sábado, 10 de março de 2012

Oi



Eu sei que um dia tudo isso vai acabar. Não sei quando, mas vai. Pode ser a morte, pode ser uma divergência em nossos caminhos, pode ser um desentendimento. Mas o que importa é o que eu estou passando agora com você. É essa paz que eu sinto quando nós somos um. A vida pode ser dura, sem sentido, repleta de adversidades... Mas isso é o que faz valer a pena. Estar com você. Poder te abraçar, te sentir... Sentir a sua respiração no meu rosto. Sentir com as minhas mãos o seu coração batendo. É bom saber que você está vivo, e do meu lado. Talvez não seja um sentimento profundo, mas nós estamos conectados. Conseguimos conversar bem, e nos sentimos bem quando fazemos isso. Você sabe quão são valiosas as tardes que nós passamos juntos, somente conversando, falando sobre as nossas vidas, os nossos vícios e as nossas virtudes. É algo que me faz sentir vivo, e é algo que me vai fazer falta quando acabar.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Niflheim


Sabe, o céu quando está branco? Você não vê o Sol, a lua nem as estrelas. Você não tem nenhum guia além da sua própria confiança. E você procura um tesouro que possa fazer toda a sua vida ter sentido. Em um tropeço você encontra a arca enterrada, bem no meio do seu caminho. Você se esforça, a desenterra, pensa em desistir... Mas ela poderia ser a sua grande mudança para melhor! Ela poderia ter mais valor do que você imagina. Você tem fé que tudo vai melhorar. Mas quando finalmente consegue removê-la de sua cova, vê que com o tempo ela apodreceu e quando você tenta movê-la, ela se desmancha. Ela não foi feita para você levar. Ela não estava lá para te ajudar. Mas você já gastou tanto tempo com ela... Tanto esforço... Mesmo não sendo o que você procurava, ela já tem um valor para você, ela foi uma conquista! Pena que ela vai se desmanchando com o tempo... E os pedaços de madeira podre não são a única coisa que se perde. Os músculos podres que compõem o seu coração também vão sendo gastos. Até a hora que você acha que já sofreu demais.

"Vaidade das vaidades, diz o pregador, é tudo vaidade! Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho que faz debaixo do sol? Uma geração vai, e outra geração vem. Mas a terra para sempre permanece."

Sabe, ninguém gosta de desistir de amar. Ninguém gosta de desistir de ser feliz. Mas às vezes, você se sente ultrapassado. Como se tivesse sido deixado para trás. Como se, desde que nasceu, já estivesse sendo deixado para trás. As pessoas avançam, todos ao seu redor evoluem, menos você. Menos você. Isso acaba contigo. Como um câncer dentro de seus ossos, que te enfraquece e te desprepara para lutar. Parece que você nasceu para fracassar. Para conquistar todas as grandes coisas, para chegar à lua se assim você quiser. Mas para fracassar em tudo o que é pequeno. Para fracassar em seus relacionamentos, para fracassar em sua família, para fracassar em sua saúde, para fracassar em você mesmo.

"Todas as coisas são trabalhosas, o homem não o pode exprimir. Os olhos não se fartam de ver, nem os ouvidos se enchem de ouvir. O que foi, isso é o que há de ser, e o que se fez, isso se fará. De modo que nada há de novo debaixo do sol."

A Bíblia pode ser um conto de fadas antigo, embora às vezes aparente mais como um cajado do que como um livro. Ela pode ser confusa, com várias contradições que muitos não querem ver, mas se tem um livro que me inspira é Eclesiastes. Ou partes dele. É incrível imaginar que Salomão, que viveu há três ou quatro mil anos atrás, já tinha um entendimento filosófico maior do que da maioria das pessoas dos dias atuais.

"Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito. Aquilo que é torto não se pode endireitar, aquilo que falta não se pode calcular. Falei com o meu coração, dizendo: Eis que eu me engrandeci e sobrepujei em sabedoria a todos os que houve antes de mim, e o meu coração contemplou abundantemente a sabedoria e o conhecimento. E apliquei o meu coração a conhecer a sabedoria e a conhecer os desvarios e as loucuras, e vim a saber que também isto era aflição de espírito. Porque na muita sabedoria há muito enfado, e o que aumenta em conhecimento, aumenta em dor."

O tesouro que a arca guardava era somente um pingente que ganhei de alguém. Mas o que o tornava especial era a arca em si, que o guardava e protegia, e sua madeira envelhecida, cheia de marcas de expressão, que contava a sua história.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Refração


Estou observando um horizonte cinzento ao pôr do Sol. O tempo passa ao meu redor, e as pessoas estão retornando aos seus lares. Eu não tenho um lar para voltar. O Sol não pode se pôr para mim.

Estou observando um horizonte cinzento ao pôr do Sol. O tempo passa ao meu redor, mas não passa dentro de mim.

O que você está fazendo? Ele diz. Mas meus olhos turvos não conseguem distingui-lo direito. Eu tenho que retornar à minha tarefa. O que você está fazendo, ein, mano? Ele diz. Eu olho para ele.

Meu coração quebrou. Meu coração quebrou, mano.

E agora, mano? Ele diz. Eu posso te ajudar?

Sim, eu trouxe cola. Olha aqui. Cola sempre conserta tudo, na falta de mães. Eu olho para ele. Confuso? Como pode não entender? Mães consertam tudo. Mas nem todos têm mães, e não se pode arranjar uma em qualquer lugar. Mas eu tenho cola, e ela tem o mesmo efeito.

E agora, mano? Ele diz. Como eu posso te ajudar? Você sabe... Com a cola? Onde eu passo?

Não passe. Só inale.

Estou andando sozinho na calçada. Cercado por prédios deteriorados, que um dia não existiam fora dos projetos de um arquiteto. Pessoas haviam comprado apartamentos antes deles estarem prontos.

Estou andando sozinho na calçada. Cercado por ruínas do que um dia foram sonhos.

Quando seu coração quebrou? Ele diz. Mas minha mente confusa não consegue recordar quem ele é. Eu tenho que retornar aos meus pensamentos. Quando seu coração quebrou, ein, mano? Ele diz. Eu tento lembrar dele.

Ele nunca esteve inteiro. E agora mesmo, ele está em chamas, mano.

E agora, mano? Ele diz. Eu posso apagar?

Não, é uma má ideia. Olha aqui. Mães, lares, todas essas coisas. Eu olho para ele. Confuso? Como pode não entender? Nada disso nunca foi real. Foram só sonhos. E agora restam só ruínas, em chamas. Restam só cinzas. Resta só essa fumaça que me sufoca.

E agora, mano? Ele diz. Como eu posso te ajudar? Você sabe... Apagar esse fogo? Acabar com a fumaça?

Não apague. Só inale.

Estou virando a cabeça para vomitar. Não posso vomitar em mim mesmo. Ficaria sujo, fedido. Mas por que as pessoas não querem ficar sujas e fedidas? Para agradar aos outros? Então eu não preciso virar a cabeça.

Estou virando a cabeça para vomitar. Não posso continuar vivendo em mim mesmo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A Grande Festa da Vida


Perfeição
Você sabe o que significa perfeição?
Para mim, perfeição é amar
E poder declarar esse amor para todos
E concretizar esse amor em uma grande cerimônia
Em uma grande festa
Na grande festa da minha vida

Grande!
Tinha de ser grande!
Grande para poder mostrar minha intenção
Em tentar mostrar a grandeza desse amor
Tentar mostrar
Porque na verdade esse amor não tem tamanho

O salão tinha de ser imenso!
Não uma igreja, mas uma catedral!
Uma orquestra de cem homens para tocar nossas músicas!
Assentos o suficiente para milhares de convidados;
Que dançariam juntos, sincronizados, na hora da festa

O banquete
E o banquete, então!
Pães, queijos, frios, salgados,
Frutas, brigadeiros, bolos, chocolates,
Lasanhas, pizzas, nhoques, risotos,
Martini’s, coquetéis, licores, vinhos,
Frangos, perus, leitões, carneiros!

Tudo servido na mais grandiosa mesa
Para unir toda família, parentes e amigos
Celebrando a mais grandiosa união entre dois amantes
A mais grandiosa mesa, coberta pela toalha branca
Decorada com flores, também brancas
E toda a prataria
Prataria na qual consigo me ver refletido
Refletido todo o brilho do meu sorriso
Todo o brilho da minha alegria

Todo o brilho da minha alegria.
Deixo para trás o salão, a gulodice e a vaidade
Desço todo a escadaria, por baixo dos imensos arcos
É noite, mas o jardim é bem iluminado
As estrelas, a brisa, o cheiro suave das flores
Tudo colabora para minha tranquilidade

Refiz o caminho, aquele caminho
Caminho pelo qual passaríamos
Para chegar até o salão de nossa cerimônia
Refiz o caminho, verificando cada milímetro
Para ter certeza de que tudo estaria perfeito
Para a nossa grandiosa festa

Havia um labirinto vivo no meio do jardim
Era vivo porque era feito de arbustos
Entrei, deixando o cheiro da noite me guiar
A cada passo que eu dava, estava mais perdido
Mas estava tranquilo, tranquilo até demais
Porque logo a festa começaria
E todos os convidados chegariam
E acabariam me encontrando

E acabariam me encontrando.
Mas eu estava errado, alguma coisa faltava
Alguma coisa muito importante em um casamento
Faltava um noivo.
Como eu poderia me casar se não tinha um noivo?
Todos aqueles preparos de nada valiam

Eu perdi muito tempo me preparando
Construindo o meu próprio mundo
Dentro de mim mesmo
E esqueci de me aventirar, de viver,
E de procurar alguém com quem dividir isso tudo
Agora, não havia mais ninguém, e eu estava sozinho
Sozinho e perdido, perdido para sempre
Dentro do labirinto que eu mesmo construí

Dentro do labirinto que eu mesmo construí.
Com meus próprios sentimentos
Com todo o meu sentimento de medo
Com todo o meu rancor
Toda a minha ansiedade
E a minha paixão

E agora eu estou perdido
Perdido na minha existência
Existência inacabável
Existência imensurável
Existência ininteligível
Existência incompreensível

Perfeição
Perdido,
Perdido dentro de mim mesmo.


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Várias Pessoas, uma Única Existência

João era perfeitamente medíocre. Havia momentos em que tinha vergonha de si mesmo. Queria esconder quem ele realmente era. O seu passado vergonhoso, aquela mania estúpida, aquele medo irracional, aquela frustrante incapacidade de fazer aquela tarefa com a qual todos tinham facilidade. Tinha vergonha de seu pai, que não chegara a conhecer. Tinha vergonha de sua mãe, que de tão simples, mal sabia escrever. Tinha vergonha de si mesmo, por todas as coisas que seus pais deveriam ter-lhe ensinado quando era criança e que lhe faziam falta como adulto.

Antônio tinha o pé torto. Era gago. Vesgo. Não sabia tocar violão. Não falava inglês. Suas acnes lhe incomodavam. Queria ser mais baixo, pois acreditava que sua imensa estatura era responsável tanto pela sua aparência desengonçada quanto pelo fato dele ser desastrado.

Francisco tinha medo de fazer novas amizades. De que o achassem estranho. Tinha medo de falar besteira e passar vergonha. De falar alto demais e incomodar as pessoas. De acabar gargalhando e todos perceberem quão esquisita era a sua risada. Tinha vergonha de seu mau hálito. Simplesmente não conseguia conversar, pois as palavras certas não lhe vinham à boca, e suas tentativas de diálogo se resumiam a momentos de intenso e inoportuno silêncio.

Luiz não tinha namoradas. Não conseguia se aproximar de garotas. Não sabia o que falar. Muitas o achavam feio. Outras não gostavam de sua voz. Ele não sabia beijar direito. A garota com quem ele perdeu a virgindade contou para as amigas que ele era sem-graça, ruim de cama.

Quando fez dezenove anos, Paulo tentou arrumar um emprego. Era vendedor de uma loja de móveis. Quanto mais ele vendesse, mais dinheiro conseguiria. Mas no final, ele nunca conseguiu muito com isso. Seus colegas de serviço eram bem melhores do que ele. A agonia que tinham por vender mais do que os outros acabou fazendo com que Marcos ficasse para trás e fosse rebaixado para a área de assistência técnica da loja.

A aposentadoria da mãe de Manoel mal dava para comprar os remédios que ela precisava. Ela acabou ficando muito doente. Ele a levou à cidade grande e procurou um médico. Ela precisou ser internada. Mas a fila de espera para receber a cirurgia era tão grande que ela faleceu antes de ser tratada. Ele estava sozinho. Sem ninguém para ampara-lo, sofrendo as constantes punições e humilhações da vida. Até que encontrou Ana.

Márcia era mediocramente perfeita. Havia momentos em que tinha orgulho de si mesma. Queria que o mundo a visse da forma que ela queria. O seu futuro brilhante, as suas nobres virtudes, as suas iniciativas proativas, aquela invejável disposição de fazer as tarefas das quais todos tinham preguiça. Tinha orgulho de seu pai, que mesmo sendo divorciado e morando longe, ajudava financeiramente a filha. Tinha orgulho de sua mãe, que mesmo sendo simples, sempre fez de tudo para ver Joana bem. Tinha orgulho de si mesma, por todas as coisas que seus pais deixaram de lhe ensinar ela conseguiu aprender com a vida.

Francisca era encantadora. Tinha a voz bonita. Olhos verdes. Cantava bem. Conseguia se expressar bem. Seu olhar era profundo. Gostava de ser alta, pois chamava a atenção dos rapazes para o seu belo corpo.

Adriana tinha amigos. Eram estranhos, mas eram amigos. Falavam besteiras juntos, passavam vergonha juntos. Falavam alto e atazanavam uns aos outros. Quando estavam reunidos, gargalhavam tanto que até perdiam a voz. Eles simplesmente se davam bem. Não precisavam de uma ocasião especial para se encontrar, nem de um assunto para conversarem. Falavam sobre trivialidades e se sentiam bem com isso.

Antônia não tinha namorados. Não queria saber de compromissos, preferia aproveitar a vida. Alguns rapazes a pediram em namoro, mas ela não queria nada sério. Ela não gostava de rotular seus relacionamentos com palavras como “amigo”, “ficante” ou “namorado”. Ela gostava mesmo era de ter companhia e de poder fazer o que quisesse quando quisesse e com quem quisesse.

Quando fez dezenove anos, Sandra tentou arrumar um emprego. Era vendedora de uma loja de eletrônicos. Quanto mais ela vendesse, mais dinheiro conseguiria. Mas no final, ela nunca conseguiu muito com isso. Seus colegas de serviço eram melhores do que ela. Mas por outro lado, ela lidava bem com as pessoas, e isso não passou despercebido aos olhos de seu chefe. Patrícia foi promovida para a área de assistência técnica da loja.

A aposentadoria da mãe de Vera mal dava para comprar os próprios remédios, e por isso ela ficou muito doente. Ela a levou à cidade grande e procurou um médico. A mãe precisou ser internada. Mas a fila de espera para receber a cirurgia era tão grande que ela faleceu antes de ser tratada.

Josefa orava a Deus por sua mãe, desejando que ela estivesse em um lugar melhor, descansando, livre de todos os sofrimentos terrenos. Mas afinal, a jovem estava sozinha. Sozinha... Até que encontrou Carlos.

Eles formavam um casal perfeito. Completavam um ao outro. Logo no início do relacionamento já tinham planos. Iriam se casar, formar uma família, ter filhos. Trabalhar, juntar dinheiro, dar festas e fazer viagens. Juntos, iriam observar as nuvens e as estrelas. Sentariam lado a lado na praia, escutando as ondas. Viajariam pelas estradas do país, com as janelas do carro escancaradas e a música no último volume. Iriam passear no parque de mãos dadas. Iriam tomar café juntos, logo que acordassem, antes mesmo de tirar os pijamas. Eles seriam felizes. Juntos.

Não. Eles não foram felizes. Marcelo teve medo de dar continuidade ao relacionamento. Imaginava que, uma hora, tudo iria dar errado. Já passava pela sua cabeça a ideia de que Larissa mantinha casos com os seus antigos amigos. Tudo pioraria depois que casassem. Ricardo estava decidido a terminar com esse relacionamento, e assim o fez.

Os dois sofreram muito depois de romper.

As últimas palavras de Maria, antes de morrer, foram “Eu deixo a vida me levar. A frustração é o único efeito de tentar controlar o próprio destino”. Ela foi atropelada por um ônibus. Quando Roberto descobriu, afundou-se em remorso. “Devia ter aproveitado enquanto ela estava viva”, pensou. Deixou de amar e ser amado por praticamente motivo nenhum. Sequer teve filhos.

José teve uma vida medíocre até que a velhice. Uma gripe o levou embora. As suas últimas palavras foram “Não tive nada na vida, mas aproveitei a vida que consegui ter”.