sábado, 30 de julho de 2011

Brincandeira de Casinha


Laura, a irmã mais nova, se entretinha com Lego. Ela gostava de montar casas e pôr bonecos dentro, para fazer de conta que fossem uma família. Sua irmã mais velha, Bruna, a olhava ao mesmo tempo em que fazia os deveres da faculdade.

Certo dia, Laura montou uma casa não muito grande e bem colorida, porque ela tinha preguiça de procurar por peças da mesma cor. Ela admitiu lacunas onde deveriam ser a porta e as duas janelas. Usou peças pequenas para simular os móveis. Não montou um teto, pois seria trabalhoso demais. Por vaidade, ela quis mudar as cores das peças que formavam o corpo dos bonecos. Seus dedos acabaram ficando doloridos por ter de usar tanta força ao desmontá-las.

A família fictícia dela era composta por um pai, uma mãe e duas filhas. O pai trabalhava no lixão, que na verdade era o amontoado de peças que não estavam sendo usadas. As duas filhas estudavam na escola, atrás da cama, e a mãe era dona de casa.

A boneca mãe estava fazendo o almoço quando o marido chegou. “Chegou cedo hoje, querido”, ela disse. Então ele respondeu “Quero ficar mais tempo com a minha família”.  “E as meninas, vão vir pra casa como?”, ela indagou. “O ônibus escolar vai trazer elas”. Então as duas meninas entraram pela porta dizendo “Já estamos aqui, mamãe”.

Laura parou com a encenação. Ela estava com dificuldade em colocar a última garota dentro da casa. Não havia espaço suficiente.

-Droga! Ela gritou.
-Que foi? Perguntou Bruna, cessando o dever de casa por alguns instantes.
-Ela não tá entrando!
-Como assim, Laura? Me explica, pra eu ver se posso te ajudar. Bruna se levantou da escrivaninha para ver a brincadeira da irmã.
-Olha só! A menina não tá entrando dentro da casa!
-Não tem espaço para todos os bonecos, Laura. Você não vai conseguir colocar todos ao mesmo tempo.
-Essa casa é uma droga! Essa menina tá me irritando!

Laura começou a gritar, e chutou a casinha na parede, fazendo com que várias peças se soltassem. Depois fez bico e cruzou os braços. Ela odiava quando a família dela não ficava do jeito que ela queria.

-Calma. Não precisa fazer isso. Você pode continuar brincando.
-Eu não quero mais! Não tá do jeito que eu quero!

Então Laura pegou a casinha e desmontou-a inteira, arrancando todas as peças e jogando-as longe. Bruna balançou a cabeça em negação. Sua irmã mais nova era inacreditavelmente impaciente e controladora. Ou, como dizem, mimada.

-Laura... Não adianta você ficar brava com seus brinquedos. Os bonecos não se rebelaram contra você. Não foram eles que rejeitaram entrar na sua casinha. Foi você que montou tudo do jeito que estava. Para com esse escândalo e aceita as coisas do jeito que elas ficaram. Fico imaginando o dia que você estiver adulta e com uma família de verdade.


sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Cor do Tempo



Ela levantou da cama com o cabelo bagunçado e pôs as pantufas de coelhinho. Foi até o banheiro, lavou o rosto, prendeu o cabelo. Foi até a sala, abriu a porta de entrada, pegou o jornal do tapete. Voltou para dentro, fechou a porta, pôs o jornal sobre a poltrona. Foi até a cozinha, preparou um expresso, voltou para a sala. Colocou os óculos, sentou na poltrona e começou a ler enquanto bebia o café quente.

“Vítima de assassinato é encontrada em beco da cidade” “Carregamento de drogas é descoberto por policiais à paisana” “Estelionatário é levado a julgamento” “Dólar atinge menor valor desde o início do ano” “Prefeitura inicia construção de escola local” “Taxa de desemprego da cidade vem subindo desde os últimos cinco anos” “Veja os lugares que valem a pena ser visitados antes do término das férias” “Astrólogos dizem que próximo semestre será escasso nas finanças, mas rico em romances” “Dicas de receitas para as frutas da estação”

–Nada interessante.

Ela levantou-se, pôs o jornal sobre a cômoda, deu mais um gole no café. Pegou o controle remoto, sentou-se novamente, ligou a televisão. Passou de canal em canal procurando algo que chamasse atenção, mas no fundo estava desinteressada em qualquer programação. Percebeu que a TV ainda estava em preto e branco.

–Merda! Quando vão chamar o técnico?!

Desligou. Deu passos até a sacada, rastejante, como se fosse uma morta-viva. Foi até o cavalete. Havia um quadro com um esboço feito a carvão. Procurou os pincéis e as tintas, mas lembrou que ele os tinha levado. Olhou através da rede de proteção. Nuvens cinzentas tomavam conta do céu. Um cheiro de molhado vinha junto com a brisa que balançava os seus fios de cabelo soltos.

–Como é horrível esperar! Por que você faz isso comigo? Bem em uma época que eu não tenho nada com o que me ocupar?

Ela sentiu frio. Voltou para o quarto, pôs uma blusinha sobre a camisola, voltou para a janela. Observou o céu, observou os prédios, observou o movimento das ruas. Cruzou os braços, descruzou os braços, ficou batendo com os dedos no parapeito. Apoiou os cotovelos na janela, cuspiu para ver em que direção estava o vento, endireitou o corpo. Mordeu uma mexa de cabelo solta, coçou o peito de um pé com o outro, ficou cutucando as unhas para tirar o esmalte. Voltou para a cozinha, pôs a caneca na pia, olhou o mural.

Entre vários bilhetes, cartões de visita e números de telefone, havia fotos. Algumas dela, algumas dele, várias dos dois. Ela sorriu. Passou o dedo numa foto em que se abraçavam, por cima do rosto dele, como se fizesse carinho. Mordeu os lábios, cruzou as pernas, abraçou a si mesma. Balançava o corpo de um lado para outro enquanto via as fotos, cheias de nostalgia, cheia de saudade.

–Deus! Quando você vai chegar? Por que eu não consigo ficar sem você?

Saudades. Saudades. Saudades.

–Mal consigo esperar a sua volta. Sem você, as coisas são tão sem graça, iguais, rotineiras, sem cor. Você é quem colore a minha vida.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Devorar


Releitura de uma música de Marilyn Manson

Devorar

Eu vou te tomar como
Se você fosse um grande gole de veneno
Eu sei que nunca deveria ter te colocado em minha boca
Mas agora te engolir é a única forma de descansar
Sua validade está terminando
E eu não estou tendo mais dores de cabeça

Eu sei que você está tentando me impressionar
Porque isso não são suas lágrimas, é o meu sangue

Eu vou te amar, se você não me esquecer
Eu vou te amar, se eu não for só mais um para você

Eu sentia os batimentos do seu coração
Sei que vou sentir saudades disso se fechar meus olhos
Mas mesmo quando abertos te vejo por toda a parte
E quando realmente for você, não vou conseguir me conter
Eu sinto que vou explodir seu coração em pedaços

Eu vou te amar, se você não me esquecer
Eu vou te amar, se eu não for só mais um para você

Minha dor não é vergonha
Eu passaria por tudo de novo
Te engolir é a única forma de descansar

terça-feira, 17 de maio de 2011

Vida Vinda da Tinta


Eis que Frans nasceu sem chorar. Ele foi um bebê que não sorria, nem chorava. Ele olhava o mundo a cada dia como se tivesse acabado de nascer. Ele era praticamente mudo, raramente chorava ou gargalhava. Ele demorou um ano para dizer a primeira palavra e quase dezoito meses para aprender a andar. Ele tinha medo do que era novo. Gostava de aprender, mas não se sentia bem fazendo aquilo que nunca tinha feito antes.

Ele nunca aprendeu a andar de bicicleta. Ele andava por aí a pé, sem ciência de onde ia, sem saber aonde seus pés o levavam. Ele observava o mundo como um telespectador de televisão, não ousava participar dele. Ele assistia às pessoas brincando no parque, nadando na piscina, rindo, se socializando, mas não tinha coragem de ter uma atitude e contemplar com a pele aquilo que contemplava com os olhos. Ele sempre estava vagando, sem rumo, só observando, sem participar de nada.

Ele não apreciava música. A melhor música, para ele, era o som dos carros, as vozes das pessoas, as buzinas, os sinos da igreja, os pássaros cantando, o martelar de uma construção, e principalmente o vento, que vaga pelo céu, que já passou por todas as partes do mundo, já levou muita poeira de um lugar para o outro, mas que ninguém dá a mínima importância.

Frans gostava de pinturas. Ele via a vida como vinda da tinta, e não do pó. Ele via dentro dos quadros toda a loucura e o sofrimento vivido pelos indivíduos que dizem às telas “que haja luz”. Ele via Os Corvos de Van Gogh batendo asas sobre os campos, todos vindo em sua direção, para buscá-lo. Ele via todo o movimento dos corpos ilustrados por da Vinci, como se todas as pessoas retratadas por ele escondessem de quem as observasse, algum segredo. Ele sentia toda a conformidade de Adão por não estar em contato com Deus, em todo o niilismo expresso por Michelangelo.

Ele começou seu apreço por literatura assistindo a filmes. Mas no fundo, ele não gostava: não os achava profundos o suficiente. Então lhe voltou à mente que a vida era vinda da tinta. Nisso começou seu deleite pela literatura impressa. Deliciava-se com os livros, como se eles lhe trouxessem a vida que ele não tinha. Cada letra, cada palavra, cada ponto no texto, era um suspiro, um olhar, um passo dentro do mundo próprio que ele criava em sua mente. E isso lhe era suficiente, uma troca de situações. No mundo real ele se preenchia com as histórias dos livros, e em suas emoções ele vagava por aqui e por ali sem sentido.

Ele nunca chegou a ter um amor. Ele não falava com as pessoas que lhe chamavam atenção. Ele tinha medo de que, ao ficar frente a frente com alguém que ele gostasse, as palavras enroscassem em sua garganta e nada saísse de sua boca. Ou então, se ele conseguisse falar com a pessoa e essa pessoa gostasse dele, ele temia por parar de gostar dela. Tudo que ele não tinha certeza em sua vida, ele descartava. E, como na vida nada é certo, ele não fazia nada, além de ficar vagando pela terra, observando as pessoas, seu comportamento e as coisas que elas inventam.

Eis que, em um gélido inverno, Frans pegou uma gripe, que evoluiu para uma pneumonia, e ele acabou sendo internado em um hospital. Na vida, nada é certo além da morte. Como ele não tinha família, foi enterrado como indigente.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

1 Ano

Pois é, já faz algum tempo que eu não escrevo nada... Tenho passado por momentos de pouca inspiração. Acho que não consigo mais escrever textos extremamente depressivos. Na minha vida mesmo tenho passado por essa mudança: Estou entrando em um momento menos "que vida sofrida" e mais "foda-se".

Dia 5, o Antiquado fez um ano de inauguração. Não tive tempo para postar nada no dia, mas hoje quero fazer alguns comentários sobre os textos que mais marcaram nesse último ano, dos mais antigos para os mais recentes:

A História de Fred.
Foi o meu primeiro post. No início do blog, eu não queria postar os meus textos mais depressivos, por isso escrevi esse. O meu objetivo ao escrever "A História de Fred." Era fazer jus ao título do blog, Antiquado, fazendo uso de um roteiro que expressa sentimentos de desagrado, assim como a imagem. Eu sempre quis escrever textos que incomodam as pessoas que leem. O título possui o ponto final para demonstrar que é a história de um fim.

Nem por um Momento
Sem dúvidas, um dos textos mais lindos que eu já escrevi. Uma amiga minha perguntou para mim se era verdade, e ficou espantada quando eu neguei, pois ela disse que quase chorou ao lê-lo. Eu não esperava causar esse tipo de sentimento nos leitores quando o fiz, eu só queria escrever algo relacionado a uma imagem de um girassol, que afinal de contas não cheguei a usar para ilustrar esse texto:

Você Deu Errado
Esse é o meu texto de maior sucesso, é o mais lido de todos eles. Escrevi ele enquanto ouvia "Bad Romance", embora eu não goste muito de Lady Gaga. Ele é um dos meus três textos mais expressivos, ao lado de Simbolismo Negro e Você é o Culpado.

O Príncipe na Armadura Reluzente
Outro texto que eu gosto muito. Comentei sobre ele em um texto que escrevi mais tarde, Uma Palavra. Para criar seu enredo, levei em consideração várias coisas. São elas: Uma situação de rejeição que eu passei; As reclamações que uma amiga fez do namorado; E o fato de eu discordar do sentimento de alegria incondicional da música "Cannon" de Pachelbel.

Luzes
Esse texto é mais antigo que o blog. Retrata mais ou menos a cena de um filme que eu não assisti, que eu só vi quando estava passando pelo corredor e olhei para a TV por alguns segundos, mas que acabou ficando muito legal.

Amoras Secas
Escrevi "Amoras Secas" com base em uma discussão que tive com um amigo, que dizia que ia achar uma esposa loira e linda que pintaria as unhas de vermelho, mas que se casaria com ela virgem. Aí eu narrei essa história dizendo que aconteceria com ele, e mais tarde eu reescrevi inspirado no filme "17 Outra Vez" e postei no blog.

O Lugar Onde a Felicidade Existe
Outro texto que eu tive inúmeras inspirações: A Música "Fireflies" de Owl City, Uma dríade que aparece em algum filme das Crônicas de Nárnia, a região do Ancient Temple do Zelda Twilight Princess, e uma cena que eu vi na TV, da novela "A Favorita", que tinha um menininho que via o pai batendo na mãe.

As Duas Faces do Amor Incondicional
A primeira imagem do meu blog. Eu tive trabalho para criar as três contas do msn e conseguir as fotos, eu não queria mostrar rostos, mas também queria que parecessem de pessoas reais. Foi inspirado mais ou menos uma premonição minha de algo que quase aconteceu.

Se Eu Não Preciso Pagar para Ter o Mundo
Como foi dito no post, foi inspirado em três coisas, em uma viagem que eu fiz ao Rio de Janeiro, em um texto de uma amiga minha, e em uma conversa com um amigo. É o segundo texto que eu posto que não passa nenhum sentimento realmente ruim: Dom foi o primeiro.

Sem Título
Escrevi-o em um momento de crise. Eu estava me sentindo realmente mal e queria expressar isso. Não foi inspirado em nenhuma música, em nenhum filme, em nada fora os meus sentimentos em um dos piores momentos da minha vida. Eu mesmo não gosto de lê-lo, me traz péssimas lembranças. A única vez que eu o li completamente foi quando o escrevi.

Luta pela Vida
Uma imagem que foi feita totalmente por mim, desde aedição da foto, até a destruição do muro e a pichação (Brincadeira). Não vou dizer que ela tem um sentido, que eu quis passar um sentimento. Como qualquer outra fotografia, serve para quem a vê pensar nos infinitos significados que ela pode ter.

Lembrança
Inspirado nos textos do blog de um amigo. Esse texto serve como continuação de outro, Autopsicometeorologia. Eu não diria bem uma continuação, uma vez que só se retrata de uma descrição dos pensamentos do personagem depois dos fatos ocorridos no texto anterior. Eles não são dependentes, você pode ler qualquer um quando quiser, sem ter lido o outro, e isso não vai fazer absolutamente diferença nenhuma no seu entendimento.

Essa foi a minha descrição básica dos textos principais que eu escrevi e postei no Antiquado desde o dia 5 de Maio de 2010. Espero que vocês gostem e continuem lendo meus textos.

Caso queira procurar textos que eu não comentei aqui, sobre algum tema específico, basta selecioná-lo na nuvem de tags, do lado direito da página do blog, sob o histórico. Eu separei os textos por tema minuciosamente para facilitar quando qualquer leitor estiver com vontade de ler algo em específico.



Atenciosamente,