"Ele tem o tamanho de olhos grandes e redondos de tamanhos diferentes ambos compridos. O maior parece que ele sorri, mas talvez para ele não falar e não para não parecer triste. Ele imita o meu, ao teto faz com que ele faça tudo o que eu faço. Chego a tocar nele, mas não uma parede.”

— Alguém

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Regresso


Olho, fixo, não sei para onde. Minha cabeça, ocupada por pensamentos vagos, que mal se pensam e já se esquecem. Pinga uma chuva cinza. Chove! Eu fujo de mim mesmo. Não quero me encontrar. Só vejo. As árvores, os postes, as casas. As crianças, com a bola, na rua. Eu poderia chegar mais rápido, mas não há motivo. Afinal, que motivos há na vida? Na existência? No tudo? Nada. É tudo luta, é tudo luto. Hoje cedo, meu irmão não me fez uma videochamada. Não me falou do acampamento, dos planos, da guerra. Eu devia suspeitar. Eu suspeitei. Mas não queria esperar o pior. Tive medo, e torci pelo esquecimento, pela falta de tempo, pelo celular sem bateria, como torcemos toda vez que não recebemos notícias. Mas sempre há aquela angústia, que tinge nossas almas de um amargo desespero, que não passa até não sabermos o que fato aconteceu. Sai de casa em silêncio. Foi um dia silencioso. Um dia inteiro olhando para o celular. Mas não foi do celular que veio a notícia. Seu nome estava escrito na televisão, logo após uma notícia de um ataque surpresa que sofrêramos, em uma lista de mortos.
Agora, volto pra casa. Minha mãe já deve estar sabendo. Contudo, a tela do meu aparelho continua em branco. Tudo muito silencioso. O que direi? Como estará ela? Somos só nós dois. Como será agora? E depois? E o resto? Ainda chove, vou a pé, não quero chegar.
Abro a porta, silêncio. Deixo de lado meu guarda-chuva, minha bota, meu silêncio. A passos pesados vou à cozinha, ela de costas para mim, apoiando-se na pia. A pia, limpa. Vazia. Quis dizer, mas minha garganta está seca. Suspiro, alto, e ela de costas. Olho para o nada, penso em nada, me sinto um nada. Me aproximo, nos olhamos. Lágrimas, um abraço.