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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Como o Mundo É Perfeito ao Seu Lado


Segure a minha mão
Vamos caminhar juntos
Pois não há beleza na solidão

Aspire esse doce aroma
Das flores que nos rodeiam
Sinta a água em nossos pés
E veja a beleza do azul infinito
Sinta o vento balançar seu vestido branco
Assim como dançam as folhas dos coqueiros

E quando anoite, a mesma calma
Sob a luz fraca, deitado no seu ombro
As feras fazem barulho lá fora
Mas para nós, isso é doce melodia
Pois ao seu lado me sinto infinito
Como se tudo fosse para sempre

Vamos juntos viver tudo o que o mundo nos oferece
Pois uma única vida é muito pouco para ser desperdiçado

Eu só preciso de um começo, um novo começo ao seu lado
Para poder te abraçar e nunca mais te soltar
Nunca mais te ver fluir por entre os meus dedos

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Três Momentos


Nós saíamos do bar, andávamos na rua, lado a lado. Passando por de baixo das luzes dos postes. Ouvíamos as músicas animadas tocando, as pessoas conversando e rindo, um carro passando, um copo quebrando. Ele estava do meu lado, mas não estávamos de mãos dadas. Eu não gosto de andar de mãos dadas. O primeiro motivo é porque parece que você está exibindo a outra pessoa como se ela fosse um troféu. Como se você dissesse “Olha, eu namoro e você não”. O outro motivo é porque parece uma forma de controle. “Ande do meu lado, fique só comigo”. Eu não acho legal manter alguém que você gosta numa gaiola. As pessoas são mais belas quando elas estão livres.

Eu não me lembro do motivo pelo qual nós saíamos do bar. Era cedo para voltarmos para casa, o metrô ainda não tinha voltado a funcionar. Eu só sei que eu me sentia bem por ele estar comigo. Não conversávamos tampouco nos encostávamos, não fazíamos nada além de andar juntos. Tê-lo comigo era o suficiente para dar um sentido à minha noite.

Sentamos na calçada de uma rua escura, sem saída. Ficamos de ombros encostados. Eu olhava para o Converse marrom dele. Acendi um cigarro. Fiz um gesto oferecendo, mas ele gesticulou com a mão negando. Ele sempre recusa. Fiquei olhando para o rosto dele através da fumaça, ele sorria. É incrível como eu me sentia bem perto dele, mesmo sem conhecê-lo direito. Nós nunca conversamos muito, mas tínhamos intimidade por ficarmos juntos. Ele sempre do meu lado.


--



 – Você está feliz?
 – Feliz é uma palavra muito forte, eu disse.

Peguei a minha xícara de chá com as duas mãos, deu um gole que aqueceu minha garganta. Depois a pus de volta sobre a pequena mesa de madeira que havia entre nós.

Todos nossos colegas estavam em uma festa, comemorando suas conquistas. Conquistas que nós dois também obtivemos, mas preferimos comemorar a sós. Ou não comemorar. Aglomerações me dão nojo.

Ele ficou olhando para mim, desanimado, com suas olheiras que nunca o deixavam. Suas roupas eram largadas, sem cor, sem vida, assim como as minhas. Todo o nosso redor era sem vida: Um quarto com paredes imundas, que costumavam ser brancas. Sofás antigos de couro marrom, rasgados e remendados. Móveis de madeira, quebrados. Tudo isso em meio a uma bagunça de papéis, garrafas, panelas, louças. Um calendário de 1998 na parede. Era uma casa abandonada. Mas nós não usamos a chaleira e as xícaras que encontramos lá, seria anti-higiênico. Trouxemos tudo de nossas casas.

A casa não tinha mais eletricidade; o aposento era iluminado por uma única janela, cuja cortina estava caída. Também não tinha abastecimento de água. A única coisa que os antigos donos deixaram para que pudéssemos usar foi o fogão com um botijão de gás inesgotado.

Fitei a densa neblina lá fora, atrás da janela. A (semi)solidão me fazia bem. Deixava-me tranquilo, satisfeito, infinito.


--


Uma libélula entrou no banheiro. Ficou voando em frente ao espelho e depois pousou na pia. Mesmo estando parada, continuou movimentando suas quatro asas de forma lenta e delicada.

Olhei para o corpo dele atrás do vidro. A água caía do chuveiro sobre seus ombros e escorria por suas pernas. Ele pegou o sabonete e começou a se esfregar de forma trivial, com oscilações lentas e equilibradas. Um movimento suave de sua cabeça fez seu olhar singelo encontrar o meu.

O vapor subia do chão e turvava o vidro do box. Fiquei admirando-o por não mais que um segundo, mas minha impressão era de que passara a eternidade lá. É incrível a forma como o nada se parece com o infinito.

Eu não me excitava. Eu sequer o amava. Os momentos que estive com ele foram bons, mas tem uma hora que todas as coisas boas chegam ao fim. Minto. Não gosto da palavra “acabar”, mas nada é eterno: Tudo muda e nunca volta a ser o que era antes.

Então vi a libélula entrando no meio dos jatos d’água, caindo no chão e sendo sugada pelo ralo.


sábado, 10 de março de 2012

Oi



Eu sei que um dia tudo isso vai acabar. Não sei quando, mas vai. Pode ser a morte, pode ser uma divergência em nossos caminhos, pode ser um desentendimento. Mas o que importa é o que eu estou passando agora com você. É essa paz que eu sinto quando nós somos um. A vida pode ser dura, sem sentido, repleta de adversidades... Mas isso é o que faz valer a pena. Estar com você. Poder te abraçar, te sentir... Sentir a sua respiração no meu rosto. Sentir com as minhas mãos o seu coração batendo. É bom saber que você está vivo, e do meu lado. Talvez não seja um sentimento profundo, mas nós estamos conectados. Conseguimos conversar bem, e nos sentimos bem quando fazemos isso. Você sabe quão são valiosas as tardes que nós passamos juntos, somente conversando, falando sobre as nossas vidas, os nossos vícios e as nossas virtudes. É algo que me faz sentir vivo, e é algo que me vai fazer falta quando acabar.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Várias Pessoas, uma Única Existência

João era perfeitamente medíocre. Havia momentos em que tinha vergonha de si mesmo. Queria esconder quem ele realmente era. O seu passado vergonhoso, aquela mania estúpida, aquele medo irracional, aquela frustrante incapacidade de fazer aquela tarefa com a qual todos tinham facilidade. Tinha vergonha de seu pai, que não chegara a conhecer. Tinha vergonha de sua mãe, que de tão simples, mal sabia escrever. Tinha vergonha de si mesmo, por todas as coisas que seus pais deveriam ter-lhe ensinado quando era criança e que lhe faziam falta como adulto.

Antônio tinha o pé torto. Era gago. Vesgo. Não sabia tocar violão. Não falava inglês. Suas acnes lhe incomodavam. Queria ser mais baixo, pois acreditava que sua imensa estatura era responsável tanto pela sua aparência desengonçada quanto pelo fato dele ser desastrado.

Francisco tinha medo de fazer novas amizades. De que o achassem estranho. Tinha medo de falar besteira e passar vergonha. De falar alto demais e incomodar as pessoas. De acabar gargalhando e todos perceberem quão esquisita era a sua risada. Tinha vergonha de seu mau hálito. Simplesmente não conseguia conversar, pois as palavras certas não lhe vinham à boca, e suas tentativas de diálogo se resumiam a momentos de intenso e inoportuno silêncio.

Luiz não tinha namoradas. Não conseguia se aproximar de garotas. Não sabia o que falar. Muitas o achavam feio. Outras não gostavam de sua voz. Ele não sabia beijar direito. A garota com quem ele perdeu a virgindade contou para as amigas que ele era sem-graça, ruim de cama.

Quando fez dezenove anos, Paulo tentou arrumar um emprego. Era vendedor de uma loja de móveis. Quanto mais ele vendesse, mais dinheiro conseguiria. Mas no final, ele nunca conseguiu muito com isso. Seus colegas de serviço eram bem melhores do que ele. A agonia que tinham por vender mais do que os outros acabou fazendo com que Marcos ficasse para trás e fosse rebaixado para a área de assistência técnica da loja.

A aposentadoria da mãe de Manoel mal dava para comprar os remédios que ela precisava. Ela acabou ficando muito doente. Ele a levou à cidade grande e procurou um médico. Ela precisou ser internada. Mas a fila de espera para receber a cirurgia era tão grande que ela faleceu antes de ser tratada. Ele estava sozinho. Sem ninguém para ampara-lo, sofrendo as constantes punições e humilhações da vida. Até que encontrou Ana.

Márcia era mediocramente perfeita. Havia momentos em que tinha orgulho de si mesma. Queria que o mundo a visse da forma que ela queria. O seu futuro brilhante, as suas nobres virtudes, as suas iniciativas proativas, aquela invejável disposição de fazer as tarefas das quais todos tinham preguiça. Tinha orgulho de seu pai, que mesmo sendo divorciado e morando longe, ajudava financeiramente a filha. Tinha orgulho de sua mãe, que mesmo sendo simples, sempre fez de tudo para ver Joana bem. Tinha orgulho de si mesma, por todas as coisas que seus pais deixaram de lhe ensinar ela conseguiu aprender com a vida.

Francisca era encantadora. Tinha a voz bonita. Olhos verdes. Cantava bem. Conseguia se expressar bem. Seu olhar era profundo. Gostava de ser alta, pois chamava a atenção dos rapazes para o seu belo corpo.

Adriana tinha amigos. Eram estranhos, mas eram amigos. Falavam besteiras juntos, passavam vergonha juntos. Falavam alto e atazanavam uns aos outros. Quando estavam reunidos, gargalhavam tanto que até perdiam a voz. Eles simplesmente se davam bem. Não precisavam de uma ocasião especial para se encontrar, nem de um assunto para conversarem. Falavam sobre trivialidades e se sentiam bem com isso.

Antônia não tinha namorados. Não queria saber de compromissos, preferia aproveitar a vida. Alguns rapazes a pediram em namoro, mas ela não queria nada sério. Ela não gostava de rotular seus relacionamentos com palavras como “amigo”, “ficante” ou “namorado”. Ela gostava mesmo era de ter companhia e de poder fazer o que quisesse quando quisesse e com quem quisesse.

Quando fez dezenove anos, Sandra tentou arrumar um emprego. Era vendedora de uma loja de eletrônicos. Quanto mais ela vendesse, mais dinheiro conseguiria. Mas no final, ela nunca conseguiu muito com isso. Seus colegas de serviço eram melhores do que ela. Mas por outro lado, ela lidava bem com as pessoas, e isso não passou despercebido aos olhos de seu chefe. Patrícia foi promovida para a área de assistência técnica da loja.

A aposentadoria da mãe de Vera mal dava para comprar os próprios remédios, e por isso ela ficou muito doente. Ela a levou à cidade grande e procurou um médico. A mãe precisou ser internada. Mas a fila de espera para receber a cirurgia era tão grande que ela faleceu antes de ser tratada.

Josefa orava a Deus por sua mãe, desejando que ela estivesse em um lugar melhor, descansando, livre de todos os sofrimentos terrenos. Mas afinal, a jovem estava sozinha. Sozinha... Até que encontrou Carlos.

Eles formavam um casal perfeito. Completavam um ao outro. Logo no início do relacionamento já tinham planos. Iriam se casar, formar uma família, ter filhos. Trabalhar, juntar dinheiro, dar festas e fazer viagens. Juntos, iriam observar as nuvens e as estrelas. Sentariam lado a lado na praia, escutando as ondas. Viajariam pelas estradas do país, com as janelas do carro escancaradas e a música no último volume. Iriam passear no parque de mãos dadas. Iriam tomar café juntos, logo que acordassem, antes mesmo de tirar os pijamas. Eles seriam felizes. Juntos.

Não. Eles não foram felizes. Marcelo teve medo de dar continuidade ao relacionamento. Imaginava que, uma hora, tudo iria dar errado. Já passava pela sua cabeça a ideia de que Larissa mantinha casos com os seus antigos amigos. Tudo pioraria depois que casassem. Ricardo estava decidido a terminar com esse relacionamento, e assim o fez.

Os dois sofreram muito depois de romper.

As últimas palavras de Maria, antes de morrer, foram “Eu deixo a vida me levar. A frustração é o único efeito de tentar controlar o próprio destino”. Ela foi atropelada por um ônibus. Quando Roberto descobriu, afundou-se em remorso. “Devia ter aproveitado enquanto ela estava viva”, pensou. Deixou de amar e ser amado por praticamente motivo nenhum. Sequer teve filhos.

José teve uma vida medíocre até que a velhice. Uma gripe o levou embora. As suas últimas palavras foram “Não tive nada na vida, mas aproveitei a vida que consegui ter”.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Se Eu Não Preciso Pagar para Ter o Mundo

Eu estava em uma praia do Rio Janeiro. A areia fina se espalhava entre meus dedos, enquanto eu andava por entre as rochas da praia. O Sol estava se pondo atrás das montanhas, mas isso não impediu que o céu sobre o mar também se tornasse colorido. Vi um vulto sobre uma pedra. Era a sombra de um homem. Ele estava parado, quase não o percebi. Ele usava um chapéu estranho. Ele provavelmente era, como nós chamamos, um “bicho grilo”, um hippie meio rastafári.

Aproximei-me dele vagarosamente. Ele não se mexia. Ficava somente olhando as nuvens, o céu, o mar. De vez em quando uma onda batia na rocha onde ele se encontrava, molhando suas pernas e jogando várias gotas de água contra seu rosto. Eu achava que ele não tinha me percebido, mas ele começou a falar comigo:

-Como é lindo, né, errmão? – Sua fala simples e seu sotaque forte mostraram que ele era uma pessoa humilde.
-Sim, é lindo... – Eu respondi.
-Esse céu cheio de nuvens coloridass, esse marr hipnotizadorr, tudo é tão perrfeito... Sinto como se tudo fosse meu.

Passaram-se alguns momentos de silêncio. Aquele lugar era simplesmente perfeito. Só admirar a paisagem, ouvir os sons das ondas e dos pássaros, e sentir a brisa batendo em nosso rosto, já era extremamente tranquilizante. Ele estava certo, aquele lugar era lindo.

-Errmão, esse lugarr ainda é assim. Pena que daqui a alguns anoss, vai deixarr de existirr.
-Como assim? O que vai acontecer? Uma inundação, uma ressaca?
-Não, errmão... A natureza não se auto desstrói. É o homem que desstrói ela. Daqui a alguns anoss, essa praia vai esstar cheia de farofeiross. Eless vão montarr um monte de barracass pra venderr coisass. E a areia vai ficarr cheia de sujeira, cocoss parrtidoss, bitucass de cigarro, latass de cerrveja...
-Você tem razão. A chamada civilização vai acabar destruindo tudo isso.
-E não esstou falando só de poluição, sujeira. Porr enquanto, nóss temoss que andarr alguns minutoss numa trilha fechada para chegarr até aqui. Mass apossto que daqui a alguns anoss, vão abrir uma rua e essa praia esstará cheia de carross. Vai vir uma multidão de pessoass pra cá nas fériass. E não vai maiss ter graça para nóss. Vão desstruirr o nosso lugarzinho.

Fizemos silêncio outra vez. Ele dizia a verdade. Sempre que alguém acha um lugar bonito, em questão de anos esse lugar se torna habitado e feio. A parte mais divertida de ir para lá era ter que passar pela trilha, armar a nossa barraca sob as estrelas. Mas provavelmente iriam construir uma rua, várias pousadas, colocar energia elétrica, e tudo iria perder a graça. As pessoas não sabem aproveitar o que o mundo tem a nos oferecer.

-Errmão, e você sabe porr que tudo isso acontece?
-Por quê?
-Porr causa do dinheiro. Ass pessoass se torrnam cômodass. Acham que podem tudo se tiverem grana. Ou então não se imporrtam de desstruirr um lugarr como esse para conseguirem dinheiro.

Mais uma vez, concordei com ele. As pessoas que destroem aquele lugar para construir bares, pousadas, estão sempre atrás de dinheiro. E as pessoas que se hospedam lá, que poluem as praias com todo seu lixo, são aquelas que estão cômodas a aniquilar: Acham que tudo é só delas por que estão pagando, e por isso têm o direito de fazerem o que quiserem. Mas elas estão só destruindo a beleza que a natureza deu para elas.

-Eu não entendo essass pessoass. Correm a vida inteira atráss de dinheiro. Se sacrificam, causam várioss problemass, tudo para conseguirr dinheiro. E aí elass vão lá e desstroem ass coisass maiss belass que elass têm. E afinal de contass, tudo foi inútil.
-Inútil?
-Sim. Veja só, eu esstou aqui, apreciando esse momento magnífico contigo, e nóss não esstamoss pagando nada. Para que eu vou correrr atráss de dinheiro, se eu não preciso pagarr para terr o mundo?

Para que eu vou correr atrás de dinheiro, se eu não preciso pagar para ter o mundo? Palavras muito profundas. Senti-me como um aprendiz daquele homem que eu não sabia sequer o nome.

-Errmão, quando eu era criança, meu sonho era ser asstronauta.
-É, nossos sonhos de criança. Meu sonho sempre foi me tornar um médico, ajudar as pessoas.
-Poiss é, errmão. Quando somoss criançass, ainda somoss puross. Mass quando envelhecemoss, ass pessoass tentam noss cegarr. Minha família começou a dizerr que asstronauta era um sonho muito grande. Eu precisaria de essforço demaiss, trabalho demaiss, e não conseguiria tanto dinheiro quanto em outrass profissõess, que era bem melhorr eu me ocuparr com coisass ao meu alcance e que me garantissem um futuro.
-Por que você acha que tentaram te cegar?
-Porr que, veja bem. Se eu fosse asstronauta, porr que me preocuparia com oss riscoss, com o pouco dinheiro, com o essforço excessivo, se eu teria para mim a terra inteira, a lua e ass esstrelass? Para mim vale muito maiss a pena do que terr um esscritório cheio de papéiss. E você? Como doutorr, suponho que você deve terr um pouco de dinheiro. Mass você acha que alguma coisa vale maiss a pena do que o sorriso daquela criança que você curou?
-Realmente, nada vale tanto a pena quanto ver o sorriso no rosto de alguém.
-Poiss é disso que eu falo. O mundo esstá cada vezz com maiss falta de pessoass humildess. Todo mundo esstá se torrnando egoíssta... Onde esstá o amorr entre ass pessoass?

Olhei de volta para o mar. Depois dessa filosofia, o mundo parecia até irreal. Tanta beleza, e tantas pessoas que não dão valor a ela. O homem com quem eu conversava se levantou da pedra. Veio até mim e me deu um abraço, depois falou:

-Errmão, foi um prazerr converrsarr contigo. Mass agora eu tenho que irr, esstá anoitecendo e eu ainda não arrmei minha barraca. Adeuss.

E assim se foi o meu mestre, aquele “bicho grilo” que eu não sabia nem o nome, mas cujas palavras tocaram minha alma. Eu tenho certeza nunca vou me esquecer daqueles momentos e daquela conversa.

Esse texto foi escrito inspirado em L.A.C., e no texto "Sonhos Perdidos" de uma colega.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Quem Controla a Sua Vida?

-Eu sou a pessoa mais influente do nosso grupo. Eu não gasto um décimo do dinheiro que eu uso para produzir meus perfumes. E as pessoas só de verem minha propaganda na TV gastam fortunas para comprar um líquido que muda o cheiro delas. Eu duvido que qualquer um de vocês consiga inventar algo mais inútil que isso, e ainda influenciar o mundo inteiro a usá-lo e se sacrificar para tê-lo.

-Você está errado. Nem todo mundo usa perfume. Eu sim que sou influente. Eu também não gasto um décimo do dinheiro que cobro pelos tênis que produzo. E todas as pessoas gastam uma fortuna para poder carregar o símbolo da minha companhia. Eu sou o único que consigo influenciar essas pessoas escrotas a fazer uma coisa inútil dessas.

-Meu caro, só tenho a te dizer que você que está errado. Tudo bem, tênis são vendidos por um valor bem maior do que eles realmente custam. Mas as pessoas não têm tantos tênis quanto elas têm roupas. É disso que eu me beneficio, bem mais do que vocês. Várias pessoas compram uma infinidade de roupas caras, achando que elas estão ganhando algo com isso. Achando que elas estão tendo um “estilo de vida”. Escrotas.

-Vocês se acham influentes só por que vendem coisas para o mundo, né? Quão ingênuos vocês são. Eu influencio muito mais a vida de algumas pessoas do que vocês três conseguem influenciar juntos. Afinal, com minha rede de casas noturnas, todos acham que é divertido sair à noite, dançar, beber e beijar na boca. De onde tiraram isso? Ah, sim. Fui eu que impus a elas. Eu que realmente defino o que as pessoas consideram “divertido”. Eu que defini o que elas acham “divertido”, e não vocês.

-Você acha que define alguma coisa? Caiam aos meus pés, reles mortais. Vocês acham mesmo que podem ter tão influência quanto eu, dono de uma emissora de TV? As pessoas só acham que se divertem em suas casas noturnas por que eu disse isso para elas. Se elas não vissem minhas novelas, programas de TV, propagandas, elas jamais achariam que beijar, dançar e beber é algo divertido. Família perfeita, felicidade, amor, tudo são conceitos que o mundo só conhece graças a mim. Se não fosse eu e minha emissora, vocês não seriam nada.

-Você se acha muito bom por que influencia os outros né? Mas você não pode nem dizer que tudo isso foi ideia sua. O escritor e diretor aqui sou eu. Eu que inventei tudo o que a sociedade segue. Se não fossem meus filmes, ninguém nem saberia o que é beijar. Ninguém acharia que amor é o mais importante de tudo. Pessoa alguma acharia divertido sair com os amigos. Fui eu quem escreveu primeiro tudo os que as pessoas seguem: família perfeita, felicidade, amor, liberdade... Eu que fui o grande inventor da sociedade, da qual vocês dependem.

-Vocês me fazem rir. Se preocupando tanto com a vida das pessoas. Mal sabem vocês que a vida é algo passageiro. Eu, como dono de uma funerária, posso dizer isso. Vocês podem até ter influenciado as pessoas em vida. Elas podem fazer tudo o que vocês estipularam para elas. Realmente, vivemos num mundo onde todos são muito escrotos. Mas um dia, cada pessoa da terra vai morrer. E aí, já era tudo o que elas fizeram. Não importa se elas se divertiram. Se elas se beijaram na boca. Se elas amaram. Se consideraram-se felizes. Grande merda tudo isso! Todos vão para dentro de um caixão e depois serão esquecidos para sempre. Seus corpos se decomporão e servirão de alimento para vermes, que depois também vão morrer. E todos os seus pensamentos, suas memórias, já eram. Vai acabar tudo. Cada pessoa miserável vai ser enterrada nas trevas, na escuridão, no nada. Não vão mais pensar, nem ver, nem se lembrar das coisas que as faziam viver. Essas pessoas escrotas me fazem rir. Acham que são originais, acham que tem um “estilo de vida”. Mas no final, vão acabar em minhas mãos. E quando isso acontecer, tudo vai ter acabado. Todo o divertimento, todo o amor, toda a família, já era. Eu venci. A morte sempre vence, e a vida acaba nunca fazendo sentido.

domingo, 21 de novembro de 2010

Não dá Mais

-Amor, o que significa isso? – Ela disse, levantando uma garrafa vazia. Seu rosto era lindo, delicado, ela sempre me cativou.

Eu fingi que não sabia do que ela estava falando.

-Querido... Por favor... – Sua boca delicada sussurrava as palavras com dor. Ela parecia não gostar daquilo, e isso me fazia sofrer. Eu não gostava de vê-la com dor. Eu a amava mais que tudo no mundo. Ela continuou falando:
-Você se lembra daquele fim de semana que passamos só nos dois, juntos? Naquela cabana na praia, sem ninguém por perto?
-Sim... Aquela cabana que não tinha água nem luz.
-Mas a falta de água ou luz não tornou o nosso fim de semana ruim, pelo contrário... Foi muito bom, não se lembra? Nós apreciávamos os momentos simples... Eu ficava entre os seus braços, abraçando a sua barriga... E nós ficávamos vendo o pôr-do-sol...
-Sim. Foi muito gostoso mesmo... A água da praia era clara...
-Azul claro... E nós ficávamos vendo os peixes passando entre nossos pés...
-E foi em um momento desses que eu te beijei.
-É verdade... Eu amei aquele beijo... Doce, suave... Não havia nada que eu trocaria por estar lá.
-Eu também gostei daquele momento. Você estava sorrindo, e ver você sorrir é o meu maior prazer. Aquele fim de semana foi como um filme...
-Não. Como um filme não. Filmes não expressariam tudo o que nós sentimos um pelo outro. E filmes têm finais, às vezes felizes, às vezes tristes. E eu não quero que nosso relacionamento tenha um final... Eu só quero viver ao seu lado.
-Amor, você é linda. Eu te amo...
-Eu também te amo, querido, mas...
-Mas o quê? Você não está satisfeita?

Ela franziu as sobrancelhas. Parecia que ela ia chorar. Eu peguei no rosto dela com as minhas duas mãos. Os olhos dela estavam apertados e úmidos ao olhar para mim. Parecia que ela estava tímida, que queria se afastar de mim.
-É que nosso relacionamento tem se tornado muito difícil.

Ao ouvir suas palavras, minha cabeça doeu. Ela já estava doendo, mas ficou pior ainda. E eu também estava com tontura. Ela ergueu novamente a garrafa vazia e olhou para mim, mordendo os lábios, com o braço que não pegava a garrafa segurando o cotovelo oposto. Seus olhos ficavam cada vez mais úmidos.

-Você se lembra o que fez ontem à noite?
-Amor, nós já brigamos tanto por causa disso... Deixa isso pra lá...
-Eu não posso deixar isso pra lá – Sua voz era de choro – Eu não consigo deixar isso pra lá. Ontem a note você veio com os seus amigos para o nosso apartamento. Você bebeu com eles até perder o controle. Você não sabe como eu sofro de ver você urinando no guardarroupa, falando que não me conhece, caindo no chão de bêbado.
-Mas, querida... Eu não posso deixar os meus amigos...
-Verdade, mas você não precisava beber. Você tem sugado a minha felicidade ficando bêbado... Ontem à noite mesmo, você saiu com os seus colegas e ficou encoxando uma mulher que estava parada no ponto de ônibus... Você sabe como eu sofro por tudo isso?
-Sim, amor, mas se eu não beber, o que eu vou fazer com os meus amigos? Eles só fazem isso... Eu vou ficar sóbrio e só assistir a eles loucos?
-Mas eu assisto a você louco todos os fins de semana... E eu te amo, mais do que você ama aos seus colegas... E isso me faz muito mal – Ela disse, derrubando uma lágrima que escorregou por todo o seu rosto e caiu no chão. Eu queria morrer. Eu estava a fazendo sofrer, muito, e isso me flagelava mais do que qualquer coisa. Mas eu também não podia mudar o meu eu por ela. Eu sou assim. E eu quero ser assim.
-Querida, sinto muito... Mas eu não posso me mudar. E eu não vou deixar os meus amigos.
-Eu entendo você... Mas acho que você não entende o meu sofrimento.
-E o que você quer que aconteça, então?
-Sinto muito, mas não dá mais. Eu sofro muito de ficar longe de você, mas tenho sofrido mais ainda por vê-lo fazer tudo o que você tem feito. Eu acho que os tempos de felicidade do nosso relacionamento já passaram, assim como o nosso fim de semana naquela cabana. Eu não quero mais ficar ao seu lado.

Ela começou a chorar alto.
-Querida, por favor, eu faço o que você quiser...
-Você vai mudar o seu comportamento a respeito do álcool? – Ela perguntou, entre soluços.
-Vou tentar...
-Sinto muito, mas só tentar não basta. Eu precisava que você mudasse. Não dá mais para continuarmos juntos assim.

sábado, 30 de outubro de 2010

O Lugar Onde a Felicidade Existe


 Ana subia a colina, correndo por entre flores de diversas cores. Seu pequeno vestidinho azul esvoaçava ao vento, seu cabelo loiro balançava com seus pulinhos. Lá em cima, ela correu em volta de uma árvore, dando gargalhadas, como se procurasse algo. Então a brisa ficou mais forte e sementes de Dente de Leão caíram da copa da árvore e ficaram suspensas no ar, no formato de uma pessoa.

 O vento soou como se fosse uma voz humana, dizendo “ora ora, você me achou de novo!” Ana deu uma gargalhada infantil e sorriu para as sementes. Depois disse “é fácil encontrar você, Josh”.

 Em um piscar de olhos, as sementes se espalharam e caíram no chão. Ana saiu correndo de novo, descendo a colina, e entrando na floresta. Chegou a uma clareira onde o chão era de rocha e pelo meio dela passava um riacho, repleto de flores cor de rosa boiando nele. Deu alguns passos leves, olhando em todas as direções, a busca de Josh. Mas não percebeu que mais uma vez a brisa tomou uma forma humana, dessa vez fazendo flutuar flores lilás, bem atrás dela.

 Repentinamente, um colar de flores roxas caiu sobre Ana e fixou-se em seu pescoço. Ela deu um gritinho de susto, mas depois deu outra risada infantil. Ela se virou e abraçou Josh, mesmo ele não tendo um corpo de verdade. Ele também riu, junto com ela.

 “Eu te amo Josh, não quero nunca te perder” ela disse, “Eu também te amo” ele respondeu. Então eles ficaram deitados na grama, a beira do riacho, olhando um para o outro e sorrindo. Agora, Josh era formado por folhas cor de laranja, como as do outono.

 -Josh, eu estou ouvindo vozes.
 -São os seus pais te chamando. É hora de você voltar para o seu mundo.
 -Eu não quero voltar para o meu mundo!
 -Mas você tem. Você não pode ficar aqui para sempre.
 -Mas Josh! Eu quero ficara aqui! Minha vida não faz sentido lá, ela pertence a aqui! Eu não quero viver lá, sem você!Você é a única coisa que eu amo!
 -Mas Ana, você tem os seus pais...
 -Eu só sou uma pessoa de verdade aqui! Lá eu não sou ninguém! Lá, minha vida não faz sentido! Meus pais não ligam para mim, eles estão sempre brigando... Por favor Josh, não me deixe ir... Eu te amo...
 -Sinto muito, mas essa escolha não é minha... Eu também te amo...

 Ana viu tudo ao seu redor ficando escuro. As folhas que formavam Josh passaram do laranja para o marrom, e depois se despedaçaram e se desintegraram. Ana foi sendo puxada para a escuridão.

 Até que abriu seus olhos vagarosamente. Ela viu a parede de seu quarto, feito de blocos sem rejunte. Estava com frio. Seu pai devia ter acabado de chegar. Estava com voz de bêbado, gritando coisas do tipo “Sua vadia, como deixou o meu jantar esfriar?!” para a mãe de Ana. E de resposta, Ana só ouvia os choros dela.

 Então Ana derramou uma lágrima, que caiu no travesseiro cuja fronha tinha estampa de singelas florezinhas. “Josh, por que você me deixou?”

sexta-feira, 28 de maio de 2010

A História de Fred.

O nome dele é Fred. Ele tem a pele rosa e olhos pretos. Ele tem uma vida muito boa. Maior parte dos dias são ensolarados na fazenda onde ele vive. Fred sempre está com os outros, brincando, rolando na grama, que faz cócegas em seu corpo. No campo ao redor de sua casa há inúmeras flores amarelas, delicadas e perfumadas. Também passa um riacho, que sempre está dispersando seu som tranqüilizante pela fazenda. De dia, os grilos grilam, e de noite, os sapos coaxam.

Fred é uma criança muito esperta. Está sempre brincando com seus amigos, tomando sol, explorando a fazenda, mergulhando nas águas refrescantes do riacho. Ele é uma criança muito curiosa, sempre descobre buracos onde se esconder, coisas novas para comer, poças de lama onde brincar. Ele também é uma criança muito humilde, sempre está próximo dos que precisam da sua ajuda, sempre está brincando com todos, nunca arranja confusões. E acima de tudo, Fred é uma criança muito feliz.

Sua família passa algumas dificuldades. Eles não têm nenhuma posse, fora uma pequena parte do território da fazenda, e para saciar sua fome, sempre dependem dos restos de alface, tomate, cenoura e arroz que dão para eles comerem.

Um dia, homens que visitavam a fazenda pegaram Fred. Colocaram-no dentro de um caminhão cheio de outras crianças iguais a ele, e depois o levaram para longe. Dentro da carreta onde Fred estava era muito escuro. E tudo fedia a suor e ferrugem. Fred estava com medo. Não sabia para onde o estavam levando. Alguns gritavam. Mas ninguém os socorria.

Quando finalmente pararam, os homens pegaram Fred e as outras crianças e levaram para dentro de uma sala toda branca, porém encardida, dentro de um prédio. O novo lugar tinha cheiro de fezes. Ninguém sabia o que estava acontecendo e todos estavam assustados. De tempos em tempos, os homens abriam a porta de novo e pegavam uma das crianças. E a cada vez que eles apareciam, todas gritavam. Ninguém queria se separar dos outros.

Até que chegou a vez de Fred. Os homens o agarraram. Ele gritou, esperneou, mas não adiantou. Eles levaram Fred para outra sala, que era muito mais assustadora. Ela tinha as paredes e o chão cheios de um líquido vermelho. Não um vermelho fosco, mas um vermelho vivo. Sangue. Fred gritava. Gritava. E gritava. Mas ninguém o socorria. Ele começou a chorar. E quando os homens o levantaram e o colocaram sobre uma mesa, ele desistiu de tudo. Sabia que não sobreviveria mais. Um terceiro homem veio com um machado imenso. Colocou bem rente ao pescoço de Fred. Fred sentiu a lâmina gelada. Então o homem levantou o machado em posição de golpe, e olhou para as lágrimas escorrendo do rosto de Fred por alguns segundos. Então, em um único golpe, ele decapitou Fred.