Tem merda voando por todo lado. Merda me acertando por todo lado. Rastejando e babando, como se diz, balançando sem sentido. Olha para o céu, abismo. Pare de estalar os dedos, eles estão doendo. Infinito: Um ataque do coração. Tudo caindo ao seu redor, nada mais fica em seu lugar, nada mais fica parado. Aquele espinho enterrado no dedo! O canto da unha sangrando. Lama nos joelhos, escorrendo entre os dedos. O telefone está tocando. E o coração... A gota gelada escorrendo pelas costas. Aquele suspiro que faz o peito doer. O dedo queimado, com a bolha em sua ponta. Friccionando o dedo sem pele, sensível, no outro dedo. A água está fervendo, o bule apitando. E a sirene dos bombeiros lá longe: Alguém está morrendo. Dentro da geladeira. Aquela pedra de gelo. Dedos duros, congelados. E o ponteiro dos segundos não para e não passa. A luz queimando os olhos logo que você sai de casa. A frieira, a unha encravada, a fratura exposta. A lâmpada queimou, a comida estragou (cheiro de podre). Aquela casca preta, amarga, de comida queimada: você vai ter que comer. A boca seca, logo cedo. Vômito por todo lado. E esse cheiro ruim não passa, está impregnado no seu rosto. Você está imundo.
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quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Um Resumo
Tem merda voando por todo lado. Merda me acertando por todo lado. Rastejando e babando, como se diz, balançando sem sentido. Olha para o céu, abismo. Pare de estalar os dedos, eles estão doendo. Infinito: Um ataque do coração. Tudo caindo ao seu redor, nada mais fica em seu lugar, nada mais fica parado. Aquele espinho enterrado no dedo! O canto da unha sangrando. Lama nos joelhos, escorrendo entre os dedos. O telefone está tocando. E o coração... A gota gelada escorrendo pelas costas. Aquele suspiro que faz o peito doer. O dedo queimado, com a bolha em sua ponta. Friccionando o dedo sem pele, sensível, no outro dedo. A água está fervendo, o bule apitando. E a sirene dos bombeiros lá longe: Alguém está morrendo. Dentro da geladeira. Aquela pedra de gelo. Dedos duros, congelados. E o ponteiro dos segundos não para e não passa. A luz queimando os olhos logo que você sai de casa. A frieira, a unha encravada, a fratura exposta. A lâmpada queimou, a comida estragou (cheiro de podre). Aquela casca preta, amarga, de comida queimada: você vai ter que comer. A boca seca, logo cedo. Vômito por todo lado. E esse cheiro ruim não passa, está impregnado no seu rosto. Você está imundo.quinta-feira, 20 de março de 2014
O Mistério
Hoje aconteceu algo muito estranho. Muito mais estranho do
que se espera que aconteça em dias normais. Eu passei por uma árvore seca. Ela
sempre esteve lá. Mas hoje ela estava diferente. Eu escutava um barulho vindo
de dentro dela. Um barulho de água, como se houvesse um riacho ou uma
cachoeira. Cheguei mais perto para procurar de onde o sonho vinha. Não percebi
nada além de notar que o som estava mais alto.
Realmente era o barulho de água.
E vinha de, se não bastasse ser uma pequena árvore, uma árvore estava seca.
Mesmo que houvesse um rio subterrâneo passando por baixo da árvore, então ela
não deveria estar seca. Mas, por outro lado, o rio poderia ter aparecido depois
de a árvore secar. Mas isso não faria sentido, pois o barulho que eu escutava
era de um volume muito maior de água do que o que poderia ter aparecido ali
naturalmente, em uma quantidade de tempo inferior ao do apodrecimento do
tronco. Mas talvez não tenha sido naturalmente. Talvez fosse um encanamento da
cidade que tivesse rompido. Ou não, porque esse tipo de barulho a gente escuta
quando há contato do rio com o ar. Imagino que um rio subterrâneo, a não ser
que seja uma caverna com galerias que ecoassem até aquela árvore, não deveria
fazer aquele barulho. Mas e se fosse? Talvez uma caverna ainda não descoberta
passando por baixo da cidade. Mas por que o som dessa caverna seria emitido por
um tronco seco? Talvez, bem no nó da árvore, haja um buraco que tenha conexão
com um buraco maior ainda, que tem ligação com uma rede de túneis que ecoa o
barulho de uma imensa cachoeira, bem debaixo da cidade. Talvez, aquelas teorias
de Júlio Verne não estejam tão erradas. Pode haver vida no centro do nosso
planeta, e até mesmo um sol interno, como acreditam aqueles conspiracionistas
extremos.
E toda a minha descoberta, tudo aquilo que eu estava escutando, vinha
de dentro da minha árvore seca. Uma árvore. Nenhum rio no raio de quilômetros.
E aquele maldito vegetal morto fazendo o barulho de água corrente. Eu tenho
vontade de dar tiros nele. Para ver se ele continuaria fazendo o mesmo barulho.
E se ele não estivesse morto? E se, ao invés de um vegetal morto, aquilo não
fosse um animal vivo? Já ouvi falar de pássaros que aprendem um som e conseguem
reproduzi-lo perfeitamente. Mas não podia haver nenhum ninho ou toca naquele
pedaço de madeira. Não que eu conseguisse ver, pelo menos. Mas não
necessariamente esse animal precisa ser um pássaro, ele pode ser só uma
cigarra. Uma cigarra estranha que faz barulho de água. Uma cigarra conseguiria
se esconder ali no meio muito melhor do que qualquer pássaro. Mas eu nunca ouvi
uma cigarra fazendo barulho diferente do habitual. Até existem alguns ritmos
diferentes, talvez entre as espécies, mas sempre é aquele som chato. Uma
cigarra jamais conseguiria fazer o barulho de um rio. Mas, o animal poderia não
estar dentro do tronco. Ele podia ser o tronco. Igual àquelas borboletas que a
gente vê que imita a casa das árvores. Mas nesse caso, talvez o animal imitasse
um tronco inteiro. Acho pouco provável. Talvez o tronco fosse a “casinha” do
animal, como um caracol ou ermitão gigante. Que usa um tronco de árvore como
toca. E que faz barulho de água. Não, não. Impossível. Se for mesmo um animal,
a única probabilidade é que sejam vermes e larvas aí dentro. Não, nem isso. Eu
nunca ouvi falar de nada sequer parecido com isso antes. Deve haver outro
motivo para essa árvore seca fazer o barulho de um rio. Não deve ser um animal.
Acho mais fácil ser o mundo no centro da terra do que um animal nunca antes
visto pela ciência. Eu não sei o que era. Mas sei que é muito estranho.
Estranho demais para ser compreendido. Um verdadeiro mistério.
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
Uma História Real
Caminhando por esta rua de fogo, e meu lar está reduzido a
cinzas.
Eu estava entediado. Nada a fazer. A casa limpa, a mesa posta...
Nenhuma tarefa restante. Cada coisa em seu lugar.
O que eu fazia? Não me lembro. Não quero me lembrar. Estou
com uma nuvem, densa cerração, ao redor de minha cabeça. Só quero sanar esse
tédio, ocupar minha mente.
Eu estava entediado. Nada a fazer. Resolvi sarar meu aborrecimento
com o abençoado remédio thorazinternet.
Entrei no Facebook, Whatsapp, Messenger, naquele blog
habitual, naquele fórum habitual. Pesquisei no google algo que andava
perturbando minha mente. Perturbando minha mente.
Mensagem aqui, mensagem lá. Atualizações. Imagens nada originais.
Aquela mesma imagem, vista pela milésima vez. Notícias. O time venceu, o homem
suicidou, o bandido foi preso.
Enviaram-me um link. Um link estranho, que levava a um blog
estranho. Cores estranhas, formatos estranhos. Textos estranhos.
A primeira frase, de um daqueles textos. Caminhando por esta
rua de fogo, e a casa está reduzida a cinzas.
E então, eu me lembrei. Lembrei-me do que fazia, de como era a minha vida. A nuvem foi embora, e nada faz sentido. Nada está em seu lugar.
Tudo está ao contrário. De ponta cabeça. De frente para
trás, do avesso. Bagunçado, desordenado, confuso. Uma baderna, uma folia, uma
arruaça.
O que é tudo isso? O que essas coisas fazem... Em minha
vida? Não, não. Nada está certo. Tudo está muito estranho... E ao mesmo tempo
familiar, íntimo... Costumeiro.
Sim, sim. Tem algo de errado. Mas não são coisas. Não está
na minha vida. O que está errado é a minha vida. A minha vida, em si.
É. A minha vida é estranha. Ou deveria dizer... Existência?
Porque tudo isso, todas essas coisas, você sabe... Não podem ser chamadas de
vida.
A minha existência é estranha. Muito estranha. Eu não
deveria estar aqui. O que eu fazia antes da nuvem aparecer e eu ficar
entediado... Você sabe.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Prego Torto
Martelada depois de martelada, eu repetia, incessantemente, pregando madeira a madeira. Estava muito calor, a casa era abafada, a cidade quente, e eu sentia as gotas de suor escorrendo pelas minhas costas. Estava martelando um estrado para a minha nova cama. Tanto a estrutura de madeira quanto as ripas que eu martelava, eu havia conseguido no lixão, de manhã. Afinal de contas, aquele era meu dia de folga, mas mesmo assim eu acordei logo cedo. Tive que conseguir uma cama para passar a noite na casa onde estava. Tinha alugado o imóvel por uma semana, para saber em que estado tudo se encontrava. Eu sabia que lá havia baratas, por isso quis ter pelo menos uma cama para passar as noites. O ambiente também estava fedido, mas disso e das outras coisas eu cuidaria no dia seguinte. Se algum problema não tivesse jeito, eu iria tratar com o proprietário. Eu precisava observar a real condição da casa, pois os donos pediram trinta e cinco mil reais para vendê-la, e meu dinheiro era curto, eu precisava verificar se realmente o custo valia a pena antes de fazer um financiamento no banco. Por isso aluguei a casa por uma semana, para ver como ela estava antes de comprá-la e me mudar. Afinal de contas, eu me interessei por aquela casa pela sua localização: Bem em frente ao cemitério. E também ouvi boatos de que alguém havia morrido lá dentro. Acho que por esses dois fatores o valor do imóvel estaria bem acessível. Mas não custa nada verificar se não havia encanamentos quebrados ou instalações elétricas mal feitas, quem sabe eu poderia reduzir ainda mais o custo. Eu sei que comprar um imóvel próprio ainda estava fora da minha capacidade, meu salário no novo emprego ainda era baixíssimo. Mas em longo prazo, eu economizaria muito mais comprando aquela casa do que morando no hotel. Quando eu me mudei para aquela cidade, não havia nenhum imóvel disponível. Nos primeiros dias, hospedei-me em um hotel precário no centro da cidade. Não havia roupa de cama, o banheiro era imundo, a água do chuveiro, fria. Mais tarde negociei para pagar um valor mais baixo, em troca, eu mesmo arrumaria o meu quarto, não precisaria das camareiras. Afinal de contas, eu mal passava a noite lá dentro, não havia sequer motivo para arrumarem nada. E também naquela cidade no fim do mundo, não havia turismo, praticamente. Eu sozinho durante um mês já seria uma fonte de lucros imensa para o hotelzinho. Por outro lado, se eles cobrassem muito caro na diária, eu não iria conseguir pagar com o meu salário de coveiro. Falando nisso, eu trabalhava no cemitério, por isso que procurei uma casa que ficasse de frente para ele. O salário era relativamente alto para quem só precisava ficar colocando caixões dentro do jazigo e depois cimentando, ou tirando os ossos antigos e colocando dentro de um saco no ossuário. Sem falar que a maior parte do tempo eu não fazia nada além de assistir televisão com o porteiro. Agora, com uma casa do lado do local de trabalho, eu poderia ir fazer uma limonada para eu e o Tonho tomarmos enquanto assistíamos Sessão da Tarde. Ele gostava de Domingão do Faustão, mas eu não podia assistir, domingo era um dos dias mais lotados no cemitério. Às vezes, de manhã, também assistíamos os desenhos da Cultura. Descobri que tanto eu como ele gostávamos do sentimento de lembrar da infância. O Tonho uma vez me perguntou por que eu me mudei para aquela cidade de velhos, para trabalhar num cemitério e ficar longe dos amigos, dos bailes, das garotas da capital. Eu respondi que nada disso realmente me interessava. Os amigos? Irritantes, não eram amigos de verdade. As baladas? Irritantes, não eram divertidas de verdade. As garotas? Irritantes, não eram mulheres de verdade, somente garotas. Preferia uma vida tranquila e solitária no interior, trabalhando como coveiro mesmo. Eu também estava planejando subir na carreira no cemitério, quem sabe me tornar maquiador, depois vendedor de caixões e jazigos, mais tarde seria o gerente. Ou então aproveitaria o imóvel que estava comprando e montaria uma floricultura, do lado do cemitério. Tudo era promissor. Talvez não tão promissor quanto a minha vida antes de mudar para aquela cidade, mas mesmo assim seria melhor para mim. Eu acabei me mudando para lá depois de ver um anúncio na internet, no site da cidade, dizendo que o cemitério e algumas lojas no centro estavam precisando de funcionários. Eu nunca me dei bem com outras pessoas, preferi me tornar coveiro, menos estressante e mais bem pago do que vendedor. Eu precisava sair da minha antiga casa na capital. Eu sei que lá eu tinha um futuro, meus pais me sustentariam por um bom tempo e eu poderia fazer uma faculdade. Mas não havia mais como eu suportar aquela vida. Tudo o que eu fazia, antes devia ser julgado pelos meus genitores. E maioria das vezes, eles só reprovavam minhas atitudes. O clima de reprovação, de julgo, de desgosto com que todos me olhavam só me fazia sentir um peso naquela casa. Não se relacionar bem com os pais é algo até que normal, mas a partir do momento que você tenta fazer tudo ficar bem e a única coisa que consegue são olhares de desprezo e de reprovação, sua única vontade é de sair daquele lugar. Eu não sentia mais aquela casa como sendo um lar. Parecia mais um presídio. Eu mal conseguia me aplicar aos meus estudos, de tão mal que me sentia. Realmente valeu a pena ter me mudado para aquela cidadezinha no meio do nada e longe de tudo. Pelo menos fiquei bem longe da minha família. Vivia com humildade, mas o novo emprego e todas as minhas tarefas de solteiro solitário ocupavam a minha mente, e eu já não me sentia mal. Aos poucos, aquela quente, abafada, seca, minúscula e desabitada cidadezinha do interior se tornava mais um lar para mim do que a capital foi por todos os anos que eu morei lá.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Dois Momentos
Passo na frente de passo. Passo na frente de passo, eu continuo andando, passo na frente de passo. Passo pela grama alta, bem alta, já deve estar com meio metro de altura. O muro está começando a derrubar pedaços do seu concreto no chão, formando uma areia cinza e bem grossa. Do outro lado, as amoreiras amarronzadas, já sem metade das folhas. Parece que tudo está destruído.
Destruído sim, mas não morto. Sofrimento? Eu não conheço isso. Minha vida é tranquila, tranquila até demais. Parece que tudo está parado, inerte... Nunca conquisto nada, só envelheço perdendo os momentos da juventude que poderia ter aproveitado. Estou cansado. Passo na frente de passo, nunca conquisto nada, só consigo me cansar. É isso. Estou cansado dessa vida medíocre. Quando vou deixar tudo para trás?
--
Então eu abro mais o registro, deixando a água fria. Sento
no chão do banheiro, abraço minhas pernas. Fico escutando somente o som da água
caindo. A água que, mais longe da resistência do chuveiro, fica mais fria
ainda. Cai na minha cabeça, escorre pelas minhas costas. Deixa-me arrepiado,
como se estivesse correndo por dentro de mim, limpando minha alma. Eu sei que a
maioria dos outros garotos estaria fazendo outras coisas no banho. Mas eu
sempre soube que eu não sou uma pessoa normal.
Às vezes, preciso sair da rotina para esfriar minhas ideias.
Geralmente essas fugas envolvem água gelada, pancadas ou coisas quebrando; no
entanto em todas elas eu tenho que estar sozinho. Preciso fazer algo para
aliviar minha ira, minhas frustrações. Às vezes a vida parece pesada demais,
cheia de obrigações necessárias para alcançar objetivos que não são meus, e eu
preciso virar tudo de cabeça para baixo e do avesso para sentir que estou
fazendo algo além de existir.
Temas deste texto:
Fuga,
Insanidade,
Niilismo,
Solidão,
Suicídio,
Textos Compostos,
Vitor
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Me...
O mar é azul, mas não é da cor do mar. É mais escuro, e tem mais visibilidade. E eu posso ver suas estrelas no fundo, brilhando para mim como despedida.
A popa é um lugar deprimente. É aonde vamos para lembrar do que deixamos para trás. Talvez seja por isso que, nas caravelas, a cabine do capitão se localiza nela. No meu caso, olhar para o passado me faz querer aumentar a velocidade, navegar mais rápido. Fugir da terra que me prendia.
O problema é que você pode até não o ver, mas o lugar de onde você fugiu continua lá, existindo. Os habitantes ainda se lembram de você. E a qualquer momento, você pode voltar, só por curiosidade, e acabar se arrependendo.
As caravelas portuguesas possuíam cruzes vermelhas. As minhas não: São totalmente brancas. Mas isso não significa que eu não possua um guia invisível. Minha viagem é guiada pelo sentimento de deixar a angústia e viver em branco, mesmo que seja só por alguns momentos. Afastar-me um pouco do mundo.

Me…
Há algo que eu odeio na terra. A forma como as coisas se repetem. Você tem uma montanha aqui, e logo na frente tem outra montanha, e depois outra. Uma praia aqui, depois uns rochedos. Além deles, outra praia e outros rochedos. Tudo é muito repetitivo e deprimente.
Certo, no mar a gente só tem ondas e estrelas, que também são repetitivas, bem mais do que qualquer coisa na terra. Mas eu me sinto livre quando estou navegando. É uma repetição que não me faz doer.
Na terra, tudo é doloroso. E ir para o mar só vai tornar a terra mais dolorosa ainda quando eu voltar. Mas eu não consigo resistir, estou preso a essa sensação de liberdade. Eu tenho que fugir da terra. Tenho que ir para o mar. É onde tudo faz sentido mesmo sem fazer sentido algum.
me acorda ?
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Refração
Estou observando um horizonte cinzento ao pôr do Sol. O tempo passa ao meu redor, e as pessoas estão retornando aos seus lares. Eu não tenho um lar para voltar. O Sol não pode se pôr para mim.
Estou observando um horizonte cinzento ao pôr do Sol. O tempo passa ao meu redor, mas não passa dentro de mim.
O que você está fazendo? Ele diz. Mas meus olhos turvos não conseguem distingui-lo direito. Eu tenho que retornar à minha tarefa. O que você está fazendo, ein, mano? Ele diz. Eu olho para ele.
Meu coração quebrou. Meu coração quebrou, mano.
E agora, mano? Ele diz. Eu posso te ajudar?
Sim, eu trouxe cola. Olha aqui. Cola sempre conserta tudo, na falta de mães. Eu olho para ele. Confuso? Como pode não entender? Mães consertam tudo. Mas nem todos têm mães, e não se pode arranjar uma em qualquer lugar. Mas eu tenho cola, e ela tem o mesmo efeito.
E agora, mano? Ele diz. Como eu posso te ajudar? Você sabe... Com a cola? Onde eu passo?
Não passe. Só inale.
Estou andando sozinho na calçada. Cercado por prédios deteriorados, que um dia não existiam fora dos projetos de um arquiteto. Pessoas haviam comprado apartamentos antes deles estarem prontos.Estou andando sozinho na calçada. Cercado por ruínas do que um dia foram sonhos.
Quando seu coração quebrou? Ele diz. Mas minha mente confusa não consegue recordar quem ele é. Eu tenho que retornar aos meus pensamentos. Quando seu coração quebrou, ein, mano? Ele diz. Eu tento lembrar dele.
Ele nunca esteve inteiro. E agora mesmo, ele está em chamas, mano.
E agora, mano? Ele diz. Eu posso apagar?
Não, é uma má ideia. Olha aqui. Mães, lares, todas essas coisas. Eu olho para ele. Confuso? Como pode não entender? Nada disso nunca foi real. Foram só sonhos. E agora restam só ruínas, em chamas. Restam só cinzas. Resta só essa fumaça que me sufoca.
E agora, mano? Ele diz. Como eu posso te ajudar? Você sabe... Apagar esse fogo? Acabar com a fumaça?
Não apague. Só inale.
Estou virando a cabeça para vomitar. Não posso vomitar em mim mesmo. Ficaria sujo, fedido. Mas por que as pessoas não querem ficar sujas e fedidas? Para agradar aos outros? Então eu não preciso virar a cabeça.
Estou virando a cabeça para vomitar. Não posso continuar vivendo em mim mesmo.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Devorar
Releitura de uma música de Marilyn Manson
Devorar
Eu vou te tomar como
Se você fosse um grande gole de veneno
Eu sei que nunca deveria ter te colocado em minha boca
Mas agora te engolir é a única forma de descansar
Sua validade está terminando
E eu não estou tendo mais dores de cabeça
Porque isso não são suas lágrimas, é o meu sangue
Eu vou te amar, se você não me esquecer
Eu vou te amar, se eu não for só mais um para você
Eu sentia os batimentos do seu coração
Sei que vou sentir saudades disso se fechar meus olhos
Mas mesmo quando abertos te vejo por toda a parte
E quando realmente for você, não vou conseguir me conter
Eu sinto que vou explodir seu coração em pedaços
Eu vou te amar, se você não me esquecer
Eu vou te amar, se eu não for só mais um para você
Minha dor não é vergonha
Eu passaria por tudo de novo
Te engolir é a única forma de descansar
quinta-feira, 3 de março de 2011
Saúde
Nós vamos viajar juntos, nós vamos ver o mundo, deitar e
sonhar felizes, sentir o cheiro da garoa e da areia e das plantações. Perceber
só na tarde do dia seguinte todo o tempo que ficamos um com o outro, depois de
uma noite de luzes apagadas, traçando nossos planos para o futuro, conversando,
tocando, agarrando, sentindo. Não sei mais se minha lucidez está indo embora, por
outro lado, a mais crua e dura realidade. Não creio que plumas estejam saindo
em seus ombros, você não é real, a realidade me engana. Minhas vísceras ‘tão saltando
pra fora de mim. Eu tento não acreditar em demônios, mas esses vultos crescem cada
vez mais, cada vez mais entre as pessoas próximas, que pulam e festejam a minha
volta sem que eu possa ouvir uma única voz. Muito longe, todos longe demais. Como
pôde a sua luz virar sombra? Tornar seus caminhos em labirintos? O seu lugar, num
espaço vazio, oco, como um câncer me devorando?
Nós vamos ver as nuvens, nós vamos ver estrelas, deitar e
sonhar juntos, sentir o cheiro do café e do tabaco e da erva. Perceber só na
tarde do dia seguinte o círculo marrom carimbado no papel, depois de uma noite de
luzes acesas, traçando trilhas no meio da bagunça, compartilhando, conversando,
viajando. Preciso de uma fuga dessa sala escura. Se a luz não me mostrar um
caminho a seguir, que a fumaça me cegue de ver esse vão. Se esse vazio não
sumir de mim, vou morrer. Mesmo se não me matarem, eu vou morrer.
sábado, 30 de outubro de 2010
O Lugar Onde a Felicidade Existe
Ana subia a colina, correndo por entre flores de diversas cores. Seu pequeno vestidinho azul esvoaçava ao vento, seu cabelo loiro balançava com seus pulinhos. Lá em cima, ela correu em volta de uma árvore, dando gargalhadas, como se procurasse algo. Então a brisa ficou mais forte e sementes de Dente de Leão caíram da copa da árvore e ficaram suspensas no ar, no formato de uma pessoa.
O vento soou como se fosse uma voz humana, dizendo “ora ora, você me achou de novo!” Ana deu uma gargalhada infantil e sorriu para as sementes. Depois disse “é fácil encontrar você, Josh”.
Em um piscar de olhos, as sementes se espalharam e caíram no chão. Ana saiu correndo de novo, descendo a colina, e entrando na floresta. Chegou a uma clareira onde o chão era de rocha e pelo meio dela passava um riacho, repleto de flores cor de rosa boiando nele. Deu alguns passos leves, olhando em todas as direções, a busca de Josh. Mas não percebeu que mais uma vez a brisa tomou uma forma humana, dessa vez fazendo flutuar flores lilás, bem atrás dela.
Repentinamente, um colar de flores roxas caiu sobre Ana e fixou-se em seu pescoço. Ela deu um gritinho de susto, mas depois deu outra risada infantil. Ela se virou e abraçou Josh, mesmo ele não tendo um corpo de verdade. Ele também riu, junto com ela.
“Eu te amo Josh, não quero nunca te perder” ela disse, “Eu também te amo” ele respondeu. Então eles ficaram deitados na grama, a beira do riacho, olhando um para o outro e sorrindo. Agora, Josh era formado por folhas cor de laranja, como as do outono.
-São os seus pais te chamando. É hora de você voltar para o seu mundo.
-Eu não quero voltar para o meu mundo!
-Mas você tem. Você não pode ficar aqui para sempre.
-Mas Josh! Eu quero ficara aqui! Minha vida não faz sentido lá, ela pertence a aqui! Eu não quero viver lá, sem você!Você é a única coisa que eu amo!
-Mas Ana, você tem os seus pais...
-Eu só sou uma pessoa de verdade aqui! Lá eu não sou ninguém! Lá, minha vida não faz sentido! Meus pais não ligam para mim, eles estão sempre brigando... Por favor Josh, não me deixe ir... Eu te amo...
-Sinto muito, mas essa escolha não é minha... Eu também te amo...
Ana viu tudo ao seu redor ficando escuro. As folhas que formavam Josh passaram do laranja para o marrom, e depois se despedaçaram e se desintegraram. Ana foi sendo puxada para a escuridão.
Até que abriu seus olhos vagarosamente. Ela viu a parede de seu quarto, feito de blocos sem rejunte. Estava com frio. Seu pai devia ter acabado de chegar. Estava com voz de bêbado, gritando coisas do tipo “Sua vadia, como deixou o meu jantar esfriar?!” para a mãe de Ana. E de resposta, Ana só ouvia os choros dela.
Então Ana derramou uma lágrima, que caiu no travesseiro cuja fronha tinha estampa de singelas florezinhas. “Josh, por que você me deixou?”
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segunda-feira, 26 de julho de 2010
Luzes
Ela fechou a porta de ferro com força, fazendo ecoar um estalido metálico. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela jogou suas costas na porta e se apoiou nela com as palmas das mãos. Seus joelhos estavam meio flexionados, ela estava cansada e fraca. Ela chorava. Acabou escorregando e caindo no chão. Pôs seus dedos em meio a seus lábios enquanto soluçava e balançava a cabeça negativamente, apavorada. Sua angústia era tremenda que ela não conseguia pensar. Sua visão estava embaçada e ela soltava alguns gemidos de sofrimento. Seu coração palpitava desordenadamente, forte, porém lento. Ela tremia das mãos aos pés.
Reuniu forças para conseguir levantar. Ela tinha conseguido se controlar um pouco. Não soluçava nem gemia, porém ainda chorava. Seus passos eram vagarosos, ela mantinha as mãos na boca. Uma rajada de vento soprou em seu cabelo, ela pôs uma das mãos à frente como se tentasse se proteger dele. A água em seus olhos foi se dissipando e ela pôde distinguir alguns pontos pequenos de luzes amarelas. O barulho do vento e dos carros, vários metros abaixo dela, na rua, era até tranqüilizador. O cheiro era de fungos e umidade. Ela olhou para o horizonte. Vários prédios emitiam seus pequenos focos de luz. Não havia uma única estrela no céu, nem lua, mas mesmo assim era lindo. Lindo. Ela deu um longo e demorado soluço de choro. Não compreendia como existem coisas lindas no mundo... E que não podem ser aproveitadas.
Deu mais alguns passos vagarosos em direção ao parapeito da laje do prédio. Sentou-se no pequeno muro que separava o lugar onde ela estava do resto do mundo. Olhou para baixo. As luzes vermelhas e amarelas dos carros passavam rapidamente lá na rua. Seus olhos se desfocaram e ela voltou a chorar. Jogou-se no chão e abraçou seus joelhos. Gemia negando algo, sofria de angústia. Dava socos no chão acertando uma poça d’água, não acreditava na vida. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Seus gemidos eram longos e sofridos, como se ela fosse a pessoa mais apavorada do mundo.
Ainda chorando, ela apoiou uma das mãos no parapeito e outra no joelho, e se levantou, vagarosamente. Mais uma vez viu as luzes da cidade, e o vento bateu em seu cabelo. Ela colocou um dos pés na mureta, e depois deu um impulso para subir com o outro. Abriu os braços em forma de cruz. Ela ainda chorava, fazendo mais barulho do que antes. Suas lágrimas já não caíam na laje do prédio, mas sim seguiam uma longa queda até a calçada da fachada. O vento estava desordenado aquele dia. Fez a camisa dela esvoaçar e a tirou o equilíbrio. Em um movimento não calculado, ela conseguiu se reequilibrar. As luzes, os sons e o vento faziam aquele momento perfeito para acabar com todo o seu sofrimento.
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