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terça-feira, 19 de março de 2019

Queda, Fim e Livre (do experimento)




Foi quando eu fui internado no hospital. Eles colocaram alguma coisa no meu dedo. Alguma coisa que esteve crescendo. Naquela época eu já sabia que não podia confiar em ninguém. Eles me monitoravam em toda esquina. E as câmeras que de repente surgiram perto de casa, todas serviram para esse experimento. Eles estão me monitorando agora mesmo.
Também tem as coisas que eles estão colocando na minha comida. Eu sinto o gosto metálico. Eles estão colocando alguma coisa na minha comida que faz essa coisa no meu dedo crescer. Deus! Ela está crescendo. E eu tenho certeza que tem a ver com o que colocam na minha comida. Eu não sei como fazem isso. Talvez estejam entrando na minha casa durante a noite, enquanto eu durmo. Essa coisa está crescendo, está espalhando para a minha mão. Talvez eles envenenem minha comida enquanto eu estou fora.
Eu acho que eu vou ter um ataque do coração. Essa coisa está fazendo eu me sentir cansado. Está me atrapalhando no meu dia-a-dia, está me minando. Eu acho que essa coisa que colocaram no meu dedo está me controlando. Eu não consigo mais pensar direito, desde que isso apareceu, eu tenho estado confuso. Eu tenho certeza de que isso faz parte de um experimento. Eles estão vendo os efeitos dessa coisa em mim, me controlando, me consumindo.
Mas eu acabo com o plano deles. De hoje não passa. Eu corto minha mão fora. Com o facão. Demora. Dói. O osso é difícil de cortar, e o sangue atrapalha a visão. Mas agora eu estou livre

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Duas Vozes

"Ele nunca mais fez nada pra te atacar e provavelmente não vai mais fazer"

Talvez. Talvez ele fique na dele e mais nada aconteça. Talvez você esteja certo.

Ou talvez você esteja mentindo para mim, tentando fazer eu me sentir bem.

Mas talvez você só não esteja percebendo os planos dele.

Ou talvez você não esteja se preocupando comigo e já me odeia por eu reclamar tanto dele.

Pode ser só que você não tem certeza de nada, mas não quer me contrariar para me poupar.

Talvez você realmente não queira me contrariar por que está me enganando. Talvez você finja ser meu amigo só para ficar rindo de mim pela minhas costas enquanto conta para os outros sobre os meus delírios.

Talvez você não fica do meu lado só porque não quer se envolver em uma briga que não é sua.

Talvez você seja amigo dele e esteja do lado dele tentando me deixar louco.

Talvez você nem seja tão próximo assim dele. Não vejo vocês juntos.

Talvez você esteja servindo como um espião, para monitorar a forma como as investidas silenciosas dele me afetam, para que juntos vocês consigam me destruir.

Talvez você nem converse com ele para saber as coisas que ele tem feito.

Talvez vocês fiquem secretamente conversando e rindo de mim enquanto fazem planos para me destruir: ele me humilhando de forma direta e clara para que todos vejam, e você fingindo ser meu amigo para me manipular.

Talvez vocês espalhem para todos os outros as coisas que estão me fazendo passar.

Talvez ele fique na dele e mais nada aconteça. Mas só talvez.


Talvez nada disso faça sentido.

Mas talvez ele realmente se incomoda comigo e está fazendo de tudo para me eliminar da vida dele.

Talvez ele só queira viver a vida dele e eu a minha.

Talvez ele esteja tentando me deixar louco e me humilhar.

Talvez eu esteja delirando.

Mas talvez ele esteja fazendo tudo isso para que eu ache que estou enlouquecendo.

Talvez ele queira que fuja dele e dos amigos meus dele, ou talvez ele queira que eu me mate.

Talvez qualquer desses resultados esteja bom para ele.

Talvez você esteja sendo paciente comigo. Eu sei que estou sendo chato. Talvez não esteja me apoiando porque tudo isso é simplesmente um absurdo.

Ou talvez você não esteja me apoiando porque me odeia. As pessoas não gostam de gente chata como eu.

Talvez você não me odeie. Não tem motivo para você me odiar.

Talvez você me odeie por causa das coisas que eu supostamente fiz para ele. Talvez você me odeie por ter medo de mim, eu sei que as pessoas têm medo e se afastam de quem tem surtos assim.

Talvez você não me odeie, porque se você realmente tivesse esses motivos para me odiar, todos os outros teriam, e vocês não conseguiriam todos me odiar e fingir que não ao mesmo tempo.

Talvez não só você, mas todos tenham medo de mim, ou me achem chato, e por isso não ligam para mim. Talvez todos vocês me enganem, talvez todos vocês riam de mim pelas costas, me vendo só como um motivo de piada.

Talvez nada disso faça sentido e eu esteja delirando. Mas só talvez.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Um Resumo

Tem merda voando por todo lado. Merda me acertando por todo lado. Rastejando e babando, como se diz, balançando sem sentido. Olha para o céu, abismo. Pare de estalar os dedos, eles estão doendo. Infinito: Um ataque do coração. Tudo caindo ao seu redor, nada mais fica em seu lugar, nada mais fica parado. Aquele espinho enterrado no dedo! O canto da unha sangrando. Lama nos joelhos, escorrendo entre os dedos. O telefone está tocando. E o coração... A gota gelada escorrendo pelas costas. Aquele suspiro que faz o peito doer. O dedo queimado, com a bolha em sua ponta. Friccionando o dedo sem pele, sensível, no outro dedo. A água está fervendo, o bule apitando. E a sirene dos bombeiros lá longe: Alguém está morrendo. Dentro da geladeira. Aquela pedra de gelo. Dedos duros, congelados. E o ponteiro dos segundos não para e não passa. A luz queimando os olhos logo que você sai de casa. A frieira, a unha encravada, a fratura exposta. A lâmpada queimou, a comida estragou (cheiro de podre). Aquela casca preta, amarga, de comida queimada: você vai ter que comer. A boca seca, logo cedo. Vômito por todo lado. E esse cheiro ruim não passa, está impregnado no seu rosto. Você está imundo.


quinta-feira, 3 de abril de 2014

A Luta de Claces



Uma vez eu tive um amigo. Um verdadeiro companheiro. Quase um irmão. Logo que saí da casa dos meus pais, para morar mais próximo do trabalho, a gente começou a dividir os dois quartos de um apartamento. Nós gostávamos de lutar. Fazíamos Jiu-jitsu e Muay Thai, e mesmo quando não estávamos lutando na academia, vivíamos nos socando quando bebíamos, ou até mesmo em casa, em momentos de tédio. E eu sempre venci as brigas. Eu era maior e mais forte do que ele, então sempre parava na hora que achava que ele iria se machucar muito. Mas ele sempre contou vitória, dizendo que eu tinha me cansado e desistido. Um dia eu quis ver qual era o limite dele, o quanto ele demoraria a desistir. E talvez, mostrar o meu desempenho máximo. Logo no começo, ele ficou irritado. Eu também fiquei irritado com ele. E eu o matei, sem querer.

quinta-feira, 20 de março de 2014

O Mistério



Hoje aconteceu algo muito estranho. Muito mais estranho do que se espera que aconteça em dias normais. Eu passei por uma árvore seca. Ela sempre esteve lá. Mas hoje ela estava diferente. Eu escutava um barulho vindo de dentro dela. Um barulho de água, como se houvesse um riacho ou uma cachoeira. Cheguei mais perto para procurar de onde o sonho vinha. Não percebi nada além de notar que o som estava mais alto.
Realmente era o barulho de água. E vinha de, se não bastasse ser uma pequena árvore, uma árvore estava seca. Mesmo que houvesse um rio subterrâneo passando por baixo da árvore, então ela não deveria estar seca. Mas, por outro lado, o rio poderia ter aparecido depois de a árvore secar. Mas isso não faria sentido, pois o barulho que eu escutava era de um volume muito maior de água do que o que poderia ter aparecido ali naturalmente, em uma quantidade de tempo inferior ao do apodrecimento do tronco. Mas talvez não tenha sido naturalmente. Talvez fosse um encanamento da cidade que tivesse rompido. Ou não, porque esse tipo de barulho a gente escuta quando há contato do rio com o ar. Imagino que um rio subterrâneo, a não ser que seja uma caverna com galerias que ecoassem até aquela árvore, não deveria fazer aquele barulho. Mas e se fosse? Talvez uma caverna ainda não descoberta passando por baixo da cidade. Mas por que o som dessa caverna seria emitido por um tronco seco? Talvez, bem no nó da árvore, haja um buraco que tenha conexão com um buraco maior ainda, que tem ligação com uma rede de túneis que ecoa o barulho de uma imensa cachoeira, bem debaixo da cidade. Talvez, aquelas teorias de Júlio Verne não estejam tão erradas. Pode haver vida no centro do nosso planeta, e até mesmo um sol interno, como acreditam aqueles conspiracionistas extremos.
E toda a minha descoberta, tudo aquilo que eu estava escutando, vinha de dentro da minha árvore seca. Uma árvore. Nenhum rio no raio de quilômetros. E aquele maldito vegetal morto fazendo o barulho de água corrente. Eu tenho vontade de dar tiros nele. Para ver se ele continuaria fazendo o mesmo barulho. E se ele não estivesse morto? E se, ao invés de um vegetal morto, aquilo não fosse um animal vivo? Já ouvi falar de pássaros que aprendem um som e conseguem reproduzi-lo perfeitamente. Mas não podia haver nenhum ninho ou toca naquele pedaço de madeira. Não que eu conseguisse ver, pelo menos. Mas não necessariamente esse animal precisa ser um pássaro, ele pode ser só uma cigarra. Uma cigarra estranha que faz barulho de água. Uma cigarra conseguiria se esconder ali no meio muito melhor do que qualquer pássaro. Mas eu nunca ouvi uma cigarra fazendo barulho diferente do habitual. Até existem alguns ritmos diferentes, talvez entre as espécies, mas sempre é aquele som chato. Uma cigarra jamais conseguiria fazer o barulho de um rio. Mas, o animal poderia não estar dentro do tronco. Ele podia ser o tronco. Igual àquelas borboletas que a gente vê que imita a casa das árvores. Mas nesse caso, talvez o animal imitasse um tronco inteiro. Acho pouco provável. Talvez o tronco fosse a “casinha” do animal, como um caracol ou ermitão gigante. Que usa um tronco de árvore como toca. E que faz barulho de água. Não, não. Impossível. Se for mesmo um animal, a única probabilidade é que sejam vermes e larvas aí dentro. Não, nem isso. Eu nunca ouvi falar de nada sequer parecido com isso antes. Deve haver outro motivo para essa árvore seca fazer o barulho de um rio. Não deve ser um animal. Acho mais fácil ser o mundo no centro da terra do que um animal nunca antes visto pela ciência. Eu não sei o que era. Mas sei que é muito estranho. Estranho demais para ser compreendido. Um verdadeiro mistério.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Uma História Real



Caminhando por esta rua de fogo, e meu lar está reduzido a cinzas.

Eu estava entediado. Nada a fazer. A casa limpa, a mesa posta... Nenhuma tarefa restante. Cada coisa em seu lugar.

O que eu fazia? Não me lembro. Não quero me lembrar. Estou com uma nuvem, densa cerração, ao redor de minha cabeça. Só quero sanar esse tédio, ocupar minha mente.

Eu estava entediado. Nada a fazer. Resolvi sarar meu aborrecimento com o abençoado remédio thorazinternet.

Entrei no Facebook, Whatsapp, Messenger, naquele blog habitual, naquele fórum habitual. Pesquisei no google algo que andava perturbando minha mente. Perturbando minha mente.

Mensagem aqui, mensagem lá. Atualizações. Imagens nada originais. Aquela mesma imagem, vista pela milésima vez. Notícias. O time venceu, o homem suicidou, o bandido foi preso.

Enviaram-me um link. Um link estranho, que levava a um blog estranho. Cores estranhas, formatos estranhos. Textos estranhos.

A primeira frase, de um daqueles textos. Caminhando por esta rua de fogo, e a casa está reduzida a cinzas.

E então, eu me lembrei. Lembrei-me do que fazia, de como era a minha vida. A nuvem foi embora, e nada faz sentido. Nada está em seu lugar.

Tudo está ao contrário. De ponta cabeça. De frente para trás, do avesso. Bagunçado, desordenado, confuso. Uma baderna, uma folia, uma arruaça.

O que é tudo isso? O que essas coisas fazem... Em minha vida? Não, não. Nada está certo. Tudo está muito estranho... E ao mesmo tempo familiar, íntimo... Costumeiro.

Sim, sim. Tem algo de errado. Mas não são coisas. Não está na minha vida. O que está errado é a minha vida. A minha vida, em si.

É. A minha vida é estranha. Ou deveria dizer... Existência? Porque tudo isso, todas essas coisas, você sabe... Não podem ser chamadas de vida.

A minha existência é estranha. Muito estranha. Eu não deveria estar aqui. O que eu fazia antes da nuvem aparecer e eu ficar entediado... Você sabe.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Baixa Geral



Você viu aquela mulher? Aquela mulher pálida, deitada na mesa, indefesa? Com seus olhos fechados, boca calada, pele gelada? Você viu? O defunto em seu descanso eterno? Em seu descanso em paz? Decomposto, pútrido, putrefeito, apodrecido? Fedendo a carniça? Você viu aquela mulher, não viu? Pele acinzentada, incolor, inerte? A expressão inerte? Aquela mulher que foi trazida de ambulância, ensanguentada? Aquela mulher que foi trazida com a boca escancarada? Que foi trazida incinerada? De dentro daquela casa incendiada? Você viu, não viu?

Você viu aquela mulher? Aquela mulher petrificada, engolida pela fragilidade da existência? Com as manchas vermelhas vazando por seus braços? Com a cabeça achatada pela roda do trem? Pela força da altura do chão duro? Pela força do projétil metálico disparado em alta velocidade? Você viu? Viu aquela mulher com as marcas no pescoço? Marcas de mãos ciumentas? As mãos daquele amante frustrado? Perdido na vida, no álcool, nas drogas? Procurando um refúgio sanguinolento para seus sentimentos impiedosos? Você viu, não viu?

Aquela mulher que estava em ossos? Ossos encontrados por amantes, por acaso? Enquanto procuravam uma trilha vazia para foder? Aquela mulher estudada pelos médicos, não viu? De órgãos externos, órgãos expostos, expostos a estudo? Pelos legistas? Pelos estudantes de medicina? Postos em fila ao redor do corpo? Apreciando-o como uma obra de arte? Você viu essa mulher? Pintada nos livros de anatomia? Divulgada naqueles jornais violentos? Impressos a tinta vermelha? Vermelha da cor do sangue? Você viu, não viu?