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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Motivos para me matar e motivos para continuar vivo

Uma vez me disseram que pessoas que se sentem um peso para a sua família têm mais chances de cometer suicídio. Eu acho esse raciocínio um tanto quanto errado: essa frase dá a impressão de que esse sentimento de abandono é um motivo pelo qual as pessoas se matam. Mas, no meu caso, eu não preciso de motivos para me matar, pelo contrário, eu preciso de motivos para continuar vivo. Os  momentos nos quais eu planejei e tentei ativamente me matar não estavam acompanhados de nenhum sofrimento extremo. Mas eu gostaria de estar morto, mesmo que eu não esteja planejando me matar. E eu só não estou tentando me matar o tempo inteiro porque na maior parte do tempo eu tenho um motivo para querer estar vivo, que é não causar o sofrimento daqueles que eu amo. Mas se eu não tiver mais esse motivo (e isso já aconteceu antes), eu com certeza vou me matar. Não por ter motivos para me matar, e sim pela falta de motivos para querer continuar vivo, e provavelmente é isso que eu sentiria se eu me considerasse um peso para minha própria família.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Poesia horrível

Eu sinto falta de você
Eu sinto muita muita falta de você
Tudo bem lembrar que você me estrangulou
Lembrar dos sons das minhas costelas quebrando
Quando você me jogou no chão e me chutou
Deixando meu olho roxo e meu nariz sangrando
E isso tudo foi uma bosta
Mas eu me sinto pior agora
Prefiro ter um escroto arruinando meu dia
E jogando minha vida fora
A lidar com toda essa apatia
A me sentir vazio como eu estou agora

sábado, 20 de dezembro de 2014

Regresso



Olho, fixo, não sei para onde. Minha cabeça, ocupada por pensamentos vagos, que mal se pensam e já se esquecem. Pinga uma chuva cinza. Chove! Eu fujo de mim mesmo. Não quero me encontrar. Só vejo. As árvores, os postes, as casas. As crianças, com a bola, na rua. Eu poderia chegar mais rápido, mas não há motivo. Afinal, que motivos há na vida? Na existência? No tudo? Nada. É tudo luta, é tudo luto. Hoje cedo, meu irmão não me fez uma videochamada. Não me falou do acampamento, dos planos, da guerra. Eu devia suspeitar. Eu suspeitei. Mas não queria esperar o pior. Tive medo, e torci pelo esquecimento, pela falta de tempo, pelo celular sem bateria, como torcemos toda vez que não recebemos notícias. Mas sempre há aquela angústia, que tinge nossas almas de um amargo desespero, que não passa até não sabermos o que de fato aconteceu. Sai de casa em silêncio. Foi um dia silencioso. Um dia inteiro olhando para o celular. Mas não foi do celular que veio a notícia. Seu nome estava escrito na televisão, logo após uma notícia de um ataque surpresa que sofrêramos, em uma lista de vítimas.
Agora, volto pra casa. Minha mãe já deve estar sabendo. Contudo, a tela do meu Smartphone continua vazia. Tudo muito silencioso. O que direi? Como estará ela? Somos só nós dois. Como será agora? E depois? E o resto? Ainda chove, vou a pé, parece que não chego nunca. Quero chegar logo, mas a cada passo pensando na minha mãe parece que o tempo passa mais devagar: Será que ela já sabe? Qual será a reação dela? O que eu vou dizer? Essa está sendo a mais longa volta para casa que eu já fiz na vida.
Abro a porta, tudo estático. Deixo de lado meu guarda-chuva, minha bota, meu silêncio. A passos pesados vou à cozinha, ela de costas para mim, apoiando-se na pia. A pia, limpa. Vazia. Quis dizer, mas minha garganta estava seca. Suspiro, alto, e ela se vira, com uma lágrima e aquele olhar eterno. Olho para o nada, penso em nada, me sinto um nada. Me aproximo, nos olhamos. Lágrimas, um abraço.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Várias Pessoas, uma Única Existência

João era perfeitamente medíocre. Havia momentos em que tinha vergonha de si mesmo. Queria esconder quem ele realmente era. O seu passado vergonhoso, aquela mania estúpida, aquele medo irracional, aquela frustrante incapacidade de fazer aquela tarefa com a qual todos tinham facilidade. Tinha vergonha de seu pai, que não chegara a conhecer. Tinha vergonha de sua mãe, que de tão simples, mal sabia escrever. Tinha vergonha de si mesmo, por todas as coisas que seus pais deveriam ter-lhe ensinado quando era criança e que lhe faziam falta como adulto.

Antônio tinha o pé torto. Era gago. Vesgo. Não sabia tocar violão. Não falava inglês. Suas acnes lhe incomodavam. Queria ser mais baixo, pois acreditava que sua imensa estatura era responsável tanto pela sua aparência desengonçada quanto pelo fato dele ser desastrado.

Francisco tinha medo de fazer novas amizades. De que o achassem estranho. Tinha medo de falar besteira e passar vergonha. De falar alto demais e incomodar as pessoas. De acabar gargalhando e todos perceberem quão esquisita era a sua risada. Tinha vergonha de seu mau hálito. Simplesmente não conseguia conversar, pois as palavras certas não lhe vinham à boca, e suas tentativas de diálogo se resumiam a momentos de intenso e inoportuno silêncio.

Luiz não tinha namoradas. Não conseguia se aproximar de garotas. Não sabia o que falar. Muitas o achavam feio. Outras não gostavam de sua voz. Ele não sabia beijar direito. A garota com quem ele perdeu a virgindade contou para as amigas que ele era sem-graça, ruim de cama.

Quando fez dezenove anos, Paulo tentou arrumar um emprego. Era vendedor de uma loja de móveis. Quanto mais ele vendesse, mais dinheiro conseguiria. Mas no final, ele nunca conseguiu muito com isso. Seus colegas de serviço eram bem melhores do que ele. A agonia que tinham por vender mais do que os outros acabou fazendo com que Marcos ficasse para trás e fosse rebaixado para a área de assistência técnica da loja.

A aposentadoria da mãe de Manoel mal dava para comprar os remédios que ela precisava. Ela acabou ficando muito doente. Ele a levou à cidade grande e procurou um médico. Ela precisou ser internada. Mas a fila de espera para receber a cirurgia era tão grande que ela faleceu antes de ser tratada. Ele estava sozinho. Sem ninguém para ampara-lo, sofrendo as constantes punições e humilhações da vida. Até que encontrou Ana.

Márcia era mediocramente perfeita. Havia momentos em que tinha orgulho de si mesma. Queria que o mundo a visse da forma que ela queria. O seu futuro brilhante, as suas nobres virtudes, as suas iniciativas proativas, aquela invejável disposição de fazer as tarefas das quais todos tinham preguiça. Tinha orgulho de seu pai, que mesmo sendo divorciado e morando longe, ajudava financeiramente a filha. Tinha orgulho de sua mãe, que mesmo sendo simples, sempre fez de tudo para ver Joana bem. Tinha orgulho de si mesma, por todas as coisas que seus pais deixaram de lhe ensinar ela conseguiu aprender com a vida.

Francisca era encantadora. Tinha a voz bonita. Olhos verdes. Cantava bem. Conseguia se expressar bem. Seu olhar era profundo. Gostava de ser alta, pois chamava a atenção dos rapazes para o seu belo corpo.

Adriana tinha amigos. Eram estranhos, mas eram amigos. Falavam besteiras juntos, passavam vergonha juntos. Falavam alto e atazanavam uns aos outros. Quando estavam reunidos, gargalhavam tanto que até perdiam a voz. Eles simplesmente se davam bem. Não precisavam de uma ocasião especial para se encontrar, nem de um assunto para conversarem. Falavam sobre trivialidades e se sentiam bem com isso.

Antônia não tinha namorados. Não queria saber de compromissos, preferia aproveitar a vida. Alguns rapazes a pediram em namoro, mas ela não queria nada sério. Ela não gostava de rotular seus relacionamentos com palavras como “amigo”, “ficante” ou “namorado”. Ela gostava mesmo era de ter companhia e de poder fazer o que quisesse quando quisesse e com quem quisesse.

Quando fez dezenove anos, Sandra tentou arrumar um emprego. Era vendedora de uma loja de eletrônicos. Quanto mais ela vendesse, mais dinheiro conseguiria. Mas no final, ela nunca conseguiu muito com isso. Seus colegas de serviço eram melhores do que ela. Mas por outro lado, ela lidava bem com as pessoas, e isso não passou despercebido aos olhos de seu chefe. Patrícia foi promovida para a área de assistência técnica da loja.

A aposentadoria da mãe de Vera mal dava para comprar os próprios remédios, e por isso ela ficou muito doente. Ela a levou à cidade grande e procurou um médico. A mãe precisou ser internada. Mas a fila de espera para receber a cirurgia era tão grande que ela faleceu antes de ser tratada.

Josefa orava a Deus por sua mãe, desejando que ela estivesse em um lugar melhor, descansando, livre de todos os sofrimentos terrenos. Mas afinal, a jovem estava sozinha. Sozinha... Até que encontrou Carlos.

Eles formavam um casal perfeito. Completavam um ao outro. Logo no início do relacionamento já tinham planos. Iriam se casar, formar uma família, ter filhos. Trabalhar, juntar dinheiro, dar festas e fazer viagens. Juntos, iriam observar as nuvens e as estrelas. Sentariam lado a lado na praia, escutando as ondas. Viajariam pelas estradas do país, com as janelas do carro escancaradas e a música no último volume. Iriam passear no parque de mãos dadas. Iriam tomar café juntos, logo que acordassem, antes mesmo de tirar os pijamas. Eles seriam felizes. Juntos.

Não. Eles não foram felizes. Marcelo teve medo de dar continuidade ao relacionamento. Imaginava que, uma hora, tudo iria dar errado. Já passava pela sua cabeça a ideia de que Larissa mantinha casos com os seus antigos amigos. Tudo pioraria depois que casassem. Ricardo estava decidido a terminar com esse relacionamento, e assim o fez.

Os dois sofreram muito depois de romper.

As últimas palavras de Maria, antes de morrer, foram “Eu deixo a vida me levar. A frustração é o único efeito de tentar controlar o próprio destino”. Ela foi atropelada por um ônibus. Quando Roberto descobriu, afundou-se em remorso. “Devia ter aproveitado enquanto ela estava viva”, pensou. Deixou de amar e ser amado por praticamente motivo nenhum. Sequer teve filhos.

José teve uma vida medíocre até que a velhice. Uma gripe o levou embora. As suas últimas palavras foram “Não tive nada na vida, mas aproveitei a vida que consegui ter”.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Autopsicometeorologia

Debruçado no batente da janela, vendo o céu. Acinzentado, cheio de nuvens escuras. Parecia que ia chover. Não gosto de dias assim.

Eu conheço ela desde que tínhamos 9 anos. Carolina era filha de uma amiga de minha mãe. De início, eu não queria falar com ela. Ela era estranha. Minha mãe queria que eu fizesse companhia a ela e fosse seu amigo por que ela estava com leucemia. É triste, mas é verdade, uma garota de 9 anos com leucemia. Quando eu fui visitá-la pela primeira vez, as nuvens estavam escuras e altas como hoje, e chovia.

Quando Carolina teve alta e saiu do hospital, a mãe dela matriculou-a na escola onde eu estudava. Afinal, eu era seu único amigo. Ela era uma garota estranha, careca, mas com o passar dos meses foi se tornando a minha melhor amiga. Eu ficava o tempo inteiro conversando com ela, todos os dias.

Um dia, quando tínhamos 11 anos, estávamos brincando na quadra da escola. Eu bagunçava o cabelo dela, que já tinha crescido, e ela pulava em cima de mim para tentar bater na minha cabeça, mas não conseguia por que ela era muito baixinha. Em uma das suas tentativas de tentar pular em mim, ela escorregou numa poça de água da chuva e acabou batendo a cabeça no chão. Ela acabou tendo que ir para o hospital. Ela ficou internada e depois foi diagnosticado que sua leucemia havia voltado.

Foi um tempo difícil. Eu a visitava quase todos os dias no hospital. Lembro-me da primeira vez. Entrei no quarto dela e uma enfermeira me disse para pôr a máscara, pois minha amiga estava praticamente sem imunidade. Assim o fiz. Era um dia frio, e quando a enfermeira saiu do quarto, deixou a janela aberta. Eu fui fechá-la e a água que estava no trilho acabou esguichando no rosto de Carolina, do lado de seu olho. Eu fui enxugá-la com meu dedo. Passei minha mão no rosto dela. Ela fixou os olhos dela nos meus. Ela podia estar doente, careca e pálida, mas para mim ela parecia tão linda... Foi naquele momento que eu descobri que a amava de verdade.

Ela acabou pegando uma gripe no hospital enquanto era tratada. E como sua imunidade estava baixa e ela estava com problemas respiratórios, ela foi encaminhada para a UTI. Passou-se uma semana e ela ainda estava internada sem poder receber nenhuma visita. Toda a família dela já estava sabendo e eu já não tinha mais certeza se veria ela viva outra vez. Chorei muito. Foram dias angustiantes. Minha vida parecia ter parado por causa da situação dela. Mas ela acabou tendo alta da UTI e voltou ao tratamento normal da Leucemia. E depois, se recuperou da Leucemia também.

Quando ela voltou às atividades normais, estávamos mais próximos do que nunca. E em questão de alguns meses, estávamos namorando firme. Durante algum tempo ela foi tudo o que eu queria na minha vida. Seu sorriso me alegrava mais do que qualquer coisa. Mas depois de uns 3 anos, parecia que nosso amor tinha esfriado. Brigávamos por tudo. Eu não sentia mais a mesma atração por ela. Acabamos terminando nosso namoro. Ela ficou muito infeliz. Ela só queria saber de mim. E como estávamos na mesma sala, era uma tortura para ela me ver todos os dias e não me ter. E eu acabei sofrendo com isso também. Nosso namoro não tinha dado certo, mas eu ainda me importava com ela. No fundo, eu ainda a amava. Ela tentou voltar comigo, mas não deu certo.

Hoje, nós estamos com 17 anos. A leucemia a atacou outra vez e ela está no hospital. Eu fui visitá-la, mas acho que só a fiz se sentir mal pela nossa situação. Nós não conseguimos viver juntos, mas também é uma tortura ficarmos longe um do outro. Só sei que ela se sentiu mal, além de por causa da doença, por minha causa.

Depois que ela adoeceu, tudo ficou escuro, literalmente. Eu não paro de pensar nela, queria fazer alguma coisa para ocupar minha mente, mas tenho medo de que chova e eu me molhe. Fico olhando o relógio. Esperando receber alguma notícia dela. Tic. Tac. Tic. Tac. Mas nada. Viro minha cabeça para olhar pela janela, ver se tem algo acontecendo lá fora. Nada além das nuvens se movimentando. O telefone toca. Me levanto e atendo. A pessoa do outro lado da linha tem uma voz melancólica. Carolina morreu. Não. Coloco o telefone de volta no gancho. Não. Não pode ser. Minha cabeça gira. Não, isso não pode ter acontecido. Quero fazer alguma coisa, mas não tenho a mínima ideia do quê. Carolina não pode ter morrido. Meu corpo está mole. Sento-me de volta na cadeira. Coloco as minhas mãos na cabeça. Estou desesperando. Não consigo entender como Carolina pode ter morrido. Não consigo entender a morte. Meus olhos começam a se encher de lágrimas. Não, isso não é possível. Não é possível. Olho para fora para tentar me distrair, e, para acompanhar minhas lágrimas, sinto uma única gota de água caindo do céu cinzento diretamente no meu rosto, do lado do meu olho.
 
 
 

domingo, 21 de novembro de 2010

Não dá Mais

-Amor, o que significa isso? – Ela disse, levantando uma garrafa vazia. Seu rosto era lindo, delicado, ela sempre me cativou.

Eu fingi que não sabia do que ela estava falando.

-Querido... Por favor... – Sua boca delicada sussurrava as palavras com dor. Ela parecia não gostar daquilo, e isso me fazia sofrer. Eu não gostava de vê-la com dor. Eu a amava mais que tudo no mundo. Ela continuou falando:
-Você se lembra daquele fim de semana que passamos só nos dois, juntos? Naquela cabana na praia, sem ninguém por perto?
-Sim... Aquela cabana que não tinha água nem luz.
-Mas a falta de água ou luz não tornou o nosso fim de semana ruim, pelo contrário... Foi muito bom, não se lembra? Nós apreciávamos os momentos simples... Eu ficava entre os seus braços, abraçando a sua barriga... E nós ficávamos vendo o pôr-do-sol...
-Sim. Foi muito gostoso mesmo... A água da praia era clara...
-Azul claro... E nós ficávamos vendo os peixes passando entre nossos pés...
-E foi em um momento desses que eu te beijei.
-É verdade... Eu amei aquele beijo... Doce, suave... Não havia nada que eu trocaria por estar lá.
-Eu também gostei daquele momento. Você estava sorrindo, e ver você sorrir é o meu maior prazer. Aquele fim de semana foi como um filme...
-Não. Como um filme não. Filmes não expressariam tudo o que nós sentimos um pelo outro. E filmes têm finais, às vezes felizes, às vezes tristes. E eu não quero que nosso relacionamento tenha um final... Eu só quero viver ao seu lado.
-Amor, você é linda. Eu te amo...
-Eu também te amo, querido, mas...
-Mas o quê? Você não está satisfeita?

Ela franziu as sobrancelhas. Parecia que ela ia chorar. Eu peguei no rosto dela com as minhas duas mãos. Os olhos dela estavam apertados e úmidos ao olhar para mim. Parecia que ela estava tímida, que queria se afastar de mim.
-É que nosso relacionamento tem se tornado muito difícil.

Ao ouvir suas palavras, minha cabeça doeu. Ela já estava doendo, mas ficou pior ainda. E eu também estava com tontura. Ela ergueu novamente a garrafa vazia e olhou para mim, mordendo os lábios, com o braço que não pegava a garrafa segurando o cotovelo oposto. Seus olhos ficavam cada vez mais úmidos.

-Você se lembra o que fez ontem à noite?
-Amor, nós já brigamos tanto por causa disso... Deixa isso pra lá...
-Eu não posso deixar isso pra lá – Sua voz era de choro – Eu não consigo deixar isso pra lá. Ontem a note você veio com os seus amigos para o nosso apartamento. Você bebeu com eles até perder o controle. Você não sabe como eu sofro de ver você urinando no guardarroupa, falando que não me conhece, caindo no chão de bêbado.
-Mas, querida... Eu não posso deixar os meus amigos...
-Verdade, mas você não precisava beber. Você tem sugado a minha felicidade ficando bêbado... Ontem à noite mesmo, você saiu com os seus colegas e ficou encoxando uma mulher que estava parada no ponto de ônibus... Você sabe como eu sofro por tudo isso?
-Sim, amor, mas se eu não beber, o que eu vou fazer com os meus amigos? Eles só fazem isso... Eu vou ficar sóbrio e só assistir a eles loucos?
-Mas eu assisto a você louco todos os fins de semana... E eu te amo, mais do que você ama aos seus colegas... E isso me faz muito mal – Ela disse, derrubando uma lágrima que escorregou por todo o seu rosto e caiu no chão. Eu queria morrer. Eu estava a fazendo sofrer, muito, e isso me flagelava mais do que qualquer coisa. Mas eu também não podia mudar o meu eu por ela. Eu sou assim. E eu quero ser assim.
-Querida, sinto muito... Mas eu não posso me mudar. E eu não vou deixar os meus amigos.
-Eu entendo você... Mas acho que você não entende o meu sofrimento.
-E o que você quer que aconteça, então?
-Sinto muito, mas não dá mais. Eu sofro muito de ficar longe de você, mas tenho sofrido mais ainda por vê-lo fazer tudo o que você tem feito. Eu acho que os tempos de felicidade do nosso relacionamento já passaram, assim como o nosso fim de semana naquela cabana. Eu não quero mais ficar ao seu lado.

Ela começou a chorar alto.
-Querida, por favor, eu faço o que você quiser...
-Você vai mudar o seu comportamento a respeito do álcool? – Ela perguntou, entre soluços.
-Vou tentar...
-Sinto muito, mas só tentar não basta. Eu precisava que você mudasse. Não dá mais para continuarmos juntos assim.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Uma pedra sobre mim

 Meu trabalho de literatura sobre vanguardas.

Uma pedra sobre mim

chuva
o céu carregado
de nuvens escuras
como sempre
o dia cinzento
todos de preto
lágrimas nas faces
tudo isso por mim

por que eu achei
 o que procurava

uma boca retorcida em agonia
um desesperado de joelhos no chão
olhos cerrados repletos de lágrimas
tudo isso por mim

por que eu achei
o que procurava

estático
pálido
gélido
uma pedra sobre mim
escrito descanse em paz

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Luzes


Ela fechou a porta de ferro com força, fazendo ecoar um estalido metálico. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela jogou suas costas na porta e se apoiou nela com as palmas das mãos. Seus joelhos estavam meio flexionados, ela estava cansada e fraca. Ela chorava. Acabou escorregando e caindo no chão. Pôs seus dedos em meio a seus lábios enquanto soluçava e balançava a cabeça negativamente, apavorada. Sua angústia era tremenda que ela não conseguia pensar. Sua visão estava embaçada e ela soltava alguns gemidos de sofrimento. Seu coração palpitava desordenadamente, forte, porém lento. Ela tremia das mãos aos pés.

Reuniu forças para conseguir levantar. Ela tinha conseguido se controlar um pouco. Não soluçava nem gemia, porém ainda chorava. Seus passos eram vagarosos, ela mantinha as mãos na boca. Uma rajada de vento soprou em seu cabelo, ela pôs uma das mãos à frente como se tentasse se proteger dele. A água em seus olhos foi se dissipando e ela pôde distinguir alguns pontos pequenos de luzes amarelas. O barulho do vento e dos carros, vários metros abaixo dela, na rua, era até tranqüilizador. O cheiro era de fungos e umidade. Ela olhou para o horizonte. Vários prédios emitiam seus pequenos focos de luz. Não havia uma única estrela no céu, nem lua, mas mesmo assim era lindo. Lindo. Ela deu um longo e demorado soluço de choro. Não compreendia como existem coisas lindas no mundo... E que não podem ser aproveitadas.

Deu mais alguns passos vagarosos em direção ao parapeito da laje do prédio. Sentou-se no pequeno muro que separava o lugar onde ela estava do resto do mundo. Olhou para baixo. As luzes vermelhas e amarelas dos carros passavam rapidamente lá na rua. Seus olhos se desfocaram e ela voltou a chorar. Jogou-se no chão e abraçou seus joelhos. Gemia negando algo, sofria de angústia. Dava socos no chão acertando uma poça d’água, não acreditava na vida. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Seus gemidos eram longos e sofridos, como se ela fosse a pessoa mais apavorada do mundo.

Ainda chorando, ela apoiou uma das mãos no parapeito e outra no joelho, e se levantou, vagarosamente. Mais uma vez viu as luzes da cidade, e o vento bateu em seu cabelo. Ela colocou um dos pés na mureta, e depois deu um impulso para subir com o outro. Abriu os braços em forma de cruz. Ela ainda chorava, fazendo mais barulho do que antes. Suas lágrimas já não caíam na laje do prédio, mas sim seguiam uma longa queda até a calçada da fachada. O vento estava desordenado aquele dia. Fez a camisa dela esvoaçar e a tirou o equilíbrio. Em um movimento não calculado, ela conseguiu se reequilibrar. As luzes, os sons e o vento faziam aquele momento perfeito para acabar com todo o seu sofrimento.

sábado, 12 de junho de 2010

Você Deu Errado

Uma criatura humanóide. Uma cabeça, dois braços e duas pernas. Talvez a criação de um cientista, ou um sobrevivente de uma explosão nuclear, ou a tentativa de pais terem um filho.

Uma criatura deformada. Com as costas curvadas, os ossos da espinha aparentes. As costelas saltando para fora da barriga, as pernas e os braços finos demais. Um lado do corpo maior que o outro, fazendo mancar.

Essa criatura é você.

Criado para uma finalidade. Tentaram obter um bom resultado, mas acabaram conseguindo você. Você não é como esperavam. Trabalharam duro para fazer algo perfeito. Mas deu errado. Você deu errado.

Das outras vezes, obtiveram humanóides perfeitos, eretos, simétricos, lisos, do tamanho certo. Ao te produzirem, fizeram tudo como deveria ser. Mas por uma questão de azar, você deu errado.

Você não pode fazer nada. Está fora da sua capacidade, que já é bem limitada, mudar você mesmo para melhor. Eles já tentaram te consertar. Mas não deu certo. Você não tem conserto. Você já foi criado assim. Não há como te mudar. Você deu errado.

Você é uma decepção. Um fardo. Você é um peso para os seus criadores. Eles não podem te deixar junto com os humanóides perfeitos. E não podem te jogar no lixo. Eles não conseguem achar nenhuma utilidade para você. Não sabem o que fazer com você. Você só ocupa espaço, e não ajuda em nada. Queriam voltar atrás, te refazer, ou então te descartar. Mas agora já não dá mais. Por que você é responsabilidade deles. E você deu errado.

Você não tem utilidade para ninguém. Você é um peso. Mas os seus criadores te criaram. Não te podem descartar, mesmo que você só traga problemas para eles. E afinal, você continua sendo uma aberração. Um fardo. Você deu errado.

E isso vai ser sempre assim. Nunca vai mudar. Você já nasceu assim. E vai ser assim para o resto da sua vida. Da sua vida fútil. Observando os humanóides perfeitos, enquanto se contenta em ser uma aberração. Um problema na vida dos seus criadores. Uma aberração que deu errado. Você deu errado.

O que você é mesmo? Talvez a criação de um cientista, ou um sobrevivente de uma explosão nuclear, ou a tentativa de pais terem um filho.
A tentativa de pais educarem um filho. Que deu errado.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Nem por um Momento

Fazia tempo que eu não falava com Ela. Lembro-me de quando passávamos quase todos os dias juntos. Foi uma época muito boa. Pena que chegou ao fim. Eu ficava tardes inteiras com ela, a afagando, a abraçando, a beijando. Ainda me lembro do calor de seu corpo, o cheiro de seus cabelos, me lembro da sua voz fina e delicada, sussurrando palavras excitantes em meus ouvidos. Lembro-me das tardes que passávamos juntos, deitados na relva dos pastos, quando ainda íamos juntos para a fazenda dos pais dela. A última vez que fizemos isso, o vento soprava em nossos cabelos e os pássaros assoviavam. O céu estava azul com poucas nuvens. Eu peguei um ramo de girassol de um tufo e entreguei a ela.

Bons tempos. Às vezes sinto saudades dela. A forma como ela pegava em minha barriga, como chupava os meus lábios. Lembro-me de seu corpo perfeito. Muitos não achavam, mas eu achava. Ela era inteira perfeita para mim. Não era cheia de qualidades, mas era ela com quem eu queria passar a vida para escrever a minha história de amor. Ela somente era tudo o que eu queria.

Pena que não nos vemos mais. Cansei-me dela. Os hábitos dela me irritavam. Brigávamos muito. Ela era ciumenta, nunca me deixava sair sem ela. Eu estava perdendo os amigos, a família. Eu não estava mais vivendo por mim mesmo, estava vivendo por ela. Ela se entregava totalmente a mim, mas eu não queria isso. Eu queria que fôssemos independentes, que cada um fizesse o que quisesse. E não era isso que estava acontecendo. Estávamos presos um ao outro. Como se tivessem passado cola Super Bonder em nós. Isso me torturava. Eu tive que deixá-la, para o bem de nós dois.

Desde lá, até que tenho passado bem. Já arranjei outras garotas. Só que, nenhuma delas eu amei tanto quanto ela. Voltei a sair quando eu quero e com quem eu quero, sem estar preso a ela fisicamente. Mas continuo preso a ela em pensamentos: Onde quer que eu vá, vejo algo que me lembra dela. Lembro das coisas boas que fizemos juntos, dos sentimentos que tivemos um pelo outro, das nossas transas inesquecíveis. Mas não suporto o sentimento de falta de liberdade de quando eu ainda estava com ela. A total dependência que tínhamos um do outro. Isso era terrível. Tenho certeza que estamos melhor agora.

Ontem passei pela primeira vez na frente da casa dela, desde que nos separamos, e a avistei. Seus olhos se arregalaram e brilharam quando ela me viu. Ela estava debruçada sobre a janela com um vaso azul entre os braços. E dentro do vaso, estava o girassol da última vez que nos vimos. É lógico que, com o tempo, ele murchou. Mas ela ainda o guardava. Eu tentei passar reto. Ignorá-la. Mas não consegui. Perguntei por que ela ainda guardava aquela flor.

“Ela praticamente morreu, mas é tão importante para mim, me lembra de tantas coisas boas, que eu não parei de tentar revivê-la nem por um momento”