terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Várias Pessoas, uma Única Existência

João era perfeitamente medíocre. Havia momentos em que tinha vergonha de si mesmo. Queria esconder quem ele realmente era. O seu passado vergonhoso, aquela mania estúpida, aquele medo irracional, aquela frustrante incapacidade de fazer aquela tarefa com a qual todos tinham facilidade. Tinha vergonha de seu pai, que não chegara a conhecer. Tinha vergonha de sua mãe, que de tão simples, mal sabia escrever. Tinha vergonha de si mesmo, por todas as coisas que seus pais deveriam ter-lhe ensinado quando era criança e que lhe faziam falta como adulto.

Antônio tinha o pé torto. Era gago. Vesgo. Não sabia tocar violão. Não falava inglês. Suas acnes lhe incomodavam. Queria ser mais baixo, pois acreditava que sua imensa estatura era responsável tanto pela sua aparência desengonçada quanto pelo fato dele ser desastrado.

Francisco tinha medo de fazer novas amizades. De que o achassem estranho. Tinha medo de falar besteira e passar vergonha. De falar alto demais e incomodar as pessoas. De acabar gargalhando e todos perceberem quão esquisita era a sua risada. Tinha vergonha de seu mau hálito. Simplesmente não conseguia conversar, pois as palavras certas não lhe vinham à boca, e suas tentativas de diálogo se resumiam a momentos de intenso e inoportuno silêncio.

Luiz não tinha namoradas. Não conseguia se aproximar de garotas. Não sabia o que falar. Muitas o achavam feio. Outras não gostavam de sua voz. Ele não sabia beijar direito. A garota com quem ele perdeu a virgindade contou para as amigas que ele era sem-graça, ruim de cama.

Quando fez dezenove anos, Paulo tentou arrumar um emprego. Era vendedor de uma loja de móveis. Quanto mais ele vendesse, mais dinheiro conseguiria. Mas no final, ele nunca conseguiu muito com isso. Seus colegas de serviço eram bem melhores do que ele. A agonia que tinham por vender mais do que os outros acabou fazendo com que Marcos ficasse para trás e fosse rebaixado para a área de assistência técnica da loja.

A aposentadoria da mãe de Manoel mal dava para comprar os remédios que ela precisava. Ela acabou ficando muito doente. Ele a levou à cidade grande e procurou um médico. Ela precisou ser internada. Mas a fila de espera para receber a cirurgia era tão grande que ela faleceu antes de ser tratada. Ele estava sozinho. Sem ninguém para ampara-lo, sofrendo as constantes punições e humilhações da vida. Até que encontrou Ana.

Márcia era mediocramente perfeita. Havia momentos em que tinha orgulho de si mesma. Queria que o mundo a visse da forma que ela queria. O seu futuro brilhante, as suas nobres virtudes, as suas iniciativas proativas, aquela invejável disposição de fazer as tarefas das quais todos tinham preguiça. Tinha orgulho de seu pai, que mesmo sendo divorciado e morando longe, ajudava financeiramente a filha. Tinha orgulho de sua mãe, que mesmo sendo simples, sempre fez de tudo para ver Joana bem. Tinha orgulho de si mesma, por todas as coisas que seus pais deixaram de lhe ensinar ela conseguiu aprender com a vida.

Francisca era encantadora. Tinha a voz bonita. Olhos verdes. Cantava bem. Conseguia se expressar bem. Seu olhar era profundo. Gostava de ser alta, pois chamava a atenção dos rapazes para o seu belo corpo.

Adriana tinha amigos. Eram estranhos, mas eram amigos. Falavam besteiras juntos, passavam vergonha juntos. Falavam alto e atazanavam uns aos outros. Quando estavam reunidos, gargalhavam tanto que até perdiam a voz. Eles simplesmente se davam bem. Não precisavam de uma ocasião especial para se encontrar, nem de um assunto para conversarem. Falavam sobre trivialidades e se sentiam bem com isso.

Antônia não tinha namorados. Não queria saber de compromissos, preferia aproveitar a vida. Alguns rapazes a pediram em namoro, mas ela não queria nada sério. Ela não gostava de rotular seus relacionamentos com palavras como “amigo”, “ficante” ou “namorado”. Ela gostava mesmo era de ter companhia e de poder fazer o que quisesse quando quisesse e com quem quisesse.

Quando fez dezenove anos, Sandra tentou arrumar um emprego. Era vendedora de uma loja de eletrônicos. Quanto mais ela vendesse, mais dinheiro conseguiria. Mas no final, ela nunca conseguiu muito com isso. Seus colegas de serviço eram melhores do que ela. Mas por outro lado, ela lidava bem com as pessoas, e isso não passou despercebido aos olhos de seu chefe. Patrícia foi promovida para a área de assistência técnica da loja.

A aposentadoria da mãe de Vera mal dava para comprar os próprios remédios, e por isso ela ficou muito doente. Ela a levou à cidade grande e procurou um médico. A mãe precisou ser internada. Mas a fila de espera para receber a cirurgia era tão grande que ela faleceu antes de ser tratada.

Josefa orava a Deus por sua mãe, desejando que ela estivesse em um lugar melhor, descansando, livre de todos os sofrimentos terrenos. Mas afinal, a jovem estava sozinha. Sozinha... Até que encontrou Carlos.

Eles formavam um casal perfeito. Completavam um ao outro. Logo no início do relacionamento já tinham planos. Iriam se casar, formar uma família, ter filhos. Trabalhar, juntar dinheiro, dar festas e fazer viagens. Juntos, iriam observar as nuvens e as estrelas. Sentariam lado a lado na praia, escutando as ondas. Viajariam pelas estradas do país, com as janelas do carro escancaradas e a música no último volume. Iriam passear no parque de mãos dadas. Iriam tomar café juntos, logo que acordassem, antes mesmo de tirar os pijamas. Eles seriam felizes. Juntos.

Não. Eles não foram felizes. Marcelo teve medo de dar continuidade ao relacionamento. Imaginava que, uma hora, tudo iria dar errado. Já passava pela sua cabeça a ideia de que Larissa mantinha casos com os seus antigos amigos. Tudo pioraria depois que casassem. Ricardo estava decidido a terminar com esse relacionamento, e assim o fez.

Os dois sofreram muito depois de romper.

As últimas palavras de Maria, antes de morrer, foram “Eu deixo a vida me levar. A frustração é o único efeito de tentar controlar o próprio destino”. Ela foi atropelada por um ônibus. Quando Roberto descobriu, afundou-se em remorso. “Devia ter aproveitado enquanto ela estava viva”, pensou. Deixou de amar e ser amado por praticamente motivo nenhum. Sequer teve filhos.

José teve uma vida medíocre até que a velhice. Uma gripe o levou embora. As suas últimas palavras foram “Não tive nada na vida, mas aproveitei a vida que consegui ter”.

sábado, 8 de outubro de 2011

Sempre Há Tempo

Ele levantou os trapos que o cobriam e se levantou da cama. Sua roupa larga estava começando a ficar suja, ele não a removia nunca. Deu alguns passos preguiçosos, tomando cuidado para não tropeçar com seus pés descalços. Pegou uma jarra na despensa, a destampou, colocou um pouco de água em uma caneca de madeira e bebeu. Tentou erguer sua postura corcunda espreguiçando e coçando a cabeça, enquanto olhava para a floresta pela janela. Tudo estava calmo e deprimente, como sempre esteve em sua vida solitária. Alguns pássaros voavam e o vento balançava as árvores. Tudo em seu lugar, exceto por aquela mancha azul, bem distante, se aproximando aos poucos. Ele esfregou os olhos. Estava com preguiça de acreditar no que vira. Não queria passar por tudo de novo. Voltou para a cama, e quis acreditar que dormia.

"Ré, eu sei que você está aí!" ela gritava enquanto dava murros na porta, "Me deixa entrar!". Ele só se virou na cama e tentou cobrir a cabeça com o cobertor. Ela, sem obter resposta, começou a chutar a porta. Emaré, ao ouvir o som de madeira estralando e com medo da porta ceder, se levantou. "Se você não abrir para mim, eu vou derru..." Ela dizia, antes dele silenciosamente aparecer na sua frente, com a porta já aberta. Suas olheiras profundas e seu cabelo desarrumado só intensificavam sua expressão de desgosto.

"Boa tarde", ele disse friamente. "Boa tarde", ela respondeu sem jeito, seu rosto corando. Eles ficaram se encarando na passagem da porta da casa por algum tempo. "O que você veio fazer aqui?" Ele quebrou o silêncio. "É que eu quero conversar..." Ela disse, timidamente. Ele ergueu uma sobrancelha, descontento com a resposta. "Não é tarde demais para a gente tentar de novo" Ela terminou. Ele deu as costas e fechava a porta enquanto dizia "Eu pensei que você já estava cansada de tornar a minha vida um tormento". "Espera!" Ela se exaltou, pondo-se em frente à porta, impedindo-o de fechá-la. Ele a encarou novamente, ainda descontente. Ela olhou para dentro da casa. Viu os vários livros, velas parcialmente derretidas e decorações macabras espalhados na mesa e nas estantes do humilde casebre. O pentagrama desenhado no chão com carvão. "Eu sei que você está tentando fugir do seu sofrimento. Eu não te culpo pelas coisas que você faz, eu entendo o que você sente. Eu sei que existe uma certa incompatibilidade entre nossos estilos de vida... Mas você é único para mim. Por favor, ouça o que eu tenho a dizer".

(...)

Os dois andavam lado a lado pela floresta, silenciosos. Ela ainda não tivera coragem para falar. Emaré chutava as pedras com seus pés descalços, cabisbaixo. Ela observava os grãos de poeira reluzindo nos raios de sol que passavam por entre as folhas das árvores. "Sabe, Ju... Eu não me encaixo no seu mundo. Quando éramos crianças eu até conseguia ver tudo de um ponto de vista positivo. Mas eu não queria seguir cegamente tudo o que o seus colegas hipócritas mandavam, e então me cuspiram na lama como se eu fosse sujeira em suas gargantas. E você simplesmente aceitou tudo, como se ideias não te perturbassem... Eu jamais conseguiria voltar a viver com você. Eu não suportaria ver as pessoas a quem você dá valor te rejeitando por minha causa. Ver sua vida ir por água a baixo por minha culpa seria uma tortura maior do que viver sem você. Eu achei que isso já estivesse claro, é terrível para mim te ver de novo. Você não sabe como eu fico quando volto para casa e me vejo sozinho, sem você..."

Julia fechou os olhos e parou de andar. "Me desculpa..." Ela disse, suspirando fundo. Depois olhou para frente, com o olhar apertado, e continuou a caminhada, com passos lentos. "Eu estou tão confusa... Eu quero estar ao seu lado. A minha vida tem feito cada vez menos sentido sem você. Para que viver? Às vezes eu penso..." Ela não conseguiu terminar, sua mandíbula tremia, mas ela não conseguia soltar nenhuma palavra. Emaré, que ficara a caminhada inteira olhando para frente, se virou, ao mesmo tempo curioso e preocupado com ela. "Às vezes eu penso em por um fim. Sabe? Acabar com tudo. Você é a única coisa que me solta das correntes que me prendem o tempo inteiro. As pessoas sempre exigindo de mim coisas que nem eu quero para mim mesma. Você é livre. Meu contato com você é a única coisa que me faz ver que a vida é muito mais do que as coisas que me cercam. Eu queria vir morar com você..." Emaré parou de andar. Ficou olhando para Julia com expectativa. "Por que não vem, então? Minha casa não tem espaço, mas nós podemos dar um jeito". Ela respirou fundo. "Não é bem assim... Como eu disse, existem essas correntes que me prendem. Minha família, minha casa, minha reputação, minha fé... É tão difícil escolher. Se eu considerasse só meus sentimentos, eu viria de prontidão. Mas existem tantas coisas em jogo... Acho que terminar a minha vida seria a melhor escolha para acabar com todo o meu sofrimento e com meus impasses."

Emaré acariciou o seu rosto. Julia olhou no fundo de seus olhos, suas olheiras intensificando sua expressão esperançosa. "Não pense assim. A gente pode tentar de novo, nunca é tarde demais".

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Cortar o Tempo


Uma releitura de Carlos Drummond de Andrade

Cortar o Tempo

    Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias
    A que se deu o nome de ano
    Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos
    Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
    Com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

    Pena que tudo acaba sendo a mesma coisa
    E cada ilusão de renovação é perdida à medida que os erros se repetem
    Outro ano perdido, e tem a impressão de estar vivendo sempre o mesmo
    Mesmo assim, quando chega o fim da vida, foram setenta anos fazendo as mesmas coisas
    E ainda temos a impressão de que não aproveitamos nada do que fizemos setenta vezes



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Ela e Ele

Ela e Ele

E ela tinha um segredo. Um segredo que não queria que ninguém soubesse.
E ela não contava para ninguém porque tinha vergonha.
Mas ele! O problema dela era a virtude dele!
Ele acolhia e abonava aquilo que ela recusava e se deslustrava.
E ela o censurava pela forma como ele lidava com aquilo.
E eles brigavam um com o outro pelo conflito de ideias.
E ela o amava. E ele a abominava.

Como pode? Amar algo que se odeia?
Como ele podia amar um defeito que o difamava?
Como ela podia amar alguém que era o que ela odiava?
Mas ela não sabia o que disse Okatsura Lau:
Que gostamos das pessoas pelas suas qualidades.
Mas que as amamos por seus defeitos.

E ela estava indigesta por suas emoções.
Indigesta porque não as entendia.
E indigesta porque cada vez que ela o via, ou pensava nele, ou sentia algum odor que a recordava do dele, sentia seu coração dentro de seu estômago.

E ela estava acomodada a ignorá-lo.
Até o dia que ele foi irônico com ela.
Que ele soube o segredo dela, mas foi indireto ao demonstrar que descobriu.
E afinal, ela não teve nem certeza da ciência dele.

E ela ficou perdida.
Os planos dela se perderam e ela não conseguiu mais ignorá-lo.
E tudo o que ela teria feito, foi embaralhado.
Embaralhado pela ansiedade de saber que ele soube, mas não saber o que ele faria.
E se ele soube, por que não falou nada para ninguém?
Por que ele manteve o segredo dela, se o mesmo defeito, dele, não é segredo?
Será que ele realmente soube?

E o mundo dela girou.
E girou.
E girou.

E o que uma vez foi grande para ela, deixou de ser.
Deixou de ser depois que ele descobriu o segredo dela.
Porque ela não conseguia mais se concentrar em pensar em seus sonhos.
Porque sempre pensava nele.
E se questionava a respeito dele.
E sofria por causa dele.

E o tempo passou.
E eles se tornaram adultos.
E cada um seguiu seu rumo.
Mas ela sempre o admirou.

E depois de muito tempo, já velhos, se reencontraram.
E ela perguntou se ele sempre soube de seu segredo.
E ele respondeu que sim.
E ela perguntou se ele também gostava dela.
E ele respondeu que sim.
E ela perguntou por que ele nunca revelou a ninguém.
E por que ele nunca se confessou a ela.
E ele respondeu que não quis espalhar o segredo dela.
E que ele não quis que ela se desgostasse de si mesma por estar com ele.
E que ele achava deplorável alguém ter vergonha de viver.


sábado, 30 de julho de 2011

Brincandeira de Casinha


Laura, a irmã mais nova, se entretinha com Lego. Ela gostava de montar casas e pôr bonecos dentro, para fazer de conta que fossem uma família. Sua irmã mais velha, Bruna, a olhava ao mesmo tempo em que fazia os deveres da faculdade.

Certo dia, Laura montou uma casa não muito grande e bem colorida, porque ela tinha preguiça de procurar por peças da mesma cor. Ela admitiu lacunas onde deveriam ser a porta e as duas janelas. Usou peças pequenas para simular os móveis. Não montou um teto, pois seria trabalhoso demais. Por vaidade, ela quis mudar as cores das peças que formavam o corpo dos bonecos. Seus dedos acabaram ficando doloridos por ter de usar tanta força ao desmontá-las.

A família fictícia dela era composta por um pai, uma mãe e duas filhas. O pai trabalhava no lixão, que na verdade era o amontoado de peças que não estavam sendo usadas. As duas filhas estudavam na escola, atrás da cama, e a mãe era dona de casa.

A boneca mãe estava fazendo o almoço quando o marido chegou. “Chegou cedo hoje, querido”, ela disse. Então ele respondeu “Quero ficar mais tempo com a minha família”.  “E as meninas, vão vir pra casa como?”, ela indagou. “O ônibus escolar vai trazer elas”. Então as duas meninas entraram pela porta dizendo “Já estamos aqui, mamãe”.

Laura parou com a encenação. Ela estava com dificuldade em colocar a última garota dentro da casa. Não havia espaço suficiente.

-Droga! Ela gritou.
-Que foi? Perguntou Bruna, cessando o dever de casa por alguns instantes.
-Ela não tá entrando!
-Como assim, Laura? Me explica, pra eu ver se posso te ajudar. Bruna se levantou da escrivaninha para ver a brincadeira da irmã.
-Olha só! A menina não tá entrando dentro da casa!
-Não tem espaço para todos os bonecos, Laura. Você não vai conseguir colocar todos ao mesmo tempo.
-Essa casa é uma droga! Essa menina tá me irritando!

Laura começou a gritar, e chutou a casinha na parede, fazendo com que várias peças se soltassem. Depois fez bico e cruzou os braços. Ela odiava quando a família dela não ficava do jeito que ela queria.

-Calma. Não precisa fazer isso. Você pode continuar brincando.
-Eu não quero mais! Não tá do jeito que eu quero!

Então Laura pegou a casinha e desmontou-a inteira, arrancando todas as peças e jogando-as longe. Bruna balançou a cabeça em negação. Sua irmã mais nova era inacreditavelmente impaciente e controladora. Ou, como dizem, mimada.

-Laura... Não adianta você ficar brava com seus brinquedos. Os bonecos não se rebelaram contra você. Não foram eles que rejeitaram entrar na sua casinha. Foi você que montou tudo do jeito que estava. Para com esse escândalo e aceita as coisas do jeito que elas ficaram. Fico imaginando o dia que você estiver adulta e com uma família de verdade.