terça-feira, 24 de julho de 2012

Não Tem mais Graça


e não tem mais graça. e eu vou encontrar algo melhor.

quanto mais escrevo, menos escrevo.
porque quanto mais escrevo, menos tenho sobre o que escrever
porque o que eu quero escrever, já foi escrito.

assim é você.
quanto mais eu te afago
menos eu te amo.

um explorador não pode explorar o território o qual ele já explorou
um cozinheiro não pode ainda cozinhar a comida que já foi cozinhada
e eu não posso continuar te comendo

simplesmente porque não faz sentido e não tem mais graça.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Asas de Ouro

Ela não é real. Eu não posso torna-la real.

Do lado de dentro do arco-íris, ela era perfeita. Inocente, apaixonada, um tanto quanto insegura. De primeira, seus olhos brilhavam a me ver, como os olhos de uma criança brilham a assistir um grande espetáculo no circo. Sua doce voz era a mais doce melodia, que tanto me regozijava escutar. A alegria que ela esbanjava era a geratriz da força que fazia meu coração pulsar mais intensamente a cada vez que eu via o seu sorriso.

E nós fomos nos conhecendo cada vez melhor. E ela foi se tornando cada vez mais importante para mim. Até o momento em que tudo o que eu fazia, fazia pensando nela. E com o tempo, meus olhos começaram a enxerga-la melhor, e os dela, a mim.

Do lado de fora do arco-íris, ela se tornou alguém totalmente diferente. Sua alegria pela minha imagem se tornou aversão ao espelho. Sua beleza natural foi se esvanecendo atrás de pós e tintas. Suas dúvidas inocentes transformaram-se em certezas incoerentes.

Do lado de fora do arco-íris, ela era alguém totalmente diferente daquilo que eu imaginava.

Eu rompi. Foi doloroso, mas eu a estava traindo. Estava traindo a garota meiga que eu conhecia com a garota (não) sensual que ela era. Eu a amava. Mas ela não era real.

As saudades e o arrependimento tornavam o meu coração pedaços. Eu voltei atrás. Tentei pedir perdão, mas quem devia me perdoar não estava lá. Tudo o que escutei foram acusações de alguém a quem eu não devia nada.

Toda vez que eu procurava a de dentro, encontrava a de fora. Afinal, a de dentro não existe.

Ela não é real. Eu não posso torna-la real.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Como o Mundo É Perfeito ao Seu Lado


Segure a minha mão
Vamos caminhar juntos
Pois não há beleza na solidão

Aspire esse doce aroma
Das flores que nos rodeiam
Sinta a água em nossos pés
E veja a beleza do azul infinito
Sinta o vento balançar seu vestido branco
Assim como dançam as folhas dos coqueiros

E quando anoite, a mesma calma
Sob a luz fraca, deitado no seu ombro
As feras fazem barulho lá fora
Mas para nós, isso é doce melodia
Pois ao seu lado me sinto infinito
Como se tudo fosse para sempre

Vamos juntos viver tudo o que o mundo nos oferece
Pois uma única vida é muito pouco para ser desperdiçado

Eu só preciso de um começo, um novo começo ao seu lado
Para poder te abraçar e nunca mais te soltar
Nunca mais te ver fluir por entre os meus dedos

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Insignificante


Um zumbido era a única coisa que passava por dentro da minha cabeça. Eu tentava enxergar o mundo, mas ele estava embaçado e girando à minha volta. Tentei encontrar o chão, mas a única sensação que meus pés me transmitiam era um agonizante confinamento. Estava ficando tão desesperado que arranhei o solo: Era a minha última chance de ter certeza de que estava em algum lugar. Não sei como descrever quão bom foi saborear cada um dos grãos daquela superfície áspera raspando entre a carne e a unha dos meus dedos. A dor intensa não superava a deliciosa sensação de que eu não estava perdido no universo.

Quando acabou, a sensação não era mais tão ruim. Mas ainda era muito ruim. Eu estava sem forças nem sequer para levantar do chão. Minhas pernas estavam bambas e minha cabeça doía. Eu só queria que tudo acabasse. Só queria dormir e esquecer a minha existência.  Eu nem sequer tinha um motivo para levantar do chão, poderia ficar ali até o dia da minha morte, que não demoraria muito. Não tinha ânimo para encarar a realidade. No mal estado em que me encontrava, a última coisa que eu queria era ficar procurando dinheiro para voltar para casa. Eu não tinha nem certeza se seria aceito em casa, daquele jeito.

A cada passo que eu dava, tinha cada vez mais a sensação de que havia milhares de pregos dentro do meu tênis. Cada segundo que passava demorava toda a eternidade, fazendo-me sentir imortal. Isso é, se eu pudesse dizer que estava vivo. Parecia que o zumbido e as pontadas no fundo do meu cérebro nunca mais me deixariam.

Fiquei ofegante. Era demais esperar que meu corpo exercesse tanto esforço nas condições em que eu me encontrava. Apoiei-me em alguma parede pelo caminho e deixei que meu corpo escorregasse vagarosamente até ficar deitado na calçada. No fundo, eu sei que o chão gosta muito de mim. Parece que existe uma atração irrepreensível entre a minha pessoa e a humilhação de cair em lugares imundos, impulsionada pelo fardo do fracasso que carrego em meus ombros. Ficar inconsciente na calçada é nojento. Chego a me comparar com os mendigos e os bêbados que se perdem na noite.

O raiar do sol é mais uma humilhação indireta de Deus. Todas as pessoas decentes já acordaram e agora se dirigem aos seus empregos. No final do mês vão receber o pagamento, comprar comida e aproveitar com a família, o que torna acordar um passo diário na busca de suas ambições. Enquanto isso, pessoas como eu só veem o amanhecer como mais uma etapa no fracasso de viver. A verdadeira humilhação é sentir o cheiro da borracha dos sapatos que quase pisam na sua cabeça, sem que os olhares de seus donos encontrem o seu.

Diziam-me constantemente que eu me sentiria um lixo, que nada disso jamais seria útil, que eu acabaria morrendo mais cedo. Mas o suicídio também sempre esteve em minha mente. Eu só escolhi uma forma alternativa, e um pouco mais lenta, de realiza-lo. Eu sei que assim eu acabo sofrendo mais. Mas pelo menos não estou destruindo a minha vida, porque, afinal de contas, ela nunca foi construída.



quinta-feira, 24 de maio de 2012

Perguntas sem Respostas


- Oi.
- ...
- Por que você está aqui?
- Sei lá. Só quero refletir um pouco.
- Você está triste?
- Não.
- Mas não está bem.
- Estou sim.

Ela ficou encarando-o. Ele rapidamente a fitou por alguns instantes, com a sobrancelha arqueada, e depois voltou seu olhar para baixo. Não queria ferir seu orgulho expressando a necessidade de um ombro amigo, mas seu coração gritava por socorro. Ela percebeu. E também reparou que ele queria que ela insistisse. “Atitude infantil”, ela pensou, “Mas o que ele mais precisa é sentir que alguém realmente se importa com ele”.

- Tem certeza? Você não está precisando de nada?
- Não sei. Estou meio confuso.
- Como você está se sentindo?
- Preso. À rotina. Parece que é tudo sempre igual... E que ainda falta alguma coisa.
- Não entendo. O que é essa coisa?
- Eu queria fazer algo diferente. Beijar alguém. Eu queria ser mais valorizado.
- Mas eu sou sua amiga e te valorizo! E não sou a única.
- Eu sei... Mas é diferente. Parece que o que eu sinto não é o suficiente.
- E o que você sente por nós?
- Vocês são meus amigos, e são maravilhosos. Mas mesmo assim parece que falta algo, como se vocês estivessem sempre sorrindo para mim, só que do outro lado de uma parede de vidro.
- Quê? Eu pensei que nós te alegrássemos...
- E vocês me alegram. Eu não poderia pedir a Deus para ter amigos melhores do que vocês. Mas ainda parece que falta alguma coisa dentro de mim, e não ao meu lado.

Ela olhou para baixo, tentando entender o que ele estava querendo dizer, mas não conseguia. Antes ela estava com a esperança de animá-lo. Talvez até tê-lo chorando ao seu ombro. Mas agora, estava ficando confusa e desanimada.

- Você acha que nós não te valorizamos o suficiente?
- Valorizam, sim. Vocês são as melhores pessoas do mundo nisso. Eu não sei o que faria se não os tivesse sempre ao meu lado, me pondo pra cima e me elogiando. Eu provavelmente me afundaria em uma crise de baixa autoestima.
- Mas... Se é assim, por que você ainda não se sente bem?
- Não sei. É complicado. Não consigo descrever meus sentimentos.
- Eu não vou conseguir te ajudar se você não tentar.
- Eu acho que você não vai conseguir me ajudar mesmo se eu tentar.

Ela suspirou. “Ele é irritante. Não sei por que ainda estou aqui, devo gostar muito dele para aturá-lo quando diz essas coisas.” Ela o encarou. Pegou em sua mão e recostou a cabeça em seu ombro, acariciando suas costas com a outra mão. Eles ficaram um tempo em silêncio. Ele, com os lábios apertados, fitava o vazio, refletindo.

- Eu tenho a impressão de tudo o que eu fiz até hoje para me sentir bem não foi o suficiente.
- Por que não?
- Eu não sei. Eu sempre coloco algo como meta pensando que vou atingir um nível de epifania ao concluí-lo. Mas quando finalmente atinjo meu objetivo, não me sinto satisfeito. Pelo contrário, acabo ficando ansioso por conseguir mais, e mais, e mais... Eu poderia até dizer que sinto um pouco de remorso por não ter sido melhor.
- Não entendi nada.
- Eu imagino. Meus pensamentos não fazem sentido, não é?
- Nem um pouco.


Os dois olharam para o céu. Algumas nuvens bem brancas vagavam no meio da imensidão azul. Ao redor, o som do vento, alguns pássaros. Cachorros latindo bem longe, e, mais ao fundo ainda, o ronco de motores. Ela se ajeitou um pouco ao seu lado. Ele se sentiu bem por tê-la abraçando-o.

- Você gostaria de beijar alguém?
- Sim. Mas não qualquer pessoa. Eu quero beijar alguém, sei lá... Bonito.
- Que estranho. Quero dizer, quando uma pessoa sonha em estar com alguém, esse alguém é específico. E não um bonito genérico...
- É. Talvez... Eu acho que esse meu alguém genérico, na verdade, é específico.
- Ah, agora estou começando a te entender. E essa sua vontade não é recíproca por parte da outra pessoa?
- É recíproca, sim.
- Então por que vocês não a tornam realidade?
- Eu não sei. Eu acho que é medo.
- Medo do quê?
- De no final dar tudo errado, sabe? Não sei se eu conseguiria conviver com essa pessoa. Tem várias coisas nela que eu odeio. Mas também tem várias coisas nela que eu adoro.
- Como assim?
- Sei lá. No início, nós nos entendíamos perfeitamente. Mas parece que não falamos mais a mesma língua. Essa pessoa mudou muito. Tornou-se só mais alguém que eu não conheço mais.
- Aposto que você não mudou menos do que essa pessoa.

Ela olhou o rosto dele. Os cantos da boca curvados para baixo, os olhos tristes e úmidos. Agora era ele que estava deitado em seu colo, recebendo cafunés consolativos.

- Eu sei que você está desabafando seus sentimentos comigo e que talvez o que eu tenho a dizer não faça muito sentido. Mas posso te contar o que eu estou pensando agora?
- É claro.
- A minha vida é uma constante interrogação. Eu sempre estou fazendo perguntas.
- Realmente. Principalmente para mim.
- E muitas pessoas me oferecem respostas. E eu as aceito e as levo comigo. Eu não deveria fazer isso.
- Por que não?
- Na verdade, é como se todos respondessem as minhas perguntas, mas não para mim, e sim para si mesmos. Como se todos os indivíduos do universo estivessem cegos, e eu acabo incomodando-os quando tento tirar as minhas vendas. As respostas que me dão são somente uma tentativa de enterrar minhas questões.
- Realmente. Isso não faz sentido nenhum.
- Haha, agora trocamos de papel, não é?

Eles sorriram. A incerteza mútua tornou o momento mais confortável do que ele seria se em solidão. Afinal, qualquer pessoa se sente melhor acompanhado do que sozinho.

- Sabe, criticar não é legal. Eu só queria viver. Eu só queria amar. Mas tudo se torna mais difícil quando todo mundo quer impor a mim o que eles pensam e consideram certo.
- Eu sinto saudades.
- Saudades do quê?
- Eu não sei. Você não se sente mal por todos quererem manipular as suas respostas?
- Um pouco. É triste quando a gente percebe que o mundo não é nada daquilo que nós imaginamos. Mas afinal, não existem respostas para a vida. E ignorar o que dizem seria como não viver e não amar. Seria mais triste ainda.