando, e não chego a lugar nenhum.
Nenhum objeto, nenhuma parede. Só um chão seco, rochoso. Minhas pernas se
cansam. Acabo caindo com as mãos no chão. Não quero ficar lá, quero procurar
alguma coisa. Não quero esse nada. Mas minhas pernas não aguentam andar.
A fumaça negra vai se condensando. Se solidificando. Por
fim, elas acabam formando paredes negras. Estou em uma encruzilhada. Posso
escolher qualquer um dos seis caminhos. Sigo em frente. Mas estou num
labirinto. Várias bifurcações, muitas escolhas. Não sei o que fazer. Estou
desesperado. Eu só corro por entre as paredes negras do labirinto, procurando
uma saída. Mas nada. Estou eternamente perdido.
Consigo chegar a uma saída. Vejo o céu roxo, repleto de
nuvens, e um caminho de chão rochoso. Quando chego mais perto, vejo um
precipício. E tudo está envolto nas nuvens roxas. Se olho para cima, para
frente, para baixo. Não importa. Só vejo as nuvens roxas e o fino caminho
rochoso. Tenho medo de cair. Lá em baixo não há nada. Se eu cair, o que vai
acontecer comigo? Estou sozinho. Estou com frio. Andando num caminho estreito.
Precipício dos dois lados. Alto risco de queda.
Chego a uma construção. É um caminho. Como se fosse um
túnel. Dentro dele tudo é branco, luminoso. Não é um buraco dentro da terra,
mas sim um buraco no meio do ar. Subindo. Seus degraus são dourados e de dentro
desse túnel eu ouço o som de vozes. Pessoas conversando, dando gargalhadas. Me
sinto confortável. Começo a correr na direção desse túnel. Eu quero estar lá.
Mas quanto mais ando, mais longe o túnel vai ficando. Quando mais eu corro,
quanto eu mais me esforço, mais longe fico da saída desse mundo agonizante.
Ouço o som de algo voando. Vejo uma flecha, vindo de dentro
do túnel de luz, em minha direção. Ela me acerta no rosto. Nos olhos. Não
consigo mais enxergar nada. Só sinto o sangue jorrando de minha face. Acabo
tropeçando e caindo no chão. Não consigo mais andar. Não consigo mais ver. Não
consigo mais fazer nada, estou imobilizado. E só ouço as gargalhadas, que vinham
de dentro do túnel de luz, se afastando. E afastando. E afastando, cada vez
mais.
Tento tatear um caminho. Não quero ficar para trás. Não
quero ser ignorado. Eu quero entrar no túnel de luz... Por que me rejeitaram?
Por que me machucaram? Tateio o chão com as mãos. Não quero cair no precipício
infinito. Cheguei à borda. Sinto a beirada da rocha. Ela está se desfazendo.
Tento recuar, mas tudo está desmoronando. Não consigo me manter firme. Acabo
caindo. Caindo.
Não vejo nada. Não ouço nada. Não sinto nada. Não sou nada.
Tudo acabou. O silêncio, a escuridão e o frio me deixam louco. A única coisa
que eu sei é que estou caindo, em um buraco sem fundo. Cada vez mais rápido,
com meus ombros pesados. Sinto o peso de meus pecados me puxando para baixo.
Desisto. Desisto de viver. Desisto de ser feliz. Desisto. Deus.
Temas deste texto:
Contos,
Helena,
Inocência,
Insanidade,
Solidão
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Amoras Secas
Planos de quando eu era jovem. Queria estudar, fazer direito em uma faculdade boa e me tornar um bom advogado. Queria casar com uma mulher loira, dos olhos azuis, que seria uma ótima parceira sexual, e nós teríamos dois lindos filhos, que também se formariam e me dariam lindos netos.
Eu sempre quis isso da minha vida. E sempre me esforcei ao máximo para alcançar os meus sonhos. Quando ainda estava no colégio, dando duro para conseguir passar em um bom vestibular, encontrei ela. Meu time de futebol acabara de vencer um jogo, e eu estava comendo amoras das amoreiras que tinham em volta do campo. Estava com a mão direita entre as folhas da árvore, procurando pegar somente as frutas mais pretas, quando senti dedos macios sobre os meus.
Espantado, olhei para o lado, e me deparei com a moça mais bonita que eu já tinha visto na minha vida. Ela era como em meus sonhos, cabelo loiro, pele branca, lisa, olhos azuis. Suas unhas eram grandes e pintadas com esmalte vermelho. Ela usava um vestido branco que deixava os joelhos amostra. Nunca a tinha visto antes, provavelmente era nova no colégio. Percebi que sua respiração foi acelerando enquanto olhávamo-nos nos olhos. Seus dedos macios e quentes ainda estavam sobre os meus.
Mais do que depressa, comecei a conversar com ela, perguntando em que ano estava, onde morava, o que gostava de fazer, e o seu nome. Ela se chamava Anna. Um nome simples, belo e humilde. Passamos horas conversando, até o sol começar a se pôr e ela precisar ir embora. Só então reparei que em minha mão havia amoras secas. As que nós pegamos juntos na árvore. Poderiam ser verdes, rosas, vermelhas, pretas. Mas eram duas amoras secas, marrons, perfeitas para serem guardadas como o dia do nosso encontro.
Um ano depois, eu estava na faculdade. Não consegui entrar nas que eu pretendia. Não era nenhuma federal, nem disputada. Mas meus pais estavam pagando uma faculdade de direito para mim. Meu relacionamento com Anna pode não ter sido perfeito durante todo o nosso namoro, mas superamos nossas brigas. No meu último ano de faculdade, ela engravidou. Talvez o choque tenha me atrapalhado um pouco nos estudos, mas consegui me formar. E poucos dias depois da festa de formatura, foi a nossa festa de casamento.
Foi um momento feliz. Eu a amava mais do que tudo no mundo. E ela também me amava. Nosso primeiro filho se chamou Felipe. Os primeiros anos de nosso casamento foram difíceis. Brigas frequentes, um filho para criar, alimentar, eu não conseguia me firmar em nenhum escritório, meus salários eram baixos, isso quando ele existia, sem falar dos ciúmes de recém-casados.
Depois de um tempo, consegui um emprego fixo. Não era um escritório de primeira classe, mas o meu salário era alto o suficiente para não deixar nossos filhos passarem necessidades. Filhos, por que dois anos depois de ter o Felipe, tivemos gêmeos, Guilherme e Gustavo.
Um dia, voltei para casa mais cedo. Tive um árduo dia de trabalho, o meu carro quebrou e tive que pegar um ônibus. Sorte que meu chefe tinha me liberado mais cedo, por que era o aniversário de onze anos do casamento meu e de Anna. Nossos filhos tinham ido a um acampamento do colégio. Eu esperava que tivéssemos um bom jantar juntos, não precisava nem de velas. Só me importava passar um tempo com ela. Mas ela não estava nem na cozinha quando cheguei. Estava no quarto, transando com outro homem. O cara saiu correndo e se vestindo pela mesma porta que eu saí, cinco minutos depois dele. Fiquei uma semana fora de casa, preparando os papéis para o divórcio. Mas no final, perdoei-a e voltei a morar com ela.
Tivemos outra crise em nosso casamento quando eu quis fazer um teste de DNA em nossos filhos. Ela alegava que eu não confiava nela. E estava certa. Voltamos a morar juntos, mas nosso relacionamento nunca mais foi o mesmo. E eu tinha razão em fazer o teste. Felipe, o nosso filho mais velho, e motivo do nosso casamento, não era meu de verdade. Mas, ao menos, eu ainda tinha certeza dos gêmeos, e alguns meses depois o nosso casamento voltou quase ao normal.
Guilherme e Gustavo eram as únicas coisas que me faziam suportar o desgosto que eu tinha com o meu casamento. Até que eles também se tornaram um desgosto. Quando eles tinham dezessete anos, encontrei Guilherme beijando outro garoto dentro de casa. Meu alívio foi que pelo menos o Gustavo era heterossexual e daria continuidade à minha descendência. Isso se, as minhas brigas freqüentes com Anna e o comportamento de Guilherme não o tivessem dado depressão e o feito cometer suicídio aos dezenove anos, antes de ter um filho.
Hoje, sou divorciado. Não sei do paradeiro de Anna nem de Felipe. O enterro de Gustavo já foi há sete anos e Guilherme está morando com um rapaz. Não tenho nada de valor a não ser uma casa caindo aos pedaços e um carro velho. E um par de amoras secas, que guardei como lembrança de um momento feliz. Amoras secas. Eu e Anna já tínhamos sido jovens, cheios de sonhos e paixões. Mas agora estamos velhos e amargos. Como amoras secas.
Eu sempre quis isso da minha vida. E sempre me esforcei ao máximo para alcançar os meus sonhos. Quando ainda estava no colégio, dando duro para conseguir passar em um bom vestibular, encontrei ela. Meu time de futebol acabara de vencer um jogo, e eu estava comendo amoras das amoreiras que tinham em volta do campo. Estava com a mão direita entre as folhas da árvore, procurando pegar somente as frutas mais pretas, quando senti dedos macios sobre os meus.
Espantado, olhei para o lado, e me deparei com a moça mais bonita que eu já tinha visto na minha vida. Ela era como em meus sonhos, cabelo loiro, pele branca, lisa, olhos azuis. Suas unhas eram grandes e pintadas com esmalte vermelho. Ela usava um vestido branco que deixava os joelhos amostra. Nunca a tinha visto antes, provavelmente era nova no colégio. Percebi que sua respiração foi acelerando enquanto olhávamo-nos nos olhos. Seus dedos macios e quentes ainda estavam sobre os meus.
Mais do que depressa, comecei a conversar com ela, perguntando em que ano estava, onde morava, o que gostava de fazer, e o seu nome. Ela se chamava Anna. Um nome simples, belo e humilde. Passamos horas conversando, até o sol começar a se pôr e ela precisar ir embora. Só então reparei que em minha mão havia amoras secas. As que nós pegamos juntos na árvore. Poderiam ser verdes, rosas, vermelhas, pretas. Mas eram duas amoras secas, marrons, perfeitas para serem guardadas como o dia do nosso encontro.
Um ano depois, eu estava na faculdade. Não consegui entrar nas que eu pretendia. Não era nenhuma federal, nem disputada. Mas meus pais estavam pagando uma faculdade de direito para mim. Meu relacionamento com Anna pode não ter sido perfeito durante todo o nosso namoro, mas superamos nossas brigas. No meu último ano de faculdade, ela engravidou. Talvez o choque tenha me atrapalhado um pouco nos estudos, mas consegui me formar. E poucos dias depois da festa de formatura, foi a nossa festa de casamento.
Foi um momento feliz. Eu a amava mais do que tudo no mundo. E ela também me amava. Nosso primeiro filho se chamou Felipe. Os primeiros anos de nosso casamento foram difíceis. Brigas frequentes, um filho para criar, alimentar, eu não conseguia me firmar em nenhum escritório, meus salários eram baixos, isso quando ele existia, sem falar dos ciúmes de recém-casados.
Depois de um tempo, consegui um emprego fixo. Não era um escritório de primeira classe, mas o meu salário era alto o suficiente para não deixar nossos filhos passarem necessidades. Filhos, por que dois anos depois de ter o Felipe, tivemos gêmeos, Guilherme e Gustavo.
Um dia, voltei para casa mais cedo. Tive um árduo dia de trabalho, o meu carro quebrou e tive que pegar um ônibus. Sorte que meu chefe tinha me liberado mais cedo, por que era o aniversário de onze anos do casamento meu e de Anna. Nossos filhos tinham ido a um acampamento do colégio. Eu esperava que tivéssemos um bom jantar juntos, não precisava nem de velas. Só me importava passar um tempo com ela. Mas ela não estava nem na cozinha quando cheguei. Estava no quarto, transando com outro homem. O cara saiu correndo e se vestindo pela mesma porta que eu saí, cinco minutos depois dele. Fiquei uma semana fora de casa, preparando os papéis para o divórcio. Mas no final, perdoei-a e voltei a morar com ela.
Tivemos outra crise em nosso casamento quando eu quis fazer um teste de DNA em nossos filhos. Ela alegava que eu não confiava nela. E estava certa. Voltamos a morar juntos, mas nosso relacionamento nunca mais foi o mesmo. E eu tinha razão em fazer o teste. Felipe, o nosso filho mais velho, e motivo do nosso casamento, não era meu de verdade. Mas, ao menos, eu ainda tinha certeza dos gêmeos, e alguns meses depois o nosso casamento voltou quase ao normal.
Guilherme e Gustavo eram as únicas coisas que me faziam suportar o desgosto que eu tinha com o meu casamento. Até que eles também se tornaram um desgosto. Quando eles tinham dezessete anos, encontrei Guilherme beijando outro garoto dentro de casa. Meu alívio foi que pelo menos o Gustavo era heterossexual e daria continuidade à minha descendência. Isso se, as minhas brigas freqüentes com Anna e o comportamento de Guilherme não o tivessem dado depressão e o feito cometer suicídio aos dezenove anos, antes de ter um filho.
Hoje, sou divorciado. Não sei do paradeiro de Anna nem de Felipe. O enterro de Gustavo já foi há sete anos e Guilherme está morando com um rapaz. Não tenho nada de valor a não ser uma casa caindo aos pedaços e um carro velho. E um par de amoras secas, que guardei como lembrança de um momento feliz. Amoras secas. Eu e Anna já tínhamos sido jovens, cheios de sonhos e paixões. Mas agora estamos velhos e amargos. Como amoras secas.
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