quinta-feira, 20 de março de 2014

O Mistério



Hoje aconteceu algo muito estranho. Muito mais estranho do que se espera que aconteça em dias normais. Eu passei por uma árvore seca. Ela sempre esteve lá. Mas hoje ela estava diferente. Eu escutava um barulho vindo de dentro dela. Um barulho de água, como se houvesse um riacho ou uma cachoeira. Cheguei mais perto para procurar de onde o sonho vinha. Não percebi nada além de notar que o som estava mais alto.
Realmente era o barulho de água. E vinha de, se não bastasse ser uma pequena árvore, uma árvore estava seca. Mesmo que houvesse um rio subterrâneo passando por baixo da árvore, então ela não deveria estar seca. Mas, por outro lado, o rio poderia ter aparecido depois de a árvore secar. Mas isso não faria sentido, pois o barulho que eu escutava era de um volume muito maior de água do que o que poderia ter aparecido ali naturalmente, em uma quantidade de tempo inferior ao do apodrecimento do tronco. Mas talvez não tenha sido naturalmente. Talvez fosse um encanamento da cidade que tivesse rompido. Ou não, porque esse tipo de barulho a gente escuta quando há contato do rio com o ar. Imagino que um rio subterrâneo, a não ser que seja uma caverna com galerias que ecoassem até aquela árvore, não deveria fazer aquele barulho. Mas e se fosse? Talvez uma caverna ainda não descoberta passando por baixo da cidade. Mas por que o som dessa caverna seria emitido por um tronco seco? Talvez, bem no nó da árvore, haja um buraco que tenha conexão com um buraco maior ainda, que tem ligação com uma rede de túneis que ecoa o barulho de uma imensa cachoeira, bem debaixo da cidade. Talvez, aquelas teorias de Júlio Verne não estejam tão erradas. Pode haver vida no centro do nosso planeta, e até mesmo um sol interno, como acreditam aqueles conspiracionistas extremos.
E toda a minha descoberta, tudo aquilo que eu estava escutando, vinha de dentro da minha árvore seca. Uma árvore. Nenhum rio no raio de quilômetros. E aquele maldito vegetal morto fazendo o barulho de água corrente. Eu tenho vontade de dar tiros nele. Para ver se ele continuaria fazendo o mesmo barulho. E se ele não estivesse morto? E se, ao invés de um vegetal morto, aquilo não fosse um animal vivo? Já ouvi falar de pássaros que aprendem um som e conseguem reproduzi-lo perfeitamente. Mas não podia haver nenhum ninho ou toca naquele pedaço de madeira. Não que eu conseguisse ver, pelo menos. Mas não necessariamente esse animal precisa ser um pássaro, ele pode ser só uma cigarra. Uma cigarra estranha que faz barulho de água. Uma cigarra conseguiria se esconder ali no meio muito melhor do que qualquer pássaro. Mas eu nunca ouvi uma cigarra fazendo barulho diferente do habitual. Até existem alguns ritmos diferentes, talvez entre as espécies, mas sempre é aquele som chato. Uma cigarra jamais conseguiria fazer o barulho de um rio. Mas, o animal poderia não estar dentro do tronco. Ele podia ser o tronco. Igual àquelas borboletas que a gente vê que imita a casa das árvores. Mas nesse caso, talvez o animal imitasse um tronco inteiro. Acho pouco provável. Talvez o tronco fosse a “casinha” do animal, como um caracol ou ermitão gigante. Que usa um tronco de árvore como toca. E que faz barulho de água. Não, não. Impossível. Se for mesmo um animal, a única probabilidade é que sejam vermes e larvas aí dentro. Não, nem isso. Eu nunca ouvi falar de nada sequer parecido com isso antes. Deve haver outro motivo para essa árvore seca fazer o barulho de um rio. Não deve ser um animal. Acho mais fácil ser o mundo no centro da terra do que um animal nunca antes visto pela ciência. Eu não sei o que era. Mas sei que é muito estranho. Estranho demais para ser compreendido. Um verdadeiro mistério.

sábado, 15 de março de 2014

A Magia que Rege o Universo


Tipo, cara, eu sou bonito. Eu sei que eu sou bonito. Todo mundo sempre me elogiou por ser bonito, até as garotas. Eu sinto uma imensa satisfação quando eu vejo meus comentários nas minhas fotos do Facebook e percebo que uma imensa quantidade de pessoas me considera lindo. E me sinto melhor ainda quando, mesmo quando eu faço pedidos para que curtam minhas fotos, elas chegam milhares de curtidas, centenas de comentários e até alguns compartilhamentos. Eu gosto, e muito, de ser bonito. E, como qualquer pessoa bonita, eu também sou popular. Minha caixa de entradas no Facebook sempre está cheia de mensagens. As pessoas me chamam para festas, dão em cima de mim. Eu percebo até que a atendente da padaria me cumprimenta sorrindo, coisa que ela não faz com maioria dos rapazes. Acho que, além de bonito, eu devo ser meigo ou carismático. Eu me amo. Eu sou foda e as pessoas me reconhecem por isso. Eu posso ser uma lástima em maioria das atividades que as pessoas geralmente consideram comuns, mas aposto que me dão muito mais valor por ser bonito do que dão valor a essas pessoas que têm grandes conquistas. Eu sou um inútil, mas sou mais valorizado do que gente útil. É a vida. E eu gosto da minha.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Uma História Real



Caminhando por esta rua de fogo, e meu lar está reduzido a cinzas.

Eu estava entediado. Nada a fazer. A casa limpa, a mesa posta... Nenhuma tarefa restante. Cada coisa em seu lugar.

O que eu fazia? Não me lembro. Não quero me lembrar. Estou com uma nuvem, densa cerração, ao redor de minha cabeça. Só quero sanar esse tédio, ocupar minha mente.

Eu estava entediado. Nada a fazer. Resolvi sarar meu aborrecimento com o abençoado remédio thorazinternet.

Entrei no Facebook, Whatsapp, Messenger, naquele blog habitual, naquele fórum habitual. Pesquisei no google algo que andava perturbando minha mente. Perturbando minha mente.

Mensagem aqui, mensagem lá. Atualizações. Imagens nada originais. Aquela mesma imagem, vista pela milésima vez. Notícias. O time venceu, o homem suicidou, o bandido foi preso.

Enviaram-me um link. Um link estranho, que levava a um blog estranho. Cores estranhas, formatos estranhos. Textos estranhos.

A primeira frase, de um daqueles textos. Caminhando por esta rua de fogo, e a casa está reduzida a cinzas.

E então, eu me lembrei. Lembrei-me do que fazia, de como era a minha vida. A nuvem foi embora, e nada faz sentido. Nada está em seu lugar.

Tudo está ao contrário. De ponta cabeça. De frente para trás, do avesso. Bagunçado, desordenado, confuso. Uma baderna, uma folia, uma arruaça.

O que é tudo isso? O que essas coisas fazem... Em minha vida? Não, não. Nada está certo. Tudo está muito estranho... E ao mesmo tempo familiar, íntimo... Costumeiro.

Sim, sim. Tem algo de errado. Mas não são coisas. Não está na minha vida. O que está errado é a minha vida. A minha vida, em si.

É. A minha vida é estranha. Ou deveria dizer... Existência? Porque tudo isso, todas essas coisas, você sabe... Não podem ser chamadas de vida.

A minha existência é estranha. Muito estranha. Eu não deveria estar aqui. O que eu fazia antes da nuvem aparecer e eu ficar entediado... Você sabe.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Baixa Geral



Você viu aquela mulher? Aquela mulher pálida, deitada na mesa, indefesa? Com seus olhos fechados, boca calada, pele gelada? Você viu? O defunto em seu descanso eterno? Em seu descanso em paz? Decomposto, pútrido, putrefeito, apodrecido? Fedendo a carniça? Você viu aquela mulher, não viu? Pele acinzentada, incolor, inerte? A expressão inerte? Aquela mulher que foi trazida de ambulância, ensanguentada? Aquela mulher que foi trazida com a boca escancarada? Que foi trazida incinerada? De dentro daquela casa incendiada? Você viu, não viu?

Você viu aquela mulher? Aquela mulher petrificada, engolida pela fragilidade da existência? Com as manchas vermelhas vazando por seus braços? Com a cabeça achatada pela roda do trem? Pela força da altura do chão duro? Pela força do projétil metálico disparado em alta velocidade? Você viu? Viu aquela mulher com as marcas no pescoço? Marcas de mãos ciumentas? As mãos daquele amante frustrado? Perdido na vida, no álcool, nas drogas? Procurando um refúgio sanguinolento para seus sentimentos impiedosos? Você viu, não viu?

Aquela mulher que estava em ossos? Ossos encontrados por amantes, por acaso? Enquanto procuravam uma trilha vazia para foder? Aquela mulher estudada pelos médicos, não viu? De órgãos externos, órgãos expostos, expostos a estudo? Pelos legistas? Pelos estudantes de medicina? Postos em fila ao redor do corpo? Apreciando-o como uma obra de arte? Você viu essa mulher? Pintada nos livros de anatomia? Divulgada naqueles jornais violentos? Impressos a tinta vermelha? Vermelha da cor do sangue? Você viu, não viu?